Recentes desdobramentos nas nações da América Central, Nicarágua e a Venezuela, oferecem não só indicações sobre o direcionamento dessas sociedades, mas também uma completa desmistificação de um dos mitos mais persistentes sobre perseguições contra os cristãos no início do século XXI.
Desde que o assunto surgiu como uma questão de debate político e midiático na década de 1990, a discussão sobre as perseguições contra os cristãos passou por várias fases de negação.
A primeira foi a ideia de que não havia tal coisa, alimentada pela suspeita em alguns circuitos culturais e midiáticos de que "as perseguições contra cristãos" tinham sido exageradas por cristãos ocidentais conservadores procurando ganhar simpatia a fim de fazer passar suas posições socialmente impopulares sobre questões relacionadas à homossexualidade e às mulheres.
Após a ascensão do ISIS no Iraque e na Síria a ideia de que a perseguição fosse uma falácia se tornou insustentável, e a maioria das pessoas estava disposta a reconhecer que os cristãos estavam realmente sendo perseguidos pelo radicalismo islâmico em várias partes do Oriente Médio.
Mais recentemente, notícias de um possível avanço nas relações China-Vaticano tem novamente chamado atenção sobre o fato de que há uma Igreja perseguida e clandestina na China, e que não são apenas muçulmanos radicais que às vezes veem o cristianismo como uma ameaça.
A negação que resta é a de que os cristãos estão em risco de perseguição apenas onde eles são uma minoria. Nas sociedades em grande parte cristãs, pelo menos é o que o mito reforça, indivíduos cristãos estão seguros - e se não estão, o que eles estão sofrendo não é perseguição "religiosa".
Mesmo uma rápida reflexão, no entanto, é suficiente para demonstrar que não é apenas em lugares onde os cristãos são minoria que há perseguição.
O Center for the Study of Global Christianity (Centro para o Estudo do Cristianismo Global, em português) estima que dos 70 milhões de cristãos que foram martirizados desde a época de Cristo, 45 milhões morreram no século XX. De longe a maior concentração foi na União Soviética, chegando até 25 milhões mortos dentro Rússia e mais 08 milhões na Ucrânia. Tanto a Rússia como a Ucrânia são sociedades profundamente cristãs e assim têm sido há séculos, mesmo durante o período em que eram governadas por regimes oficialmente ateístas.
Muitos dos mais célebres mártires do século XX vieram da América Latina, entre os cristãos que resistiram as políticas de estado da região. Um lembrete desse histórico virá em outubro, quando a Papa Francisco canonizará oficialmente o arcebispo Oscar Romero de El Salvador, que foi morto a tiros enquanto rezava uma missa em 1980 pela defesa dos pobres e das vítimas de violações dos direitos humanos.
Outros exemplos destes mártires incluem a irmã americana Dorothy Stang, a grande "mártir da Amazônia", no Brasil, que é esmagadoramente católico; e, Maria Elizabeth Macías Castro, líder do movimento leigo dos Escalabrinianos e popular blogueira, decapitada no México em 2011 por expor as atividades de um cartel de drogas.
Hoje, a América Latina está mais uma vez na linha de frente da exposição do mito de “apenas uma minoria”. A violência na Nicarágua e as tensões políticas na Venezuela estão aí para provar.







