terça-feira, 25 de outubro de 2016

Doutrina da Fé publica Instrução sobre sepultura e cremação


CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

Instrução Ad resurgendum cum Christo
a propósito da sepultura dos defuntos
e da conservação das cinzas da cremação

1. Para ressuscitar com Cristo, é necessário morrer com Cristo, isto é, “exilarmo-nos do corpo para irmos habitar junto do Senhor” (2 Cor 5, 8). Com a Instrução Piam et constantem, de 5 de Julho de 1963, o então chamado Santo Ofício, estabeleceu que “seja fielmente conservado o costume de enterrar os cadáveres dos fiéis”, acrescentando, ainda, que a cremação não é “em si mesma contrária à religião cristã”. Mais ainda, afirmava que não devem ser negados os sacramentos e as exéquias àqueles que pediram para ser cremados, na condição de que tal escolha não seja querida “como a negação dos dogmas cristãos, ou num espírito sectário, ou ainda, por ódio contra a religião católica e à Igreja”.[1]Esta mudança da disciplina eclesiástica foi consignada no Código de Direito Canônico (1983) e no Código dos Cânones da Igreja Oriental (1990).

Entretanto, a prática da cremação difundiu-se bastante em muitas Nações e, ao mesmo tempo, difundem-se, também, novas ideias contrastantes com a fé da Igreja. Depois de a seu tempo se ter ouvido a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos e numerosas Conferências Episcopais e Sinodais dos bispos das Igrejas Orientais, a Congregação para a Doutrina da Fé considerou oportuno publicar uma nova Instrução, a fim de repôr as razões doutrinais e pastorais da preferência a dar à sepultura dos corpos e, ao mesmo tempo, dar normas sobre o que diz respeito à conservação das cinzas no caso da cremação.

2. A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da fé cristã, anunciada come parte fundamental do Mistério pascal desde as origens do cristianismo: “Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro e depois aos Doze” (1 Cor 15, 3-5).

Pela sua morte e ressurreição, Cristo libertou-nos do pecado e deu-nos uma vida nova: “como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivemos uma vida nova” (Rom 6, 4). Por outro lado, Cristo ressuscitado é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram….; do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo todos serão restituídos à vida” (1 Cor 15, 20-22).

Se é verdade que Cristo nos ressuscitará “no último dia”, é também verdade que, de certa forma já ressuscitamos com Cristo. De facto, pelo Batismo, estamos imersos na morte e ressurreição de Cristo e sacramentalmente assimilados a Ele: “Sepultados com Ele no batismo, também com Ele fostes ressuscitados pela fé que tivestes no poder de Deus, que O ressuscitou dos mortos” (Col2, 12). Unidos a Cristo pelo Batismo, participamos já, realmente, na vida de Cristo ressuscitado (cf. Ef 2, 6).

Graças a Cristo, a morte cristã tem um significado positivo. A liturgia da Igreja reza: “Para os que creem em vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna”.[2]Na morte, o espírito separa-se do corpo, mas na ressurreição Deus torna a dar vida incorruptível ao nosso corpo transformado, reunindo-o, de novo, ao nosso espírito. Também nos nossos dias a Igreja é chamada a anunciar a fé na ressurreição: “A ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: acreditando nisso somos o que professamos”.[3]

3. Seguindo a antiga tradição cristã, a Igreja recomenda insistentemente que os corpos dos defuntos sejam sepultados no cemitério ou num lugar sagrado.[4]

Ao lembrar a morte, sepultura e ressurreição do Senhor, mistério à luz do qual se manifesta o sentido cristão da morte,[5]a inumação é, antes de mais, a forma mais idônea para exprimir a fé e a esperança na ressurreição corporal.[6]

A Igreja, que como Mãe acompanhou o cristão durante a sua peregrinação terrena, oferece ao Pai, em Cristo, o filho da sua graça e entrega à terra os restos mortais na esperança de que ressuscitará para a glória.[7]

Enterrando os corpos dos fiéis defuntos, a Igreja confirma a fé na ressurreição da carne,[8]e deseja colocar em relevo a grande dignidade do corpo humano como parte integrante da pessoa da qual o corpo condivide a história.[9] Não pode, por isso, permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções errôneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa; seja o momento da sua fusão com a Mãe natureza ou com o universo; seja como uma etapa no processo da reincarnação; seja ainda, como a libertação definitiva da “prisão” do corpo.

Por outro lado, a sepultura nos cemitérios ou noutros lugares sagrados responde adequadamente à piedade e ao respeito devido aos corpos dos fiéis defuntos, que, mediante o Batismo, se tornaram templo do Espírito Santo e dos quais, “como instrumentos e vasos, se serviu santamente o Espírito Santo para realizar tantas boas obras”.[10]

O justo Tobias é elogiado pelos méritos alcançados junto de Deus por ter enterrado os mortos,[11]e a Igreja considera a sepultura dos mortos como uma obra de misericórdia corporal.[12]

Ainda mais, a sepultura dos corpos dos fiéis defuntos nos cemitérios ou noutros lugares sagrados favorece a memória e a oração pelos defuntos da parte dos seus familiares e de toda a comunidade cristã, assim como a veneração dos mártires e dos santos.

Mediante a sepultura dos corpos nos cemitérios, nas igrejas ou em lugares específicos para tal, a tradição cristã conservou a comunhão entre os vivos e os mortos e opõe-se à tendência a esconder ou privatizar o acontecimento da morte e o significado que ela tem para os cristãos. 

“O Homem não pode ter a pretensão de dispensar Deus”, diz Cardeal


O futuro do Ocidente está comprometido se for construído com as “costas voltadas” para Deus.

A afirmação é do Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em entrevista a jornalistas, em Lisboa.

Dispensar Deus: gera conflito, barbárie, violência

As afirmações do Cardeal vão mais adiante e são mais profundas: “O homem não pode ter a pretensão de dispensar Deus sem correr o risco de morrer e de desaparecer, pela violência que ele próprio cria, as guerras, todas as situações de conflito, de barbárie. Foi o homem que criou tudo isso, porque virou as costas a Deus, porque pensamos que somos autônomos, independentes, que podemos fazer tudo o que queremos”.

Dom Robert, Cardeal Sarah

O cardeal nasceu em uma aldeia de Guiné-Conacri, em 1945. Ele foi nomeado bispo em 1979 por São João Paulo II. Chegou ao Vaticano em 2001, exercendo funções que o levaram a ser criado cardeal por Bento XVI em 2010.

Cardeal Africano

Para o Purpurado, a África não tem “lições” a dar à Europa, além do exemplo que representa o crescimento do catolicismo no continente, desde o início do século XX. “Sei que Deus realiza sempre coisas magníficas com os pobres, com os que não têm nada, os que não são nada”, explica.

O Cardeal Robert Sarah, em 1984, esteve em uma lista de marcados para morrer elaborada pelo regime de seu país.

Para ele, tudo o que aconteceu na sua vida se deve a Deus: “Se nos separarmos de Deus, é como uma árvore sem raízes, morre. Se o rio não tiver uma nascente que o alimente, ele seca, já não tem água”, comenta.

A crise de Deus no Ocidente e a missão dos cristãos

O cardeal Robert Sarah veio a Lisboa para pronunciar uma conferência com uma sugestiva temática: ‘A crise de Deus no Ocidente e a missão dos cristãos’.

A conferência faz parte de uma iniciativa promovida pela Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, e é promovida pela Fundação ‘A Junção do Bem’. 

Deus é fiel às suas promessas


Consideremos, amados irmãos, como o Senhor nos manifesta continuamente a verdade da nossa futura ressur reição, cujas primícias realizou em Nosso Senhor Jesus Cristo, ressuscitando-O de entre os mortos. Pensemos, amados irmãos, na ressurreição que nos mostra a lei do tempo. O dia e a noite falam-nos da ressurreição. Vai-se a noite e desponta o dia; morre o dia e vem a noite. Tomemos como exemplo os frutos da terra. Como se faz a sementeira e como germina a semente? Sai o semeador e lança a semente à terra. Os grãos da semente, secos e nus, caem na terra e desagregam-se; mas a maravilhosa providênciado Senhor fá-los ressuscitar desta mesma desagregação, e de um só grão nascem muitos, que crescem e dão fruto.

Com esta esperança, unam-se as nossas almas Àquele que é fiel às suas promessas e justo em seus juízos. Quem nos proíbe mentir, certamente não mentirá. Nada é impossível a Deus, excepto a mentira. Reavive-se, portanto, a nossa fé n’Ele e acreditemos que tudo Lhe é possível.

Com uma palavra da sua majestade criou o universo e também com uma palavra pode reduzi-lo a nada. Quem ousaria perguntar‑Lhe: Que fizestes? Ou quem poderia opor‑se ao seu poder? Ele faz todas as coisas quando quer e como quer, e nada do que Ele decretou ficará por cumprir. Tudo está na sua presença e nada se opõe à sua vontade; porque os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos; um dia transmite ao outro esta mensagem e a noite a dá a conhecer à outra noite; não são palavras nem linguagem cujo sentido se não perceba.

Se Ele tudo vê e tudo ouve, vivamos em santo temor e afastemo-nos de todo o desejo impuro das obras más, a fim de que a sua misericórdia nos defenda no dia do juízo que há-de vir. Para onde poderíamos fugir da sua mão omnipotente? Que mundo poderia acolher um desertor de Deus? Diz algures a Sagrada Escritura: Para onde irei? Onde poderei evitar a vossa presença? Se subir ao céu, Vós lá estais; se voar para as extremidades da terra, ali está a vossa direita; se descer aos abismos, aí encontrarei o vosso espírito. Em que lugar, portanto, poderia alguém refugiar-se para escapar Àquele que tudo abrange?

Aproximemo-nos de Deus com a alma santificada, erguendo para Ele as nossas mãos puras e sem mancha; amemos o nosso Pai benigno e misericordioso, que nos escolheu para sermos a sua herança.


Da Carta de São Clemente I, papa, aos Coríntios
(Cap. 24, 1-5; 27, 1 – 29, 1: Funk 1, 93-97) (Sec. I)

Na missa, quem deve dizer “Por Cristo, com Cristo…”: só o padre ou todo mundo?


A palavra “doxologia” é um neologismo que vem do grego “doxa” (glória, louvor) e “logos” “palavra”. Portanto, o termo “doxologia” significa “palavra de louvor”.

A frase ” Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre” faz parte da doxologia final, que, por sua vez, é a última parte da Oração Eucarística.

Esta doxologia final da missa, na forma como a conhecemos, é utilizada aproximadamente desde o século VII, em toda a cristandade do Ocidente.

Estas palavras são próprias, única e exclusivamente, do padre (ou bispo) que celebra a missa, e dos sacerdotes concelebrantes. O povo participa dela dizendo “Amém” no final.

“A doxologia final, pela qual se expressa a glorificação de Deus, (…) é afirmada e concluída com a aclamação ‘Amém’ do povo” (IGMR, 78, h). Portanto, durante a doxologia, os fiéis guardam silêncio e só intervêm para unir-se a ela com um forte e contundente “Amém”.

Santo Antônio de Sant'Anna Galvão


O brasileiro Antonio de Sant'Anna Galvão, nasceu em 1739, em Guaratinguetá, São Paulo. Quando tinha treze anos, Antônio foi enviado para estudar com os jesuítas. Desse modo, na sua vida estava plantada a semente da vocação religiosa. Aos vinte e um anos, Antônio deixa os jesuítas e ingressa na Ordem Franciscana, no Rio de Janeiro. 

Em 1768 foi nomeado pregador e confessor do convento das Recolhidas de Santa Teresa. Entre suas penitentes encontrou a Irmã Helena Maria do Sacramento, que tinha visões sobre a fundação de um novo convento. Apesar das dificuldades, frei Galvão e Irmã Helena fundaram, em fevereiro de 1774, o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência. 

Entre dificuldades e perseguições, frei Galvão conseguiu manter e ampliar este convento, construindo inclusive uma igreja anexa ao prédio. Hoje o convento, em São Paulo, é patrimônio cultural da humanidade. Em 1811, a pedido do Bispo de São Paulo, fundou o Recolhimento de Santa Clara em Sorocaba. 

Com a saúde enfraquecida recebeu autorização especial para residir no Recolhimento da Providência. Durante sua última enfermidade, Frei Galvão foi morar num pequeno quarto, ajudado pelas religiosas que lhe prestavam algum alívio e conforto. Ele faleceu com fama de santidade aos 23 de dezembro de 1822. 

Frei Galvão foi chamado "Bandeirante de Cristo", porque tinha na alma a grandeza, o arrojo e fortaleza de um verdadeiro bandeirante. Renunciou a uma brilhante situação no mundo para servir a Jesus Cristo. Cheio do espírito de caridade, não media sacrifícios para aliviar os sofrimentos alheios. Foi considerado santo mesmo já antes de sua morte. 


Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu Vos adoro, louvo e Vos dou graças pelos benefícios que me fizestes. Peço-Vos, por tudo que fez e sofreu o Vosso servo Frei Antônio de Sant'Anna Galvão, que aumenteis em mim a fé, a esperança e a caridade, e Vos digneis conceder-me a graça que ardentemente almejo. Amém. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

STJ condena padre que impediu casal de fazer aborto


O padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Goiás, foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a indenizar o casal Tatielle Gomes da Silva e José Ricardo Dias Lomeu por haver impedido, em 2005, a antecipação de parto de um feto com múltiplas deformações. (*)

Cruz é presidente do movimento Pró-Vida de Anápolis (GO).

Ele propôs habeas corpus e obteve liminar suspendendo procedimento médico no terceiro dia de interrupção da gravidez, apesar de Tatielle haver obtido autorização judicial para interromper a gestação de feto sem viabilidade de vida extrauterina.

Ele deverá indenizar o casal no valor de R$ 60 mil –corrigidos monetariamente e com a incidência de juros de mora a partir do dia que Tatielle deixou o hospital.

Ao julgar recurso especial interposto pelo casal, a relatora, ministra Nancy Andrighi, entendeu que Cruz violou a intimidade do casal e agiu temerariamente para “fazer prevalecer sua posição particular”. Segundo Andrighi, o padre “agrediu-lhes a honra” ao denominar de assassinato a atitude tomada pelo casal sob os auspícios do Estado.

Ainda no entendimento da relatora, “por incúria ou perfídia”, o padre impôs ao casal “estigma emocional que os acompanhará perenemente”.

Seu voto foi acompanhado por unanimidade. Da decisão, cabe apenas embargos de declaração [recursos para esclarecer dúvidas, omissões ou contradição, que não se prestam a invalidar ou reformar uma decisão].

Nos autos, o padre alegou que “as autorizações para abortamento ferem o direito básico à vida existente desde o momento primeiro da concepção” e que “agiu na mais estrita defesa da vida, da vida do pobre bebê, que estava em vias de ser assassinado”.

Sustentou ainda que “a decisão não foi de Luiz Carlos Lodi da Cruz, mas do Poder Judiciário”. Essa tese não foi acolhida por Andrighi.

“Qualquer tentativa de disrupção do nexo causal, sob a alegação de que o recorrido apenas provocou o Estado-Juiz, e foi, efetivamente este que determinou a interrupção da gestação, não merece guarida. A busca do Poder Judiciário por uma tutela de urgência traz, para aquele que a maneja, o ônus da responsabilidade pelos danos que porventura a concessão do pleito venha a produzir, mormente quando ocorre hipótese de abuso de direito”, decidiu a relatora. 

Homilética: 31º Domingo do Tempo Comum - Ano C: "A misericórdia de Deus e a gratidão do pecador".


Uma das expressões que o Evangelho de hoje utiliza parece-me de um grande valor significativo: Jesus estava “atravessando a cidade” de Jericó. Anos, decênios, séculos, milênios atrás, outro Jesus atravessou Jericó. Refiro-me a Josué. Sabe-se que a palavra Jesus é a transcrição grega da palavra Yeschowah, que significa “O Senhor (Javé) é o Salvador”. Os nomes de Jesus e de Josué são, portanto, o mesmo nome.

A narração da conquista de Jericó é grandiloquente. A arca do Senhor presidia aquela imponente procissão, sete sacerdotes tocavam as trombetas diante da arca e, diante dos sacerdotes, um exército em ordem de batalha. Durante seis dias, o Povo de Deus dava uma volta ao redor de Jericó; no sétimo dia, porém, sete voltas, toque de trombetas, gritos do povo e muralha ao chão. Jericó já estava derrotada! A Sagrada Escritura no diz que eles “tomaram a cidade e votaram-na ao interdito, passando a fio de espada tudo o que nela se encontrava, homens, mulheres, crianças, velhos e até mesmo os bois, as ovelhas e os jumentos” (Js 6,21). Barbaridade!

No Novo Testamento, o Novo Josué não tinha como objetivo destruir os muros de Jericó, o que Jesus queria era derrubar os muros do coração de Zaqueu que, por contraste, “era de baixa estatura” (Lc 19,3).

Uma multidão apinhava-se nas ruas por onde o Mestre passava e lá no meio da multidão encontrava-se um homem chefe dos publicanos e rico, bem conhecido em Jericó pelo seu cargo.

Os publicanos eram cobradores de impostos. O imposto era fixado pela autoridade romana e os publicanos cobravam uma sobretaxa, da qual viviam. Isto prestava-se a arbitrariedades, razão pela qual eram facilmente hostilizados pela população.

São Lucas diz que Zaqueu procurava ver Jesus para conhecê-Lo, mas não podia por causa da multidão, pois era muito baixo. Mas o seu desejo é eficaz! Para conseguir realizar o seu propósito, começa por misturar-se com a multidão e depois, sem pensar no ridículo da sua atitude, correndo adiante subiu a um sicômaro para ver Jesus, que devia passar por ali. Não se importa com o que as pessoas possam pensar ao verem um homem da sua posição começar a correr e depois subir numa árvore. É uma formidável lição para nós que, acima de tudo, queremos ver Jesus e permanecer com Ele.

Ademais, Zaqueu não pôs resistência ao chamado de Jesus. Zaqueu era uma dessas pessoas que podemos chamar “um homem de boa vontade”: ele queria ver a Jesus; rico como era, fez o esforço de subir a um sicômoro para ver a um profeta; quando Jesus o chamou, esse bom homem não só aceita com toda alegria que Jesus entre na sua casa, mas é tão generoso que ao descobrir o tesouro da amizade de Jesus, relativiza totalmente aquilo que ele tanto desejou e conquistou durante a sua vida, dinheiro. Jesus votou o coração de Zaqueu ao interdito, passando a fio de espada os vícios que nele se encontrava.

Qualquer esforço que façamos por aproximar-nos de Cristo é amplamente recompensado. Disse Jesus: “Zaqueu desce depressa! Hoje Eu devo ficar na tua casa” (Lc 19, 5). Que alegria imensa! Zaqueu, que já se dava por satisfeito de vê-Lo do alto de uma árvore, ouve Jesus chamá-lo pelo nome, como a um velho amigo, e, e com a mesma confiança, fazer-se convidar para sua casa.

Zaqueu está agora com o Mestre, e com Ele tem tudo. Mostra com atos a sinceridade da sua nova vida; converte-se em mais um discípulo do Mestre.

O encontro com Cristo leva-nos a ser generosos com os outros, a compartilhar imediatamente com quem está mais necessitado o muito ou o pouco que temos.

“Hoje entrou a salvação nesta casa” (Lc 19, 9). É um convite à esperança: se alguma vez o Senhor permite que passemos por dificuldades, se nos sentimos às escuras e perdidos, temos de saber que Jesus, o Bom Pastor, sairá imediatamente em nossa busca. A figura de Zaqueu deve ajudar-nos a nunca dar ninguém por perdido ou irrecuperável.

Não duvidemos nunca do Senhor, da sua bondade e do seu amor pelos homens, por muito extremas ou difíceis que sejam as situações em que nos encontremos ou em que se encontrem as pessoas que queremos levar até Jesus. A sua misericórdia é sempre maior do que os nossos pobres raciocínios. Somente quem está insertado na vida de Deus pode entender o que pode vir a ser a vida dos homens.

Não queiramos fugir da vontade de Deus


Sede vigilantes, irmãos caríssimos, para que os inumeráveis benefícios de Deus não se transformem em condenação para todos nós, se não vivermos de maneira digna d’Ele, isto é, se não realizarmos em mútua concórdia o que é bom e agradável a seus olhos. Ele diz, com efeito, em certo lugar: O Espírito do Senhor é como uma lâmpada que perscruta os mais íntimos segredos do coração.

Consideremos como está perto de nós e recordemos que não Lhe são ocultos os nossos pensamentos e deliberações interiores. É necessário, portanto, que não abandonemos o nosso posto contra a sua vontade. Mais vale desagradar aos homens néscios e insensatos, orgulhosos e presumidos na arrogância das suas palavras, do que ofender a Deus.

Veneremos o Senhor Jesus que derramou por nós o seu Sangue, respeitemos os nossos chefes, honremos os anciãos, formemos os jovens na ciência do temor de Deus, orientemos as esposas no verdadeiro caminho do bem. Sejam dignas de todo o louvor pelo encanto da castidade, dêem provas da sua bondade sincera, manifestem no silêncio a discrição da sua língua; exercitem a caridade sem acepção de pessoas, mas imparcial e santamente, para com todos os que temem a Deus.

Sejam os vossos filhos educados na doutrina de Cristo; aprendam o grande valor que tem diante de Deus a humildade, como é apreciável a seus olhos o amor casto, como é bom e eficaz o temor de Deus que salva todos os que o guardam santamente num coração puro. Porque Deus perscruta os nossos pensamentos e as nossas intenções; o seu Espírito está em nós, mas pode privar-nos d’Ele quando quiser.

Todas estas coisas são confirmadas pela nossa fé em Cristo. É Cristo que nos convida, por meio do seu Espírito, com estas palavras: Vinde, filhos, escutai‑me; ensinar‑vos‑ei o temor do Senhor. Qual é o homem que ama a vida e deseja longos dias de felicidade? Guarda do mal a tua língua e da mentira os teus lábios. Evita o mal e faz o bem; procura a paz e segue-a.

Misericordioso em tudo e rico de benevolência, o Pai abre o seu coração para aqueles que O temem, e com bondade e doçura distribui as suas graças aos que d’Ele se aproximam com simplicidade. Por isso, afastemos de nós toda a duplicidade de espírito e não se orgulhe a nossa alma pelos seus dons incomparáveis e gloriosos.


Da Carta de São Clemente I, papa, aos Coríntios
(Cap. 21, 1 – 22, 5; 23, 1-2: Funk 1, 89-93) (Sec. I)