Pedro Álvares Cabral ordenou que se erguesse um altar na
praia da Coroa Vermelha, convocou seus capitães a passar das caravelas para
batéis e desembarcou na faixa de areia. Era um domingo, dia do Senhor. Sob a
bandeira de Cristo, cercado pela exuberante vegetação tropical, o frade
franciscano Henrique Soares de Coimbra pregou o Evangelho, falou da cruz e da
nova terra na qual ela acabara de chegar e entoou missa – a primeira celebrada
nesta parte do mundo. Era 26 de abril de 1500. O Brasil nascia ali, sob a égide
da Igreja Católica.
Durante a maior parte
dos cinco séculos seguintes, o país e a religião permaneceriam indissociáveis.
Como a licença papal concedida aos portugueses para explorar o Novo Mundo
estava condicionada à expansão da fé, colonização e evangelização
confundiam-se. Com o conquistador, vinha o padre. O amálgama entre Brasil e
catolicismo foi tal que, até a proclamação da República, em 1889, Estado e
Igreja mantiveram-se fundidos no regime conhecido como padroado.
O
país se fez ao redor de igrejas construídas na praça central de cada cidade ou
vilarejo, aprendeu as primeiras letras em escolas geridas por padres e freiras,
formou seu imaginário escutando as histórias dos personagens do Antigo e do
Novo Testamento, construiu toda uma cultura baseada no alicerce dos valores
católicos. Em 1940, meio século após a separação entre Igreja e Estado, 95% dos
brasileiros se declaravam seguidores do Papa.
Agora,
passados 516 anos do primeiro domingo de missa, esse país não existe mais. A
maior nação católica do mundo já não é tão católica assim. Pela primeira vez na
história, talvez já nem se possa mais dizer que o Brasil é um país
católico.Essa é uma transformação significativa, que vem se anunciando nas
estatísticas há mais de 40 anos. Durante esse período, a proporção de
membros da Igreja na população despenca cerca de 10 pontos percentuais a cada
década. Em 1980, eles ainda eram 89%. Passaram rapidamente a 83,3% (1991),
73,6% (2000) e 64,6% (2010). O próximo Censo ocorre apenas daqui a quatro anos,
mas especialistas acreditam que ele vai flagrar a continuidade dessa tendência
– a dúvida é apenas quanto ao tamanho do tombo.
Algumas pesquisas
recentes sugerem que pode ser robusto e que a maioria católica possa estar
ameaçada. O Datafolha, que mede a religiosidade do brasileiro desde 1994,
detectou apenas 57% de católicos em 2013 – no levantamento anterior, em 2010, o
índice foi de 63%, quase igual ao do Censo. Na avaliação do Pew Research
Center, uma instituição norte-americana, o declínio se confirma, mas em ritmo
menos alucinante: em 2014, 81% dos brasileiros diziam ter sido criados como
católicos, mas só 61% afirmavam ser católicos.As pesquisas que chamam mais
atenção e que permitem prever um Brasil não-católico são aquelas centradas nas
faixas etárias mais baixas – grupos que serão os brasileiros de amanhã e sob
cuja orientação vai ser moldada a religiosidade das próximas gerações. Para a
maior parte desses jovens, a igreja apostólica romana dos seus pais e avós
significa pouco. Levantamento feito três anos atrás pelo Instituto Data Popular
apontou que só 44% dos brasileiros de 16 a 24 anos definiam-se como católicos.
Em alguns estratos, há indícios de que os crentes sejam ainda mais minoritários.
Em 2015, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
realizou uma pesquisa, em todas as unidades da federação, com pessoas de 18 a
34 anos. A amostra não refletia o perfil exato do brasileiro, privilegiando
pessoas de classes B e C e com instrução acima da média. Mesmo com esse reparo,
o dado espanta: só 34,3% disseram seguir o catolicismo.
O
bispo auxiliar de Porto Alegre Leomar Antônio Brustolin, que coordena a
pós-graduação em Teologia da PUCRS, reconhece: o Brasil já não pode mais ser
definido como um país católico. Ele avalia o encolhimento do rebanho como parte
de algo mais amplo, um enfraquecimento dos valores cristãos.
–
Temos feito há anos essa reflexão na Igreja Católica. Constata-se, e essa é
inclusive a posição da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil), que
vivemos numa sociedade pós-cristã. Permanecem, por exemplo, os feriados nas
datas do cristianismo, mas eles não têm mais o mesmo significado e a mesma
vivência – diz o bispo, que relata ter provocado controvérsia, durante uma
celebração de Corpus Christi, por defender a ideia de que certos feriados
católicos deveriam ser revistos no Brasil, uma vez que seu sentido se perdeu
para grande parte da população. – Quando o nosso pai morre, a gente não
continua celebrando o aniversário dele – compara.








