Dar e receber perdão. Desviar-se e ser acolhido ao
regressar. Pedir ajuda sem precisar humilhar-se. Ter alguém com quem chorar as
próprias desventuras. Saber que errou e ter a chance de reparar. Não precisar
disfarçar as próprias feridas sob o olhar compassivo do outro. Festejar a
alforria da escravidão. Ter amigos e recitar seus nomes sem receio. Ser
visitado quando doente ou prisioneiro. Sentir-se sinceramente aceito pelos
demais. Ter um endereço seguro ao termo das viagens. Ser consolado na aflição.
Receber a defesa da verdade quando injustiçado. Encontrar abrigo nas horas de
tempestade. Sentar-se à mesa e partilhar o pão. Provar afetos. Libertar-se das
mágoas. Curar os remorsos. Ser tratado com dignidade, mesmo na pobreza.
Saber-se amado, com tudo e apesar de tudo. Assim é a experiência da
misericórdia: regeneradora, paciente, gratuita, alegre. Pois é sempre - e
fundamentalmente - uma experiência de amor: amor em ato de resgate, em ato de
cura, em ato de salvação. De tal modo, que o hino da caridade de 1Cor 13
poderia ser entoado à misericórdia, especialmente quando esta procede de Deus.
Enquanto compaixão, misericórdia e ternura se ampliam e divagam nas
inúmeras variações de linguagem, se abraçam e se concentram na experiência
humana - avessa a fronteiras estreitas quando se trata de amor. Compaixão,
misericórdia e ternura se repartem entre si, se aliam à piedade, justiça e
solidariedade e, assim, cooperam mutuamente na edificação de uma humanidade
reconciliada e feliz. É o que verificamos nas páginas da Bíblia, na voz dos místicos,
na observação profunda da psique, no protesto das artes e no aprendizado
dramático da história - sempre à caça de olhares capazes de discernimento.
1.
Compaixão: afeto que mobiliza
A compaixão é geralmente experimentada como um
"sentir com o outro" em face de suas aflições. Contudo, o que a
caracteriza não é só este afeto específico (affectus), mas o movimento que ele
causa (motus). Pois trata-se de um "sentir com" que constrange,
desloca e afeta as "motivações" - no sentido original de moção ou movimento.
De fato, a compaixão pousa o olhar e o coração sobre as dores do outro, fazendo
deste outro não um alheio, mas um próximo. É sentimento que move ao encontro,
que motiva afetivamente uma aproximação efetiva. Os textos bíblicos raramente
dizem "sentir compaixão"; o que mais destacam é "mover-se de
compaixão" (cf. Êx 3,7-8; Os 11,8; Lc 10,33; Lc 15,20; Mc 6,34).
Quem se compadece, faz jus à preposição com que
registra esse sentir nas línguas neo-latinas: compadecer, compassivo, compaixão
- do latim compatire. De tal modo, que o afeto se faz compatível com a situação
de carência do outro, aproximando o sujeito do próximo que padece. O affectus,
sem este motus, não seria compaixão. Por isso, a compaixão favorece a prática
da misericórdia, uma vez que é um sentir que move à solidariedade. Do sentir ao
praticar, a compaixão dá um passo e se faz obra de misericórdia. Sem
misericórdia o motus afetivo da compaixão seria um sentir estéril e incompleto,
que não encontrou o seu sentido. Enquanto que, sem compaixão, a misericórdia
perderia seu afeto, dissociada do coração e motivada, unilateralmente, pela
superioridade daquele que ajuda o necessitado, visto como inferior.
Compaixão,
piedade e justiça:
De fato, a compaixão realiza uma "proximidade
solidária", como deduzimos do prefixo com de sua versão latina
(com-passio) e grega (syn-pathos). Tanto com quanto syn mostram a reciprocidade
que põe face a face aquele que oferece e aquele que recebe compaixão. Pois
embora a situação de carência os distinga, a humanidade que partilham é a
mesma. Diversamente do caso de Deus, que age com a distinção da graça: sendo
Ele divino, se compadece da humanidade realmente, sem renunciar à sua
divindade, aproximando-se de nós por gratuita benevolência. Fato extremo e
paradoxal dessa divina compaixão se dá na encarnação, paixão e ressurreição do
Verbo, Jesus de Nazaré: a piedade divina assume a miséria humana
historicamente, para elevar a humanidade à comunhão com Deus. Assim, a divina
compaixão se mostra claramente no mysterium pietatis que nos devolveu a
liberdade e a dignidade de filhos de Deus (cf. 1Tm 3,16).
Diferente da linguagem greco-romana, os termos
hebraicos para designar "compaixão" são, a seu modo, muito
sugestivos. Seus radicais lingüísticos indicam uma relação eficaz entre Deus e
a humanidade: relação de Aliança, que move o coração de Deus a socorrer e
resgatar seu povo. Por isso o hebraico privilegia o termo rehem (útero,
entranhas) para indicar o amor compassivo de Deus, capaz de "refazer"
o ser amado à semelhança da geração materna. Outras vezes aparece hesed - graça
ou favor imerecido, que dispõe o coração divino ao perdão das faltas e dívidas
humanas. Rehem e hesed expressam a solicitude amorosa de Deus por nós, seus
filhos e filhas.
O Novo Testamento usa geralmente a palavra grega
éleos - piedade, compaixão ou benevolência - donde deriva o verbo eléison:
"ter piedade". É o clamor que a humanidade eleva a Deus, como
entoamos na liturgia judaica (rahém alêinu) e cristã, no Oriente (eléison
hymas) e no Ocidente (miserere nobis).
Nas relações fraternas, a compaixão move o sujeito
ao próximo carente e miserável, abrindo as portas da solidariedade. Tal
comportamente diferencia o homem justo (pio) do injusto (ímpio). De fato, a
piedade está mais ligada à justiça, do que ao sentimento de pena ou dó. Se o
Direito tarda em socorrer os aflitos, a compaixão nos leva solicitamente até
eles, favorecendo obras de misericórdia. Assim, a compaixão adianta-se à Lei e
garante que o bem seja feito, a começar dos mais carentes. Compaixão, piedade e
justiça caminham juntas[1].








