Na Liturgia deste domingo, continua a leitura do chamado “Sermão da Montanha” de Jesus, que ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de São Mateus. Depois das “Bem-Aventuranças”, que são o seu programa de vida, Jesus proclama a nova Lei, a sua Torá, como a chamam os nossos irmãos judeus. Com efeito, com a sua vinda, o Messias devia trazer, também, a Revelação definitiva da Lei, e é, precisamente, isto que Jesus declara: “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas, sim para os levar à perfeição”.
Para iluminar esta verdade, Jesus dá alguns exemplos práticos que a Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece. A Lei de Moisés prescreve o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspectiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao outro. Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos de Jesus não se limitam a cumprir a letra da Lei; eles têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os levem a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do outro.
Deus implantou na alma humana uma luz intelectual pela qual o homem conhece que o bem deve ser praticado e o mal, evitado. Na primeira parte do Evangelho deste domingo (v. 17-19), o evangelista São Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai (cf. Ex 20,1-21). A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso ser vista como a expressão concreta de uma adesão total a Deus. Os fariseus achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas. Eram eles rigorosos na observância da letra da Lei, mas não eram capazes de penetrar no âmago de seu espírito, onde está a verdade, a justiça, o amor.
Somos convidados a refletir sobre qual deve ser a atitude do cristão, diante da Lei de Deus, e as implicações que a mesma tem nas nossas opções de vida. O que Jesus deseja é a perfeição da Lei, realmente, uma observância do coração: não simplesmente matar, fisicamente, mas evitar matar psicológica e moralmente o irmão por desprezo, depreciação e inveja. A vida humana é sagrada, por isto deve ser respeitada, pois desde a sua origem, postula a ação criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. Só Deus é o Senhor da vida, desde o seu começo até ao seu termo: ninguém, em circunstância alguma, pode reivindicar o direito de dar a morte diretamente a um ser humano inocente (cf. CIgC n. 2258).
Não basta não cometer adultério; é preciso também não alimentar, no coração, a cobiça por mulher casada ou homem casado, e ser fiel ao compromisso assumido no casamento (Mt 5, 27).
A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema, por isto disse o Senhor que olhar com desejos libidinosos para uma mulher já é cometer adultério no coração. E, mais ainda: se na Lei antiga tinha entrado o divórcio, a lei do Evangelho não admite o divórcio. Quem repudiar sua mulher com a qual estiver legitimamente casado, faz com que ela adultere; e quem se casar com a repudiada comete adultério (v. 31-32). Jesus veio restaurar a criação na pureza das suas origens.
A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei precisa ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida (cf. Gn 2,18-24). Amar quer dizer não só desejar, mas respeitar, merecer e aprender o mútuo respeito, tendo sempre diante dos olhos o vínculo que no matrimônio une dois seres humanos. Amar é ter a consciência de que tal união é indissolúvel, dura, por instituição divina até a morte.
Observar a Lei, não significa reduzi-la a cultos de observâncias, mas, exige uma contínua conversão interior que inspire o amor, a justiça, a misericórdia e as relações fraternas, numa simplicidade de criança. Só em Deus poderemos conseguir a luz e a força, para alcançarmos o procedimento ideal que nos conduzirá à verdadeira liberdade e à plena felicidade.
Jesus não veio abolir a lei, mas levá-la à perfeição. Depois de ter anunciado os grandes princípios da nova lei, nas bem-aventuranças, Jesus desenvolve-as, aprofundando o espírito dos mandamentos dados ao povo de Deus por Moisés. Trata-se de cumprir não apenas materialmente os mandamentos, mas de dar-lhes o verdadeiro espírito de justiça e de amor. Daí as palavras de Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos; Eu, porém, vos digo” (Mt 5, 17-37). Isso, em relação à vida, à felicidade, ao amor conjugal e à verdade. Não basta, por exemplo, não matar; é preciso, também, evitar palavras de desamor, de ressentimento ou de desprezo para com o próximo.
Não basta privar-se dos atos materiais contra a lei; é preciso eliminar, também, os maus pensamentos e os maus desejos, porque, quem os consente, já pecou, no “seu coração” (Mt 5, 28): já assassinou o seu irmão ou cometeu adultério.
É preciso superar a lei antiga, aperfeiçoá-la, isto é, tendo uma delicada atenção à pureza interior… Com efeito, com a sua vinda, o Messias devia trazer também a Revelação definitiva da Lei, e é, precisamente, isto que Jesus declara: “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas, sim, para os levar à perfeição”. E, dirigindo-se aos seus discípulos, acrescenta: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 17.20). Em que consiste essa “plenitude” da Lei de Cristo, essa justiça “superior” que Ele exige?
Jesus explica-o mediante uma série de antíteses entre os Mandamentos antigos e o seu modo de os repropor. Cada vez começa: “Ouvistes o que foi dito aos antigos…”, e, então, afirma: “Mas Eu vos digo…”. Por exemplo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal; mas Eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes” (Mt 5, 21-22). E, assim, por seis vezes. Este modo de falar causava grande impressão no povo, que permanecia assustado, porque aquele, “Eu vos digo,” equivalia a reivindicar para si a mesma autoridade de Deus, fonte da Lei. A novidade de Jesus consiste, essencialmente, no fato de que Ele mesmo “completa” os Mandamentos com o Amor de Deus, com a força do Espírito Santo que habita n’Ele. E nós, através da fé em Cristo, podemos abrir-nos à obra do Espírito Santo, que nos torna capazes de viver o amor divino. Por isso, cada preceito se torna verdadeiro, como exigência de amor, e todos convergem num único Mandamento: ama a Deus com todo o coração, e ao teu próximo como a ti mesmo. “ O amor é o cumprimento perfeito da Lei”, escreve São Paulo (Rm 13, 10).
“Se vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus…” (Mt 5, 20). Não se trata da virtude da justiça que leva a “dar a cada um aquilo que lhe pertence”. Aqui podia traduzir-se por santidade; a dos escribas é meramente externa e ritualista. Entre eles, o cumprimento exato, minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se convertido numa garantia de salvação do homem diante de Deus: “se eu cumpri isto, sou justo, sou santo e Deus tem que me salvar”.
Com esse modo de conceber a justificação, já não é Deus fundamentalmente quem salva, mas vem a ser o homem quem se salva pelas suas obras externas. A justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça.
Quanto à verdade, diz Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mt 5, 37). O cristão é chamado a ser transparente, simples. O contrário seria cheio de dobras, complicado. Não é só não jurar em falso, mas viver de tal modo a verdade, que não se precise jurar de modo algum. Fazer tudo em nome do Senhor, no Senhor. O demônio é o “pai da mentira” (Jo 8, 44).
Portanto, na Igreja de Cristo, não podem tolerar-se umas relações humanas baseadas no engano, na hipocrisia. Deus é a verdade, e os filhos do Reino têm, pois, que fundamentar as suas relações na verdade. Jesus quer inculcar a sinceridade sempre: “sim, sim; não, não!” Se partirmos do princípio da sinceridade, há confiança mútua nas relações humanas e jurar torna-se coisa supérflua; jurar a torto e a direito é um sintoma de falta de sinceridade entre as pessoas.
A necessidade de juramento é sinal de que a mentira e a desconfiança pervertem as relações humanas. Deus Pai apenas exige um relacionamento em que as pessoas sejam verdadeiras e responsáveis. E nós, como observamos os Mandamentos? Com o espírito do Antigo Testamento? (fazer isto ou aquilo porque é lei, porque é “obrigado”?) Por que vou à Missa? Por que é um preceito? “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 20).
“Quem me ama, guarda os meus mandamentos”, disse Jesus. Seja a nossa observância uma expressão sincera e profunda do nosso amor para com Deus. Peçamos a Deus a Graça de vivermos os seus mandamentos. “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás” (Eclo 15, 16). “A vida e a morte, o bem e o mal, estão diante do homem; o que ele escolher, isso será dado” (Eclo 15, 16-18). É como quem diz: o que seguir a lei divina, terá como recompensa a vida e o que não a seguir, espera-o a morte. Tanto a vida como a morte eterna são a consequência da sua opção. O homem é livre e, por isso, responsável das suas ações…






