segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Homilética: 6º Domingo do Tempo Comum - Ano A: "Cumprir a vontade do Pai".


Na Liturgia deste domingo, continua a leitura do chamado “Sermão da Montanha” de Jesus, que ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de São Mateus. Depois das “Bem-Aventuranças”, que são o seu programa de vida, Jesus proclama a nova Lei, a sua Torá, como a chamam os nossos irmãos judeus. Com efeito, com a sua vinda, o Messias devia trazer, também, a Revelação definitiva da Lei, e é, precisamente, isto que Jesus declara: “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas, sim para os levar à perfeição”. 

Para iluminar esta verdade, Jesus dá alguns exemplos práticos que a Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece.  A Lei de Moisés prescreve o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspectiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao outro.  Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos de Jesus não se limitam a cumprir a letra da Lei; eles têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os levem a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do outro. 

Deus implantou na alma humana uma luz intelectual pela qual o homem conhece que o bem deve ser praticado e o mal, evitado.  Na primeira parte do Evangelho deste domingo (v. 17-19), o evangelista São Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai (cf. Ex 20,1-21). A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso ser vista como a expressão concreta de uma adesão total a Deus. Os fariseus achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas. Eram eles rigorosos na observância da letra da Lei, mas não eram capazes de penetrar no âmago de seu espírito, onde está a verdade, a justiça, o amor. 

Somos convidados a refletir sobre qual deve ser a atitude do cristão, diante da Lei de Deus, e as implicações que a mesma tem nas nossas opções de vida. O que Jesus deseja é a perfeição da Lei, realmente, uma observância do coração: não simplesmente matar, fisicamente, mas evitar matar psicológica e moralmente o irmão por desprezo, depreciação e inveja. A vida humana é sagrada, por isto deve ser respeitada, pois desde a sua origem, postula a ação criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. Só Deus é o Senhor da vida, desde o seu começo até ao seu termo: ninguém, em circunstância alguma, pode reivindicar o direito de dar a morte diretamente a um ser humano inocente (cf. CIgC n. 2258).

Não basta não cometer adultério; é preciso também não alimentar, no coração, a cobiça por mulher casada ou homem casado, e ser fiel ao compromisso assumido no casamento (Mt 5, 27). 

A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema, por isto disse o Senhor que olhar com desejos libidinosos para uma mulher já é cometer adultério no coração.  E, mais ainda: se na Lei antiga tinha entrado o divórcio, a lei do Evangelho não admite o divórcio.  Quem repudiar sua mulher com a qual estiver legitimamente casado, faz com que ela adultere; e quem se casar com a repudiada comete adultério (v. 31-32). Jesus veio restaurar a criação na pureza das suas origens. 

A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei precisa ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida (cf. Gn 2,18-24). Amar quer dizer não só desejar, mas respeitar, merecer e aprender o mútuo respeito, tendo sempre diante dos olhos o vínculo que no matrimônio une dois seres humanos. Amar é ter a consciência de que tal união é indissolúvel, dura, por instituição divina até a morte.

Observar a Lei, não significa reduzi-la a cultos de observâncias, mas, exige uma contínua conversão interior que inspire o amor, a justiça, a misericórdia e as relações fraternas, numa simplicidade de criança. Só em Deus poderemos conseguir a luz e a força, para alcançarmos o procedimento ideal que nos conduzirá à verdadeira liberdade e à plena felicidade.

Jesus não veio abolir a lei, mas levá-la à perfeição. Depois de ter anunciado os grandes princípios da nova lei, nas bem-aventuranças, Jesus desenvolve-as, aprofundando o espírito dos mandamentos dados ao povo de Deus por Moisés. Trata-se de cumprir não apenas materialmente os mandamentos, mas de dar-lhes o verdadeiro espírito de justiça e de amor. Daí as palavras de Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos; Eu, porém, vos digo” (Mt 5, 17-37). Isso, em relação à vida, à felicidade, ao amor conjugal e à verdade. Não basta, por exemplo, não matar; é preciso, também, evitar palavras de desamor, de ressentimento ou de desprezo para com o próximo. 

Não basta privar-se dos atos materiais contra a lei; é preciso eliminar, também, os maus pensamentos e os maus desejos, porque, quem os consente, já pecou, no “seu coração” (Mt 5, 28): já assassinou o seu irmão ou cometeu adultério. 

É preciso superar a lei antiga, aperfeiçoá-la, isto é, tendo uma delicada atenção à pureza interior… Com efeito, com a sua vinda, o Messias devia trazer também a Revelação definitiva da Lei, e é, precisamente, isto que Jesus declara: “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas, sim, para os levar à perfeição”. E, dirigindo-se aos seus discípulos, acrescenta: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 17.20). Em que consiste essa “plenitude” da Lei de Cristo, essa justiça “superior” que Ele exige?

Jesus explica-o mediante uma série de antíteses entre os Mandamentos antigos e o seu modo de os repropor. Cada vez começa: “Ouvistes o que foi dito aos antigos…”, e, então, afirma: “Mas Eu vos digo…”. Por exemplo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal; mas Eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes” (Mt 5, 21-22). E, assim, por seis vezes. Este modo de falar causava grande impressão no povo, que permanecia assustado, porque aquele, “Eu vos digo,” equivalia a reivindicar para si a mesma autoridade de Deus, fonte da Lei. A novidade de Jesus consiste, essencialmente, no fato de que Ele mesmo “completa” os Mandamentos com o Amor de Deus, com a força do Espírito Santo que habita n’Ele. E nós, através da fé em Cristo, podemos abrir-nos à obra do Espírito Santo, que nos torna capazes de viver o amor divino. Por isso, cada preceito se torna verdadeiro, como exigência de amor, e todos convergem num único Mandamento: ama a Deus com todo o coração, e ao teu próximo como a ti mesmo. “ O amor é o cumprimento perfeito da Lei”, escreve São Paulo (Rm 13, 10).

“Se vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus…” (Mt 5, 20). Não se trata da virtude da justiça que leva a “dar a cada um aquilo que lhe pertence”. Aqui podia traduzir-se por santidade; a dos escribas é meramente externa e ritualista. Entre eles, o cumprimento exato, minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se convertido numa garantia de salvação do homem diante de Deus: “se eu cumpri isto, sou justo, sou santo e Deus tem que me salvar”.

Com esse modo de conceber a justificação, já não é Deus fundamentalmente quem salva, mas vem a ser o homem quem se salva pelas suas obras externas. A justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça.

Quanto à verdade, diz Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mt 5, 37). O cristão é chamado a ser transparente, simples. O contrário seria cheio de dobras, complicado. Não é só não jurar em falso, mas viver de tal modo a verdade, que não se precise jurar de modo algum. Fazer tudo em nome do Senhor, no Senhor. O demônio é o “pai da mentira” (Jo 8, 44).

Portanto, na Igreja de Cristo, não podem tolerar-se umas relações humanas baseadas no engano, na hipocrisia. Deus é a verdade, e os filhos do Reino têm, pois, que fundamentar as suas relações na verdade. Jesus quer inculcar a sinceridade sempre: “sim, sim; não, não!” Se partirmos do princípio da sinceridade, há confiança mútua nas relações humanas e jurar torna-se coisa supérflua; jurar a torto e a direito é um sintoma de falta de sinceridade entre as pessoas.

A necessidade de juramento é sinal de que a mentira e a desconfiança pervertem as relações humanas. Deus Pai apenas exige um relacionamento em que as pessoas sejam verdadeiras e responsáveis. E nós, como observamos os Mandamentos? Com o espírito do Antigo Testamento? (fazer isto ou aquilo porque é lei, porque é “obrigado”?) Por que vou à Missa? Por que é um preceito? “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 20).

“Quem me ama, guarda os meus mandamentos”, disse Jesus. Seja a nossa observância uma expressão sincera e profunda do nosso amor para com Deus. Peçamos a Deus a Graça de vivermos os seus mandamentos. “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás” (Eclo 15, 16). “A vida e a morte, o bem e o mal, estão diante do homem; o que ele escolher, isso será dado” (Eclo 15, 16-18). É como quem diz: o que seguir a lei divina, terá como recompensa a vida e o que não a seguir, espera-o a morte. Tanto a vida como a morte eterna são a consequência da sua opção. O homem é livre e, por isso, responsável das suas ações…


Comentário dos textos bíblicos

Leituras: Eclo 15,16-21; 1Cor 2,6-10; Evangelho: Mt 5,17-37

O livro do Eclesiástico (Sirácida) nos apresenta, nesse trecho, o livre-arbítrio humano e o amor e a fidelidade de Deus. Ao criar o ser humano, Deus “o entregou às mãos do seu arbítrio” (v. 14). Ofereceu-lhe seus mandamentos e o revestiu de inteligência. O ser humano tem, portanto, o poder de escolher! Deus a ele nada impõe, apenas propõe: “se quiseres guardar os mandamentos, eles te guardarão” (v. 16). “Se confias em Deus, tu também viverás” (v. 16). Observar os mandamentos de Deus e nele confiar consiste em viver! A vida entregue nas mãos de Deus (confiança) traduz-se na observância dos mandamentos divinos.

“Diante do ser humano estão a vida e a morte, o bem e o mal” (v. 18). Cabe-lhe escolher entre os opostos. Seguir a vontade de Deus, expressa em sua Palavra normativa, consiste em optar pela vida e pelo bem. Confiar em si mesmo e não em Deus redunda em escolher a morte e o mal.

Embora o ser humano seja livre para escolher entre os opostos, é sábio escolher o bem, ou seja, a vida! O exercício da liberdade encontra-se indissociável da sabedoria. Quanto mais conhecemos a vontade divina, mais livres somos para escolher!

Deus “não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença para pecar” (v. 21). O Pai quer que seus filhos escolham o caminho da salvação. Ele não quer que nos entreguemos ao absurdo do pecado. Este não se apresenta como condição própria do ser humano. Deus nos criou não para pecar, mas para não pecar! O pecado, portanto, não é inevitável! O Pai se preocupa com seus filhos. Sua Palavra normativa aponta o caminho para evitar o pecado. Em nossa liberdade, podemos evitar o mal. Se agimos com sabedoria: seguir a vontade de Deus, que é caminho da salvação, no exercício de nossa liberdade, evitamos o erro!

No trecho da sua primeira carta aos Coríntios, Paulo fala da “misteriosa   sabedoria de Deus” (v. 7). Não se trata de contrapor a sabedoria humana à sabedoria da cruz. Trata-se de aceitar na fé o anúncio do Cristo crucificado e sua compreensão mediante a iluminação do Espírito Santo.

A “misteriosa sabedoria de Deus” refere-se à cruz de Cristo. Ter acesso a essa sabedoria que o mundo não conhece não consiste apenas na fé em seu conteúdo, mas em sua compreensão. Esta só se atinge mediante a iluminação do Espírito do Senhor.

Essa “sabedoria escondida” (v. 7) expressa o plano de salvação de Deus, centrado na cruz de Cristo. Nela encontra-se o modo pelo qual o Pai, “desde a eternidade”, projetou a salvação gratuita do ser humano, chamando-o (predestinando-o) a participar da glória de Jesus Cristo ressuscitado mediante a sua cruz.

Ora, no amadurecimento da fé pode-se atingir essa sabedoria. Aberto à ação do Espírito Santo, o cristão caminha na compreensão do plano salvífico do Pai. Inseparável da cruz de Cristo, o projeto do Pai é compreendido na participação de vida no amor.

O tema sublinhado no trecho do evangelho de hoje refere-se à lei: Jesus reinterpreta o Decálogo. Nessa reinterpretação, encontram-se três atitudes de Jesus: continuidade: “Não vim abolir”; plenitude: “dar pleno cumprimento”; ruptura: “Ouvistes o que foi dito aos antigos […] Eu porém vos digo”. Jesus não fica na letra da lei, mas penetra o seu espírito. Ele vai além da letra.

No “ir além” está o espaço da generosidade e da criatividade. A generosidade e a criatividade de Deus são infinitas. O que importa a Jesus é a vontade do Pai. Ele reinterpreta algumas leis do Primeiro Testamento. Faz uma demonstração de como é possível dar o passo necessário para ir além da letra da lei.

A meta do discípulo consiste em proceder segundo o modo de proceder do Pai. Ora, a generosidade caracteriza o proceder do Pai: “faz o sol nascer sobre bons e maus”. A reinterpretação de Jesus culmina em seu pedido aos discípulos: “sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (v. 48). Assim, o discípulo de Jesus, ao cumprir a lei de Deus, deve ser generoso e criativo como o Pai. Aliás, é exatamente essa generosidade, essa criatividade que nos conduz às leis de Deus.

Jesus não veio para abolir todo o ensinamento do Primeiro Testamento. Isso está expresso em sua fala: “Não penseis que vim abolir a lei e os profetas” (v. 17). Ao contrário, sua vinda dá pleno cumprimento da lei e os profetas. Ele os plenifica. Nesse sentido, pode-se sustentar que Jesus encarna a vontade do Pai: sua vida, seus ensinamentos, seus gestos expressam o espírito da lei e os ensinamentos nos profetas.

No v. 20, Jesus ensina como deve ser o procedimento do discípulo em relação à Palavra normativa do Pai: “Se vossa justiça não for maior…”. A entrada no reinado de Deus exige radicalidade e aprofundamento no cumprimento da vontade do Pai. A artificialidade no cumprimento da lei redunda na interdição à entrada do Reino.

A perpetuidade da lei apresentada no versículo 18 toma sentido em relação ao versículo anterior: a plenitude da lei, ou seja, o cumprimento do espírito da lei, permanece válida para sempre. Ora, o espírito da lei revela a generosidade do Pai. Para agirmos como ele, devemos ser criativos. Com efeito, a obediência à letra da lei, sem ir além, torna-a caduca! Não faz sentido a sua permanência! Só permanece eternamente o que o espírito da lei suscita em nós: “sermos perfeitos como o Pai”.

No versículo 19, Jesus acentua a prática dos mandamentos. O modo de os discípulos praticá-los encontra-se no versículo posterior: “Se a vossa justiça não for maior…”.

Não cometer homicídio

Jesus entende o quinto mandamento, “não matar”, não somente no sentido de tirar a vida física de alguém, mas como toda e qualquer forma de “matar” a relação com o outro. Assim, encolerizar-se com o irmão leva-nos a romper relação com ele. Configura-se como uma espécie de morte do outro: não nos relacionamos mais com ele. “Chamar o irmão de tolo” consiste, aos olhos de Jesus, num homicídio espiritual: matamos o outro com nossas afirmações. Em suma, toda opção que nos conduz a romper relação com o próximo, toda atitude que interdita ao outro a sua dignidade de pessoa humana, toda política que nega ao outro o seu pleno desenvolvimento humano, toda espécie de preconceito, todo julgamento moralista encontram-se incluídos no quinto mandamento.

Intimamente ligados ao mandamento “não matar”, na reinterpretação dada por Jesus, encontra-se o verdadeiro culto prestado a Deus (liturgia) e a reconciliação. Não podemos participar do banquete que o Pai nos preparou sem nos reconciliarmos com o nosso irmão. Não há como sentar-nos à mesa com o Pai se excluímos da nossa vida o nosso irmão. Nada podemos ofertar ao Pai se não oferecemos amor ao próximo. Não há liturgia sem comunhão fraterna: uma exige a outra!

Não cometer adultério/não repudiar a esposa

No decálogo, proíbe-se o adultério e desejar a mulher do próximo. Mas o adultério e o desejo de possuir não se encontravam no mesmo nível. Havia um fosso entre o ato e o desejo. Aos olhos de Jesus, a ação humana está ligada à sua intenção. No coração humano (sede de sua decisão) encontram-se as raízes profundas das decisões. Assim, o ato (externo) humano decorre de sua decisão (interna). Jesus não separa o exterior do interior. Comete-se adultério quem desejar a mulher do próximo!

Não jurar

As relações inter-humanas assentam-se na confiança. Sem ela, não há possibilidade de relação social. Quando juramos, está implícita a desconfiança na palavra comunicada. Jesus procura eliminar qualquer relação assentada na falta de sinceridade.

A vontade do Pai exige adesão total. Deus não tolera observância fragmentada de sua Palavra normativa. Observar parcialmente a lei de Deus redunda na interdição de adentrar o seu Reinado. Deus, autor da vida, exige a nossa vida e não simplesmente alguma coisa de nós.

PARA REFLETIR

Caros Irmãos, hoje a Palavra santa nos fala sobre a Lei de Deus. Logo de saída, impressiona a afirmação peremptória de Jesus, nosso Senhor: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. Em verdade, Eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra!” Sejamos sinceros: um cristão deveria ficar inquieto com tais palavras, afinal nós não mais observamos a Lei de Moisés: não nos deixamos circuncidar, não guardamos o sábado, não fazemos restrições alimentares, distinguindo entre alimento puro e impuro… E agora: como nos haveremos com a palavra tão clara de Jesus?
 
Mas, o que o Senhor deseja mesmo dizer? Ele diz que não vem abolir a Lei, vem cumpri-la. Atenção: cumprir aqui não significa obedecer a Lei, mas realizá-la, dar cumprimento ao que ela anunciou e prometeu! Assim, cumprindo a Lei, Jesus a supera, como um botão que se cumpre na flor. Pensai, irmãos: o botão prepara a flor e sem botão não há flor. Mas, o botão existe para tornar-se flor e, quando se torna, cumpre-se, passa, deixando lugar à flor. É assim que Jesus cumpre a Lei: realiza o que ela anunciou. Agora, como o Velho Simeão, a Lei bem que pode dizer: “Agora, Senhor, podes deixar Tua serva ir em paz. Meus olhos viram a Tua salvação que prometeste!” (Lc 2,29s). Jesus não abole a Lei, não a despreza; cumpre-a plenamente e, cumprindo-a, supera-a definitivamente! Com a chegada do nosso Salvador, com Sua santa morte e ressurreição, nem uma letra, nem uma vírgula da Lei ficou em vão: tudo se cumpriu Nele, que é a plenitude da Lei e dos profetas. Por isso mesmo, no Tabor, Moisés e Elias, a Lei e os profetas, apareceram envoltos na Glória de Jesus. É Ele, o Santo Messias, Nosso Senhor, Quem leva a Lei e os profetas à plenitude do cumprimento! É Ele – e só Ele – que, realizando tudo quanto a Antiga Aliança legislou e profetizou, a tudo deu cumprimento e a tudo superou!
 
Talvez algum de vós pergunte: Então não há mais lei alguma no cristianismo? Os cristãos são livres para fazerem como bem desejarem, para viverem como bem imaginarem, tudo em nome da bondade de Deus revelada em Jesus? Não, queridos irmãos! Este pensamento seria totalmente falso! O próprio São Paulo nos previne contra esta ideia torta: “Iremos pecar porque não estamos soba Lei, mas sob a graça? De modo algum!” (Rm 6,15) – ele mesmo responde! A Lei de Moisés foi superada, mas o cristão vive sob uma nova Lei, dada no Espírito Santo de Amor, Espírito de Cristo Jesus, Espírito de Amor! Por isso mesmo, o Espírito foi derramado sobre a Igreja no dia de Pentecostes, festa judaica que celebrava o dom da Lei. Para os discípulos de Cristo, a Lei é o Espírito de Amor que, no Batismo foi derramado nos nossos corações (cf. Rm 5,5); o cristão vive agora debaixo da Lei do Espírito de Cristo! Por isso o Apóstolo diz: “Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós!” E previne: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo!” (Rm 8,9) Portanto, é Ele, esse Santo Espírito, Quem nos dá a vida de Cristo, os sentimentos de Cristo, a sabedoria de Cristo, tão diferente daquela do mundo, para viver segundo Cristo. É o que diz o santo Apóstolo na Epístola de hoje: quem pode compreender os preceitos do Senhor? Somente os que são sábios segundo Deus! Mas, essa sabedoria de Deus é escondida aos olhos do mundo, à lógica da nossa sociedade; é uma sabedoria que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória! Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu essa sabedoria! E São Paulo adverte: “Se a tivessem conhecido não teriam crucificado o Senhor da glória”. A sabedoria do mundo, fechada para o Espírito de Cristo, mata o Senhor da Glória no nosso coração! A verdadeira sabedoria, da verdadeira lei, somente pode ser revelada através do Espírito, que “esquadrinha as profundezas de Deus!”
 
Compreendei, Irmãos: é o Espírito que Cristo nos deu no Batismo e nos dá sempre de novo nos sacramentos da Igreja, é Ele, esse Espírito de Amor, Quem imprime em nós a nova Lei, a Lei do Amor! Para os cristãos, a Lei, os mandamentos, resumem-se nisto: amar ao Senhor Deus e amar os irmãos como Cristo Jesus amou! E amou até entregar-Se na cruz! Eis a Lei de Cristo, eis a medida, eis o desafio, eis nosso consolo (porque ela é tão bela!), eis a nossa desolação (porque, por nós mesmos, é impossível amar assim, na medida de Cristo!)… Pensando na Lei do Senhor Jesus, sigamos o conselho do Eclesiástico: guardemos o preceito de amor do Senhor e viveremos Nele, graças a presença do Seu Espírito de Amor em nós! Deixemos conduzir pelo Espírito, obedeçamos a voz do Espírito em nós, pois “o Senhor não mandou ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar”, muito menos pecar contra o Espírito Santo de Amor, que nos impele a amar como Jesus! Mas, irmãos meus, coragem: o que é impossível ao homem não é impossível ao Senhor! Por isso Ele nos deu o Seu próprio Espírito: para que impulsionados por Ele, nós tenhamos em nós os Seus sentimentos, as Suas atitudes, cumprindo o preceito do Apóstolo:“Tende em vós os mesmos sentimentos do Cristo Jesus” (Fl 2,5).
 
Agora sim, podemos compreender a palavra do Senhor Jesus: “Eu vos digo: se a vossa justiça não for maior que a justiça dos escribas e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus!”  Vede bem: a justiça, isto é a religiosidade, o cumprimento da Lei dos escribas e fariseus, ficava na Lei de Moisés, tinha a Lei de Moisés como critério. Isto serve para os judeus, não para nós! Para o cristão, a Lei é o Espírito de Cristo, Espírito de Amor, que nos imprime no coração os sentimentos de Cristo Jesus! A justiça do cristão, sua prática religiosa, deve ultrapassar a dos escribas e fariseus, pois é impulsionada pelo Espírito de Jesus! Por isso mesmo, no evangelho de hoje, o Senhor dá três exemplos da Lei de Moisés e os radicaliza, indo direto ao espírito mais profundo contido neles. São apenas exemplos, que nos mostram que o Espírito de Amor em nós, Espírito Santo de Cristo, leva-nos a amar na medida de Cristo, Ele que nos amou sem medida! Que coisa, que mistério, que desafio: diante do amor de Cristo, jamais poderemos estar em dia, tranquilos, achando que merecemos um prêmio! Diante Dele, por nós entregue, morto e ressuscitado, seremos sempre tão pequenos, tão devedores, tão deficitários!

Pensemos nestas coisas, Amados no Senhor, e deixemo-nos guiar pelo Espírito do Senhor! Que Ele mesmo venha amar em nós e nos fazer sentir como Jesus, pensar como Jesus, falar como Jesus, agir como Jesus, viver como Jesus – esta é a Lei e os profetas! A Cristo nosso Senhor, plenitude e cumprimento da Lei, que nos libertou da Lei de Moisés, a glória pelos séculos eternos. Amém.

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