terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sou muçulmano, mas eis aqui porque admiro a Igreja Católica


Permitam-me começar este breve artigo confessando algo surpreendente: não sou católico e nem mesmo cristão. Em verdade sou um muçulmano secular e ávido leitor de filosofia e história, tendo um firme compromisso com a verdade sem mitigações, não importa onde ela esteja, e mais ainda se ela vai contra as crenças comuns.

Passei os últimos recentes anos pesquisando a história do Cristianismo, especialmente a Igreja Católica durante o Medievo, e fiquei chocado ao descobrir que praticamente tudo que eu tinha aprendido sobre o Catolicismo estava errado além de, aparentemente, contaminado por preconceitos. Contrariando o pensamento da maioria das pessoas no Ocidente e no Meio Oriente, a Igreja Católica e os Padres da Igreja não suprimiram a ciência, a razão e o conhecimento. Muito pelo contrário, em muitos casos eles mesmos encorajaram o avanço no estudo de matérias não religiosas e o desenvolvimento científico, estimando com generosidade a capacidade de compreensão da razão humana. Também fiquei pasmo ao descobrir que a “obscura” Idade Média não foi de modo nenhum um período intelectualmente estéril, nem uma era de profunda estagnação, superstição ou mesmo perseguição sistemática dos filósofos naturais. De fato, as universidades – sedes de debates intelectuais cultos num clima de ampla liberdade de expressão – foram fundadas na Europa durante a assim chamada Alta Idade Média. Além disso, foram cientistas católicos dos séculos XII e XIII, comprometidos com sua fé e o método empírico, que lançaram os fundamentos da Revolução Científica. Torna-se cada vez mais evidente que esta revolução, iniciada com a publicação dos livros de Copérnico, “Da Revolução dos Orbes Celestes”, e de André Vesálio, “Da Organização do Corpo Humano”, não foi uma súbita explosão de criatividade, mas a continuação de uma marcha de progresso intelectual que já vinha sendo percorrida desde o século XI. Também é igualmente causa de estupefação a importância que os teólogos e filósofos católicos medievais atribuíam às capacidades intelectuais humanas, e seu infatigável trabalho para criar uma síntese entre a fé e a razão. Em poucas palavras, anos de intense pesquisa me fizeram respeitar e mesmo admirar a Igreja Católica, muito embora, como já expliquei antes, eu descenda de uma família árabe secular que me ensinou a investigar todas as questões sem dogmatismos e a aceitar a verdade mesmo quando incongruente com o credo da maioria das pessoas.

Tenho grande respeito pelo trabalho dos monges católicos e seus mosteiros na Idade Média. Suas atividades intelectuais situam-se entre os capítulos mais luminosos na história da Igreja. Os mosteiros desempenharam um papel positivo como centros de ensino, aprendizado e cultura, e eles podem ser descritos de modo bastante exato como “proto-universidades” (Trombley, 58), transmitindo conhecimentos de gramática, lógica, retórica e, posteriormente, matemática, música e astronomia, e situando-se “entre as mais importantes bibliotecas na história do pensamento ocidental” pelos trabalhos de cópia, transcrição e armazenamento de textos de alto valor (58). Enquanto a Igreja Católica é constantemente acusada de destruir a cultura clássica ou greco-romana, o fato é que os mosteiros merecem todo o crédito pela “cuidadosa preservação dos trabalhos do mundo clássico e dos Padres da Igreja, ambos centrais para a civilização do Ocidente” (Woods 42).

Por terem emergido em um meio greco-romano, assimilando em consequência noções filosóficas, tais como as idéias de logos, sindérese, o conceito de um universo mecânico ordenado racionalmente por leis estáveis e consistentes, etc, o Cristianismo em geral e a Igreja Católica em particular não podiam suprimir ou destruir a tradição clássica, possibilitando um convívio pacífico com a filosofia grega pagã e o racionalismo – uma realização crucial que o Islam ortodoxo sunita foi incapaz de emular ao suprimir o pensamento mutazilita (assunto que, decerto, exige um longo e detalhado estudo). 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Papa Francisco é alvo de uma campanha ultraconservadora nas ruas de Roma


Se já é raro ouvir críticas públicas ao papa Francisco, encontrar cartazes nas ruas de Roma contrários às suas últimas decisões é ainda mais incomum. No domingo, alguns bairros próximos do Vaticano amanheceram forrados com uma série de cartazes nos quais se podiam ler críticas de caráter conservador contra algumas atitudes e medidas tomadas por Jorge Mario Bergoglio. Seus autores não são conhecidos, os cartazes obviamente não estavam assinados e foram colados à noite. Mas as primeiras reações em blogs e sites especializados apontaram imediatamente para os setores mais tradicionalistas da Igreja Católica.

Seus responsáveis usaram uma foto do pontífice, em que aparece um tanto carrancudo, e sobrepuseram várias críticas como um conciso manifesto. Nos cartazes, colados em paredes e quadros de anúncios de bairros como Prati e em lugares movimentados, como a entrada de um mercado, criticava-se uma lista de medidas de Francisco tratando-o de você. “France (Francisco), você interveio em congregações, removeu sacerdotes, decapitou a Ordem de Malta e os franciscanos da Imaculada, ignorou cardeais... mas onde está sua misericórdia?”. Várias horas depois de terem aparecido, os cartazes foram parcialmente cobertos com outros em branco com logotipo institucional da Prefeitura de Roma e com o texto: “Publicidade ilegal”.

O papa Francisco, o primeiro nascido fora da Europa, tem encontrado algumas resistências aos planos renovadores, de certa abertura e modernização da Igreja, que empreendeu nos últimos anos. Suas iniciativas, sempre mais próximas dos desfavorecidos e excluídos do que dos setores mais privilegiados, continuam a gerar um suave e persistente zunzum em sites e blogs especializados. As críticas ou pequenas escaramuças costumam ser soterradas e acontecem independentemente dos organismos oficiais e dos cidadãos.

Nota dos Bispos do Espírito Santo sobre o momento de violência atual


NOTA DOS BISPOS DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

Caríssimos irmãos, irmãs e todos os homens e mulheres de boa vontade,

Neste momento que aflige a todos, sentimos nossa fraqueza e o perigo instaurado pelo império da violência. A segurança pública é um direito de todos, deve ser construída a partir de um amplo diálogo entre o Estado, a sociedade organizada e todos os cidadãos. Sabemos que violência gera violência mas, é verdade, que todos queremos a paz e a concórdia. 

Por isso, nós os bispos do Estado do Espírito Santo, queremos convocá-los para juntos orarmos em nossos lares pedindo a Deus que conceda serenidade, paz, proteção e justiça ao nosso Estado. Peçamos também ao Senhor que não prevaleça o poder, mas o bom senso, o diálogo, o entendimento e se chegue a uma decisão sábia que engrandeça nossa sociedade. Que Deus ilumine e dê sabedoria aos nossos governantes e às pessoas constituídas em autoridade! 

Homilética: 6º Domingo do Tempo Comum - Ano A: "Cumprir a vontade do Pai".


Na Liturgia deste domingo, continua a leitura do chamado “Sermão da Montanha” de Jesus, que ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de São Mateus. Depois das “Bem-Aventuranças”, que são o seu programa de vida, Jesus proclama a nova Lei, a sua Torá, como a chamam os nossos irmãos judeus. Com efeito, com a sua vinda, o Messias devia trazer, também, a Revelação definitiva da Lei, e é, precisamente, isto que Jesus declara: “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas, sim para os levar à perfeição”. 

Para iluminar esta verdade, Jesus dá alguns exemplos práticos que a Liturgia da Palavra deste domingo nos oferece.  A Lei de Moisés prescreve o não matar (cf. Ex 20,13; Dt 5,17); mas, na perspectiva de Jesus, o não matar implica o evitar causar qualquer tipo de dano ao outro.  Há muitas formas de destruir o irmão, de o eliminar, de lhe roubar a vida: as palavras que ofendem, as calúnias que destroem, os gestos de desprezo que excluem, os confrontos que põem fim à relação. Os discípulos de Jesus não se limitam a cumprir a letra da Lei; eles têm que assumir uma nova atitude, mais abrangente, que os levem a um respeito absoluto pela vida e pela dignidade do outro. 

Deus implantou na alma humana uma luz intelectual pela qual o homem conhece que o bem deve ser praticado e o mal, evitado.  Na primeira parte do Evangelho deste domingo (v. 17-19), o evangelista São Mateus sustenta que Cristo não veio abolir essa Lei que Deus ofereceu ao seu Povo no Sinai (cf. Ex 20,1-21). A Lei de Deus conserva toda a validade e é eterna; no entanto, é preciso ser vista como a expressão concreta de uma adesão total a Deus. Os fariseus achavam que a salvação passava pelo cumprimento de certas normas concretas. Eram eles rigorosos na observância da letra da Lei, mas não eram capazes de penetrar no âmago de seu espírito, onde está a verdade, a justiça, o amor. 

Somos convidados a refletir sobre qual deve ser a atitude do cristão, diante da Lei de Deus, e as implicações que a mesma tem nas nossas opções de vida. O que Jesus deseja é a perfeição da Lei, realmente, uma observância do coração: não simplesmente matar, fisicamente, mas evitar matar psicológica e moralmente o irmão por desprezo, depreciação e inveja. A vida humana é sagrada, por isto deve ser respeitada, pois desde a sua origem, postula a ação criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. Só Deus é o Senhor da vida, desde o seu começo até ao seu termo: ninguém, em circunstância alguma, pode reivindicar o direito de dar a morte diretamente a um ser humano inocente (cf. CIgC n. 2258).

Não basta não cometer adultério; é preciso também não alimentar, no coração, a cobiça por mulher casada ou homem casado, e ser fiel ao compromisso assumido no casamento (Mt 5, 27). 

A Lei de Moisés exige o não cometer adultério (cf. Ex 20,14; Dt 5,18); mas, na perspectiva de Jesus, é preciso ir mais além do que a letra da Lei e atacar a raiz do problema, por isto disse o Senhor que olhar com desejos libidinosos para uma mulher já é cometer adultério no coração.  E, mais ainda: se na Lei antiga tinha entrado o divórcio, a lei do Evangelho não admite o divórcio.  Quem repudiar sua mulher com a qual estiver legitimamente casado, faz com que ela adultere; e quem se casar com a repudiada comete adultério (v. 31-32). Jesus veio restaurar a criação na pureza das suas origens. 

A Lei de Moisés permite ao homem repudiar a sua mulher (cf. Dt 24,1); mas, na perspectiva de Jesus, a Lei precisa ser corrigida: o divórcio não estava no plano original de Deus, quando criou o homem e a mulher e os chamou a amarem-se e a partilharem a vida (cf. Gn 2,18-24). Amar quer dizer não só desejar, mas respeitar, merecer e aprender o mútuo respeito, tendo sempre diante dos olhos o vínculo que no matrimônio une dois seres humanos. Amar é ter a consciência de que tal união é indissolúvel, dura, por instituição divina até a morte.

Observar a Lei, não significa reduzi-la a cultos de observâncias, mas, exige uma contínua conversão interior que inspire o amor, a justiça, a misericórdia e as relações fraternas, numa simplicidade de criança. Só em Deus poderemos conseguir a luz e a força, para alcançarmos o procedimento ideal que nos conduzirá à verdadeira liberdade e à plena felicidade.

Jesus não veio abolir a lei, mas levá-la à perfeição. Depois de ter anunciado os grandes princípios da nova lei, nas bem-aventuranças, Jesus desenvolve-as, aprofundando o espírito dos mandamentos dados ao povo de Deus por Moisés. Trata-se de cumprir não apenas materialmente os mandamentos, mas de dar-lhes o verdadeiro espírito de justiça e de amor. Daí as palavras de Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos; Eu, porém, vos digo” (Mt 5, 17-37). Isso, em relação à vida, à felicidade, ao amor conjugal e à verdade. Não basta, por exemplo, não matar; é preciso, também, evitar palavras de desamor, de ressentimento ou de desprezo para com o próximo. 

Não basta privar-se dos atos materiais contra a lei; é preciso eliminar, também, os maus pensamentos e os maus desejos, porque, quem os consente, já pecou, no “seu coração” (Mt 5, 28): já assassinou o seu irmão ou cometeu adultério. 

É preciso superar a lei antiga, aperfeiçoá-la, isto é, tendo uma delicada atenção à pureza interior… Com efeito, com a sua vinda, o Messias devia trazer também a Revelação definitiva da Lei, e é, precisamente, isto que Jesus declara: “Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas, sim, para os levar à perfeição”. E, dirigindo-se aos seus discípulos, acrescenta: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 17.20). Em que consiste essa “plenitude” da Lei de Cristo, essa justiça “superior” que Ele exige?

Jesus explica-o mediante uma série de antíteses entre os Mandamentos antigos e o seu modo de os repropor. Cada vez começa: “Ouvistes o que foi dito aos antigos…”, e, então, afirma: “Mas Eu vos digo…”. Por exemplo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: “Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal; mas Eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes” (Mt 5, 21-22). E, assim, por seis vezes. Este modo de falar causava grande impressão no povo, que permanecia assustado, porque aquele, “Eu vos digo,” equivalia a reivindicar para si a mesma autoridade de Deus, fonte da Lei. A novidade de Jesus consiste, essencialmente, no fato de que Ele mesmo “completa” os Mandamentos com o Amor de Deus, com a força do Espírito Santo que habita n’Ele. E nós, através da fé em Cristo, podemos abrir-nos à obra do Espírito Santo, que nos torna capazes de viver o amor divino. Por isso, cada preceito se torna verdadeiro, como exigência de amor, e todos convergem num único Mandamento: ama a Deus com todo o coração, e ao teu próximo como a ti mesmo. “ O amor é o cumprimento perfeito da Lei”, escreve São Paulo (Rm 13, 10).

“Se vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus…” (Mt 5, 20). Não se trata da virtude da justiça que leva a “dar a cada um aquilo que lhe pertence”. Aqui podia traduzir-se por santidade; a dos escribas é meramente externa e ritualista. Entre eles, o cumprimento exato, minucioso, mas externo, dos preceitos tinha-se convertido numa garantia de salvação do homem diante de Deus: “se eu cumpri isto, sou justo, sou santo e Deus tem que me salvar”.

Com esse modo de conceber a justificação, já não é Deus fundamentalmente quem salva, mas vem a ser o homem quem se salva pelas suas obras externas. A justificação ou santificação é uma graça de Deus, com a qual o homem só pode colaborar secundariamente pela sua fidelidade a essa graça.

Quanto à verdade, diz Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Mt 5, 37). O cristão é chamado a ser transparente, simples. O contrário seria cheio de dobras, complicado. Não é só não jurar em falso, mas viver de tal modo a verdade, que não se precise jurar de modo algum. Fazer tudo em nome do Senhor, no Senhor. O demônio é o “pai da mentira” (Jo 8, 44).

Portanto, na Igreja de Cristo, não podem tolerar-se umas relações humanas baseadas no engano, na hipocrisia. Deus é a verdade, e os filhos do Reino têm, pois, que fundamentar as suas relações na verdade. Jesus quer inculcar a sinceridade sempre: “sim, sim; não, não!” Se partirmos do princípio da sinceridade, há confiança mútua nas relações humanas e jurar torna-se coisa supérflua; jurar a torto e a direito é um sintoma de falta de sinceridade entre as pessoas.

A necessidade de juramento é sinal de que a mentira e a desconfiança pervertem as relações humanas. Deus Pai apenas exige um relacionamento em que as pessoas sejam verdadeiras e responsáveis. E nós, como observamos os Mandamentos? Com o espírito do Antigo Testamento? (fazer isto ou aquilo porque é lei, porque é “obrigado”?) Por que vou à Missa? Por que é um preceito? “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 20).

“Quem me ama, guarda os meus mandamentos”, disse Jesus. Seja a nossa observância uma expressão sincera e profunda do nosso amor para com Deus. Peçamos a Deus a Graça de vivermos os seus mandamentos. “Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás” (Eclo 15, 16). “A vida e a morte, o bem e o mal, estão diante do homem; o que ele escolher, isso será dado” (Eclo 15, 16-18). É como quem diz: o que seguir a lei divina, terá como recompensa a vida e o que não a seguir, espera-o a morte. Tanto a vida como a morte eterna são a consequência da sua opção. O homem é livre e, por isso, responsável das suas ações…


Sereis minhas testemunhas


Quando as cruzes foram levantadas, foi coisa admirável ver a constância de todos, à qual eram exortados pelo Padre Passos e pelo Padre Rodrigues. O Padre comissário permaneceu sempre de pé, sem se mexer e com os olhos fixos no céu. O Irmão Martinho cantava salmos de ação de graças à bondade divina e juntava-lhes o versículo Nas tuas mãos, Senhor. Também o irmão Francisco Branco dava graças a Deus com voz clara. O irmão Gonçalo recitava em voz alta o «Pai Nosso» e a «Ave Maria». 

O nosso Irmão Paulo Miki, vendo-se elevado diante de todos a uma tribuna como nunca tivera, começou por afirmar aos circunstantes que era japonês e pertencia à Companhia de Jesus, que ia morrer por haver anunciado o Evangelho, e que dava graças a Deus por lhe conceder tão elevado benefício. E por fim disse estas palavras: «Agora que cheguei a este ponto extremo da minha vida, nenhum de vós há de acreditar que eu queira esconder a verdade. Declaro-vos portanto que não há outro caminho para a salvação do que aquele que possuem os cristãos. E como este caminho me ensina a perdoar aos inimigos e a todos os que me ofenderam, eu livremente perdoo ao imperador e a todos os autores da minha morte e peço a todos que se batizem».
 
Então, voltando os olhos para os companheiros, começou a animá-los. Nos rostos de todos transparecia uma grande alegria, mas Luís era aquele em que isso se via de modo mais claro: quando outro cristão o animou gritando que em breve estaria com ele no paraíso, fez com as mãos e todo o corpo um gesto tão cheio de contentamento que os olhos de todos os presentes se fixaram nele. 

António estava ao lado de Luís, com os olhos fitos no céu. Depois de invocar o Santíssimo Nome de Jesus e de Maria, entoou o salmo Louvai o Senhor, servos do Senhor, que tinha aprendido em Nagasaki no catecismo; é que no catecismo costumam ensinar alguns salmos às crianças. 

Alguns repetiam com rosto sereno: «Jesus, Maria»; outros exortavam os presentes a levarem uma vida digna de cristãos; e por estas e outras ações semelhantes demonstravam que estavam prontos para a morte. 

Então os quatro carrascos começaram a tirar as espadas daquelas bainhas que costumam usar os japoneses. Ao verem o seu aspecto terrível todos os fiéis gritaram «Jesus, Maria», e soltaram um grito de tristeza que chegou ao céu. E os carrascos, com dois golpes, em pouco tempo os mataram a todos.



Da História do martírio de São Paulo Miki e seus companheiros, escrita por um autor do tempo (Cap. 14, 109-110: Acta Sanctorum Fev. 1, 769) (Sec. XVI)

As 4 armadilhas da TV-lixo que você tem que saber detectar


A mídia vive, em grande parte, da desgraça alheia em todos os níveis e a sua máxima expressão parece ser, com frequência, os programas que servem como indicadores da pobreza cultural de uma sociedade.

Esses programas procuram na exploração emocional e dos instintos um poder de atração que se sustenta num princípio tão simples quanto eficaz: com sensacionalismo e baixo nível intelectual, a audiência é garantida porque, habituado, o grande público tende a não pensar nem questionar, especialmente quando não conta com opções diversificadas. E o hábito é uma força poderosa que a mídia procura consolidar: com espectadores acostumados ao lixo, ela pode gerar conteúdo abundante com o mínimo esforço e custo. É daí que vem a sua rentabilidade.

Acontece que, assim como o ouvido humano se “adapta” ao barulho, mas vai perdendo com isto a capacidade auditiva, assim também a alma humana vai perdendo a sensibilidade ao contato permanente com a banalização da tragédia e da miséria humana.

Há 4 grandes fórmulas de “sucesso” que constituem armadilhas para fisgar o telespectador. Saiba reconhecê-las:
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Primeira armadilha: Explorar a miséria humana como se fosse “notícia”

Para muitos repórteres e apresentadores, tentar crescer na carreira é desculpa suficiente para insistir em matérias que atropelam a dignidade de qualquer pessoa. Eles se digladiam para ser os primeiros a explorar o divórcio de uma celebridade, a divulgar aos quatro ventos a intimidade do famoso esportista e sua namorada, o vício de Fulano, o artista que “saiu do armário”… Tudo o que é relacionado com escândalo pode dar dinheiro.

Para maior impacto, não falta quem adicione comentários maldosos que recorrem ao dissimulo, à dubiedade, à ironia e, descaradamente, à mentira pura e simples. Com astúcia, brincam com a sensibilidade do grande público alterando a sua percepção dos fatos: tanto são capazes de vender a imagem “boa e inocente” de um sequestrador quanto de destruir a imagem de algum funcionário público que esteja perturbando interesses partidaristas.

O chamado “quarto poder” é capaz de impor os seus critérios sobre o que seria “relevante”, sem se importar se isso leva ou não à dissolução das virtudes sociais e, por consequência, da própria sociedade. Um triste exemplo é o dos países com alto índice de fracasso escolar e baixo índice de leitura, nos quais a superficialidade das relações pessoais e a obsessão pelo sexo são muito mais rentáveis do que a educação das novas gerações.
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Papa: "Ser sal e luz contra os germes poluidores do egoísmo".


PAPA FRANCISCO

ANGELUS
Praça de São Pedro
Domingo, 5 de Setembro de 2017


Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Nestes domingos a liturgia propõe o chamado Sermão da Montanha, no Evangelho de Mateus. Depois de apresentar as bem-aventuranças no último domingo, enfatiza hoje as palavras de Jesus, descrevendo a missão dos seus discípulos ao mundo (cf. Mt 5,13-16). Ele usa as metáforas do sal e luz e as suas palavras são dirigidas aos discípulos de todas as idades, assim também para nós.

Jesus nos convida a ser um reflexo de Sua luz, através do testemunho de boas obras. Ele diz: "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem ao vosso Pai que está nos céus" ( Mt 5,16). Estas palavras apontam que somos reconhecidos como verdadeiros seguidores d’Aquele que é a Luz do mundo, não em palavras, mas por nossas obras. Na verdade, é acima de tudo o nosso comportamento que - para melhor ou para pior - deixa um sinal no outro. Portanto, temos um dever e uma responsabilidade pelo dom recebido: a luz da fé, que está em nós por meio de Cristo e do Espírito Santo, não devemos mantê-la como se fosse nossa propriedade. Em vez disso, somos chamados a fazê-la brilhar no mundo, para dar aos outros por boas obras. E quanto precisa o mundo da luz do Evangelho que transforma, cura e oferece salvação àqueles que a acolhem! Esta luz que devemos carregá-la com as nossas boas obras.

A luz da nossa fé, sendo dada, não se apaga, mas se fortalece. Em vez disso, pode ser retido se não for alimentada pelo amor e as obras de caridade. Assim, a imagem da luz encontra-se com a do sal. O Evangelho, de fato, diz-nos que, como discípulos de Cristo, somos "o sal da terra" (v. 13). O sal é um elemento que, ao mesmo tempo que dá sabor, preserva da alteração e da decomposição dos alimentos - no tempo de Jesus não havia frigoríficos! -. Portanto, a missão dos cristãos na sociedade é dar "sabor" à vida com a fé e amor que Cristo nos deu, e ao mesmo tempo para impedir a entrada de germes poluentes de egoísmo, inveja, calúnia , e assim por diante. Estes micróbios arruinam o tecido das nossas comunidades, que devem, em vez brilhar como lugares de acolhida, de solidariedade, de reconciliação. Para cumprir essa missão, devemos nós mesmos em primeiro lugar sermos livres das influências corruptoras de degeneração mundana, que se opõem a Cristo e ao Evangelho; e esta purificação nunca acaba, isso deve ser feito de forma contínua, isso deve ser feito todos os dias!

Cada um de nós é chamado a ser luz e sal no seu ambiente de vida diária, perseverando na tarefa de regenerar a realidade humana no espírito do Evangelho e na perspectiva do reino de Deus. Há sempre ajuda e proteção de Maria Santíssima, a primeira discípula de Jesus e modelo dos crentes que vivem a cada dia na história da sua vocação e missão. Nossa Mãe vai ajudar-nos a deixar-nos ser purificados e iluminados pelo Senhor, para tornar-se, por nossa vez "sal da terra" e "luz do mundo". 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Dom que nos foi concedido por Deus, verdadeira fonte da bondade


A comemoração do aniversário de Santa Águeda nos reúne a todos neste lugar, como se fôssemos um só. Bem conheceis, meus ouvintes, o combate glorioso desta mártir, uma das mais antigas e ao mesmo tempo tão recente que parece estar agora mesmo lutando e vencendo, através dos divinos milagres com os quais diariamente é coroada e ornada.

A virgem Águeda nasceu do Verbo de Deus imortal e seu único Filho, que também padeceu a morte por nós. Com efeito, João, o teólogo, assim se exprime: A todos aqueles que o receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,12).

É uma virgem esta mulher que nos convidou para o sagrado banquete; é a mulher desposada com um único esposo, Cristo, para usar as mesmas expressões do apóstolo Paulo, ao falar da união conjugal. É uma virgem que pintava e enfeitava os olhos e os lábios com a luz da consciência e a cor do sangue do verdadeiro e divino Cordeiro; e que, pela meditação contínua, trazia sempre em seu íntimo a morte daquele que tanto amava. Deste modo, a mística veste de seu testemunho fala por si mesma a todas as gerações futuras, porque traz em si a marca indelével do sangue de Cristo e o tesouro inesgotável da sua eloquência virginal.

Ela é uma imagem autêntica da bondade, porque, sendo de Deus, vem da parte de seu Esposo nos tornar participantes daqueles bens, dos quais seu nome traz o valor e o significado: Águeda (que quer dizer “boa”) é um dom que nos foi concedido por Deus, verdadeira fonte de bondade.

Qual a causa suprema de toda a bondade, senão aquela que é o Sumo Bem? Por isso, quem encontrará algo mais que mereça, como Águeda, os nossos elogios e louvores?

Águeda, cuja bondade corresponde tão bem ao nome e à realidade! Águeda, que pelos feitos notáveis traz consigo um nome glorioso, e no próprio nome demonstra as ilustres ações que realizou! Águeda, que nos atrai com o nome, para que todos venham ao seu encontro, e com o exemplo nos ensina a corrermos sem demora para o verdadeiro bem, que é Deus somente!



Do Sermão na festa de Santa Águeda, de São Metódio da Sicília, bispo (Analecta Bollandiana, 68, 76-78)   (Séc. IX)