quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz 2026

 


MENSAGEM
DO SANTO PADRE
LEÃO XIV
PARA O LIX DIA MUNDIAL DA PAZ
 
1 DE JANEIRO DE 2026
 
_______________________________
 
A paz esteja com todos vós.
Rumo a uma paz desarmada e desarmante
 

“A paz esteja contigo!”. 

Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. «A paz esteja convosco!» ( Jo 20, 19.21) é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. Por isso, os sucessores dos Apóstolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolução mais silenciosa: “A paz esteja convosco!”. Desde a noite da minha eleição como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente. [1]
 
A paz de Cristo ressuscitado
 
Quem venceu a morte e derrubou as barreiras que separavam os seres humanos (cf. Ef 2, 14) foi o Bom Pastor que dá a vida pelo rebanho e tem muitas ovelhas que estão fora do seu redil (cf. Jo 10, 11.16): Cristo, nossa paz. A sua presença, o seu dom e a sua vitória reverberam na perseverança de muitas testemunhas, por meio das quais a obra de Deus continua no mundo, tornando-se ainda mais perceptível e luminosa na escuridão dos tempos.
 
Na verdade, o contraste entre as trevas e a luz não é apenas uma imagem bíblica para descrever o sofrimento do qual está a nascer um mundo novo: é uma experiência que nos atravessa e nos surpreende diante das provações que encontramos nas circunstâncias históricas em que vivemos. Ora, para não afundarmos na escuridão, é necessário ver a luz e acreditar nela. Trata-se de uma exigência que os discípulos de Jesus são chamados a viver de maneira única e privilegiada, mas que, de muitas maneiras, sabe abrir caminho no coração de cada ser humano. A paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence. A paz tem o sopro da eternidade: enquanto ao mal se ordena “basta!”, à paz se suplica “para sempre”. O Ressuscitado introduziu-nos neste horizonte. É neste sentir que vivem os promotores da paz que, no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como “terceira guerra mundial em pedaços”, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite.
 
Infelizmente, o contrário é possível, ou seja, esquecer a luz: assim, perde-se o realismo e se cede a uma representação parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo. Atualmente, não são poucos aqueles que chamam de realistas as narrativas privas de esperança, cegas à beleza dos outros e esquecidas da graça de Deus que sempre age nos corações humanos, por mais feridos que estejam pelo pecado. Santo Agostinho exortava os cristãos a estabelecerem uma amizade indissolúvel com a paz, para que, guardando-a no íntimo do próprio espírito, pudessem irradiar o calor luminoso ao seu redor. Dirigindo-se à sua comunidade, ele escreveu: «Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro; sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa». [2]
 
Queridos irmãos e irmãs, quer tenhamos o dom da fé, quer pareça que não o temos, abramo-nos à paz! Acolhamo-la e reconheçamo-la, em vez de a considerarmos distante e impossível. Antes de ser um objetivo, a paz é uma presença e um caminho. Mesmo que seja contestada dentro e fora de nós, como uma pequena chama ameaçada pela tempestade, guardemo-la sem esquecer os nomes e as histórias daqueles que a testemunharam. É um princípio que orienta e determina as nossas escolhas. Também nos lugares onde só restam escombros e onde o desespero parece inevitável, ainda hoje encontramos quem não esqueceu a paz. Do mesmo modo que, na noite de Páscoa, Jesus entrou no lugar onde se encontravam os discípulos assustados e desanimados, assim a paz de Cristo ressuscitado continua a atravessar portas e barreiras com as vozes e os rostos das suas testemunhas. É o dom que permite não esquecer o bem, reconhecê-lo como vencedor, escolhê-lo novamente e juntos.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

PRIMEIRA HOMILIA DO PAPA LEÃO XIV

Vou começar em inglês e o restante é em italiano, mas eu quero repetir as palavras do salmo: ‘Cantai ao Senhor um cântico novo, porque fez maravilhas’. E de fato, não só comigo, mas com todos nós, meus irmãos cardeais. Eu convido vocês a celebrar as maravilhas que Ele fez, as bênçãos que Deus continua a derramar sobre nós.

Para o ministério de Pedro, vocês me chamaram para essa missão e convido todos a caminharem comigo, como comunidade dos discípulos de Cristo que anunciam o Evangelho. ‘Tu és o Cristo o filho do Deus vivo’, com estas palavras, Pedro, interrogado pelo mestre, juntamente com os outros discípulos sobre a sua fé nele, resume a herança que a igreja através da sua sucessão apostólica em 2 mil anos, conserva, aprofunda e transmite ao longo dos 2 mil anos. Jesus é o Cristo, o filho do Deus vivo, isto é, o único salvador e revelador da face do pai. Nele, Deus para se fazer próximo e acessível aos homens revelou-se a nós no olhar confiante de uma criança, na mente viva de um jovem e nos traços maduros de um homem até aparecer aos seus depois da Ressurreição com o seu corpo glorioso.

Ele nos mostrou, assim, um modelo de humanidade santa que todos podemos imitar, juntamente com a promessa de um destino eterno que ultrapassa todos os nossos limites e capacidades. Pedro, na sua resposta, capta ambas as coisas. O dom de Deus e o caminho a seguir para se deixar transformar por ele. Dimensões inseparáveis da salvação, confiadas à Igreja para que ela anuncie para o bem do gênero humano. 

Confiai-nos a nós, escolhidos por ele antes de sermos formados no ventre materno, regenerados nas águas do batismo e para além dos nossos limites e sem o nosso mérito, conduzidos até aqui e daqui enviados para que o evangelho seja anunciado a toda a criatura. Em particular, Deus chamando-me através do vosso voto, para suceder ao primeiro dos apóstolos, confia-me este tesouro para que, com sua ajuda, eu seja o seu fiel administrador em benefício de todo o corpo místico da igreja, para que seja cada vez mais uma cidade edificada sobre o monte, uma arca de salvação que navega nas ondas da história, um farol que ilumina a escuridão do mundo. E isto não se deve tanto à magnificência das suas estruturas, ou à grandeza das suas construções, como os monumentos em que encontramos, mas, sim, à santidade dos seus membros, daquele povo que Deus adquiriu para si, para que anuncie as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.

Contudo, na raiz da conversa em que Pedro faz em sua profissão de fé, também há uma outra questão. Pergunta Jesus: ‘Quem dizem eles que é o filho do homem?’. Essa não é uma questão banal, mas diz respeito a um aspecto importante do nosso ministério: a realidade em que vivemos com os seus limites e as suas potencialidades, as suas questões e suas crenças. Quem dizem as pessoas que é o filho do homem? Pensando na cena sobre a qual estamos a refletir, poderíamos encontrar duas possíveis respostas para esta pergunta que delineiam duas atitudes diferentes: em primeiro lugar, a resposta do mundo.

Mateus enfatiza que a conversa entre Jesus e seus seguidores sobre a sua identidade acontece na bela cidade de Cesareia de Filipe, repleta de edifícios luxuosos, situada em um cenário natural e encantador aos pés do Monte Hérmon, mas também lar de círculos cruéis de poder, cenário de traição e infidelidade. Essa imagem nos fala de um mundo que considera Jesus uma pessoa sem importância nenhuma, no máximo um personagem curioso que pode causar admiração do seu modo estranho de falar e de agir. E assim, quando a sua presença se torna incômoda devido às suas exigências morais e honestidade, esse mundo não hesitará em rejeitá-lo e eliminá-lo.

Depois, há uma outra possível resposta à pergunta de Jesus: a das pessoas comuns. Para elas, o nazareno não é um charlatão, é um homem justo, corajoso, que fala bem e que diz coisas certas como outros grandes profetas da história de Israel. É por isso que eles o seguem, pelo menos enquanto podem fazê-lo, sem muitos riscos e conveniências. 

Mas eles o consideram apenas um homem e, portanto, num momento de perigo, durante a Paixão, eles também o abandonam, e vão embora desiludidos. O que chama atenção nessas duas atitudes é a sua atualidade. Elas são encontradas na boca de muitos homens e mulheres do nosso tempo. Também hoje existem muitos contextos em que a fé cristã é considerada algo absurdo, algo para pessoas fracas e pouco inteligentes, contextos em que outras certezas são preferidas a ela, como a tecnologia, o dinheiro, o sucesso, o poder, o prazer. Esses são ambientes nos quais não é fácil testemunhar e proclamar o Evangelho e um daqueles que creem e acreditam são ridicularizados, combatidos, desprezados, ou ao máximo tolerados e lastimados, mas precisamente por isso são lugares onde a missão é urgente, porque a falta de fé muitas vezes traz consigo tragédias, como a perda do sentido da vida, o esquecimento da misericórdia, a violação da dignidade da pessoa nas formas mais dramáticas, a crise da família e muitas outras feridas das quais sofrem - e não pouco - a nossa sociedade.

Embora apreciado como homem, [Jesus] é reduzido a apenas um líder carismático, a um super-homem, isso não só entre os crentes, mas também entre muitos batizados, que assim acabam vivendo em um enteísmo do fato. Este é um mundo cujo é confiado, como o papa Francisco nos ensinou muitas vezes, somos chamados a testemunhar a fé em Jesus, o salvador, de forma alegre. Por isso, também pra nós é essencial repetir: ‘Tu és o Cristo, filho do Deus vivo’.

É essencial fazer isso antes demais na nossa relação com Deus, no compromisso de um caminho diário de conversão. Mas também como Igreja, vivendo juntos a nossa pertença ao Senhor e levando a boa nova a todos. Digo isto, antes demais, a mim mesmo, como sucessor de Pedro, ao iniciar a minha missão de bispo da Igreja em Roma, chamado a presidir na caridade a Igreja universal, segundo a célebre expressão de Santo Inácio de Antioquia. Ele levado acorrentado a esta cidade, lugar do seu iminente sacrifício, escreveu aos cristãos que lá estavam: ‘Então serei verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo quando o mundo deixar de ver o meu corpo’. Ele se referia à possibilidade de ser devorado pelas feras no circo, e assim aconteceu, mas as suas palavras evocam em sentido lato, um compromisso indispensável para que na Igreja exerça um ministério de autoridade. Desaparecer, para que Cristo permaneça. Fazer-se pequeno, para que ele seja conhecido e glorificado. Gastar-se completamente, para que ninguém perca oportunidade de o conhecer e o amar. Que Deus me conceda esta graça hoje e sempre essa graça, hoje e sempre, com a ajuda da terna intercessão de Maria, mãe da Igreja.

HABEMUS PAPA LEÃO XIV

Que a paz esteja com todos vocês. Irmãos e irmãs, esta é a primeira saudação do Cristo ressuscitado, o bom pastor que deu a vida pela Igreja de Deus. Queria também que esta saudação de paz entrasse no vosso coração e chegasse a todos, onde quer que estejam, a todos os povos na Terra inteira, que a paz esteja convosco. Esta é a paz de Cristo ressuscitado, é uma paz desarmada e paz desarmante, humilde e que irá perseverar e que vem de Deus, Deus que nos ama a todos, incondicionalmente.

Ainda conservamos nos nossos ouvidos aquela voz fraca mas sempre corajosa do Papa Francisco que abençoava Roma. O Papa que abençoava Roma, que abençoava todo o mundo, o mundo inteiro, naquela manhã de Páscoa. Deixem-me continuar essa bênção.

Deus ama-nos, Deus ama todos vós, o mal não vai prevalecer. Estamos todos nas mãos de Deus. Por isso, sem medo, juntem-se de mãos dadas a Deus e entre nós vamos avançar. Somos discípulos de Cristo, Cristo veio antes de nós, o mundo precisa da Sua luz, a humanidade precisa Dele como uma ponte de forma a chegar a Deus e a chegar ao Seu amor.

Ajudem-nos também, a uns e outros, a construir pontes com diálogo, encontro, unindo-nos todos para sermos um só povo sempre em paz. Obrigado, Papa Francisco.

Queria também agradecer a todos os meus irmãos cardeais que me escolheram para suceder a Pedro e para caminharmos juntos convosco como uma Igreja unida que tenta sempre encontrar a paz, justiça e sempre a tentar trabalhar como homens e mulheres fiéis a Jesus Cristo sem medo, para proclamar o Evangelho e a sermos missionários.

Sou um filho de Santo Agostinho, agostiniano. Que disse, convosco sou cristão e para vós, bispo. Neste sentido podemos caminhar todos rumo à pátria que Deus nos preparou.

À Igreja de Roma, uma saudação especial. Devemos procurar juntos como ser uma Igreja missionária, que constrói pontes, diálogo, sempre aberta a receber como esta praça todos os que precisam da nossa caridade, presença, diálogo e amor.

E se me permitem, uma saudação a todos aqueles, em modo particular à minha querida diocese de Chiclayo no Peru, onde um povo fiel acompanhou o seu bispo e partilhou a sua fé, e deu tanto, tanto para continuar uma Igreja fiel a Jesus Cristo.

A todos vocês, irmãos e irmãs, de Roma, de Itália, do mundo inteiro, queremos ser uma Igreja sinodal, que caminha, que procura sempre a paz, procura sempre a caridade, estar perto especialmente dos que sofrem.

Hoje é o dia da súplica à Nossa Senhora de Pompeia. A nossa mãe Maria quer sempre caminhar conosco, estar perto, ajudar-nos com a sua intervenção e o seu amor. Quero rezar convosco, rezemos juntos por esta nova missão, por toda a Igreja, pela paz no mundo e peçamos esta graça a Maria, nossa mãe.”


#Papa #LeãoXIV #HabemusPapam #IgrejaCatólica #religião #Vaticano

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Com pesar comunicamos a morte do Papa Francisco

O CardealFarrell anunciou a morte do Papa Francisco com estas palavras:

"Queridos irmãos e irmãs, com profunda tristeza devo anunciar a morte de nosso Santo Padre Francisco. Às 7h35 desta manhã, o bispo de Roma, Francisco, voltou para a casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e de Sua Igreja. Ele nos ensinou a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados. Com imensa gratidão por seu exemplo de verdadeiro discípulo do Senhor Jesus, encomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Trino."

#Repost @vaticannewspt

sábado, 18 de janeiro de 2025

O Big Brother e a preocupação com a vida alheia



O que é o Big Brother Brasil, por que fez tanto sucesso em nosso país e por que é tão explorado pelos portais de notícias da Internet?

Trata-se de um reality show – literalmente, "show de realidade". A ideia original desses espetáculos — cujo formato pode variar muito — é apresentar às pessoas a rotina e o dia a dia de outras pessoas reais. Ao contrário de filmes, novelas e seriados, nos quais os atores interpretam personagens, as pessoas chamadas a participar desses programas têm de interpretar tão somente a si mesmos — em um contexto todo fantasioso, no caso do Big Brother, repleto de comidas, bebidas, lazeres... e absolutamente nenhum trabalho.

Não é exagero dizer que os pais que gostam de dar uma "espiadinha" trazem a promiscuidade para dentro de sua própria casa.

Movidas pela ânsia dos holofotes e pelo desejo da fama, são muitas as pessoas a imolar a própria privacidade no altar do reality show. Os eventuais prêmios com que os ganhadores desse programa são bonificados nem se comparam à possibilidade de todos serem vistos aos olhos da sociedade e poderem, quem sabe, ingressar em uma carreira pública — seja na própria televisão, seja no Congresso Nacional, por exemplo.

O mais intrigante, porém, é como tantos brasileiros podem perder o seu tempo com algo desse tipo. Afinal, o Big Brother só está em sua 25.ª edição na rede nacional porque tem audiência suficiente para se manter. O argumento de que os entusiastas do programa se restringem a quem assiste à TV não cola. Os sítios da Internet, todos, trazem notícias sobre o que acontece na tal "casa mais vigiada do Brasil" e, impressionantemente, são essas as matérias mais lidas pelos internautas.

O que explica esse fenômeno? Por que isso acontece?

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Vaticano não liberou padres gays: entenda o documento da “CNBB italiana”

Documento que apresenta orientações e normas para a ordenação de padres foi promulgado em 1.º de janeiro pelo cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana. Texto segue orientações anteriores do Vaticano (Foto: EFE/EPA/Giuseppe Lami)

A imprensa brasileira repercutiu, nesta sexta-feira (10), uma interpretação equivocada de um documento elaborado pela Conferência Episcopal Italiana (CEI) sobre a ordenação de padres da Igreja Católica no país. Após a publicação do documento Orientações e normas para os seminários, alguns meios de comunicação italianos afirmaram que a CEI tinha “aberto o seminário aos gays”, desde que se abstenham de relações sexuais. No Brasil, jornais chegaram a afirmar que o próprio Vaticano haveria feito isso. A informação, no entanto, é falsa: o documento se limita a repetir orientações dadas pela Igreja, inclusive durante o pontificado do papa Francisco.

O texto Orientações e normas para os seminários foi aprovado em novembro de 2023, na assembleia geral da CEI; o decreto do Dicastério para o Clero (o órgão do Vaticano encarregado das regras sobre a atividade dos sacerdotes) foi assinado em 8 de dezembro do ano passado; a promulgação por parte do presidente da CEI, cardeal Matteo Zuppi, ocorreu no dia 1.º de janeiro; e o texto foi publicado on-line pela CEI dias atrás. O item que está sendo alvo de fake news é o 44, dentro do capítulo sobre “o itinerário formativo” dos seminaristas. Confira a transcrição completa (tradução da reportagem):

“‘Em relação às pessoas com tendências homossexuais que se aproximam dos seminários, ou que descobrem tal situação no decurso da formação, em coerência com o próprio Magistério, ‘a Igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao seminário e às Ordens Sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apoiam a chamada cultura gay. Estas pessoas encontram-se, de fato, numa situação que constitui um grave obstáculo a um correto relacionamento com homens e mulheres’.

No processo formativo, quando se faz referências a tendências homossexuais, é importante não reduzir o discernimento apenas a esse aspecto, mas, assim como para qualquer outro candidato, entender seu significado no quadro global da personalidade do jovem, para que, conhecendo-se e integrando os objetivos próprios da vocação humana e sacerdotal, chegue a uma harmonia geral. O objetivo da formação do candidato ao sacerdócio no âmbito afetivo-sexual é a capacidade de acolher como dom, de escolher livremente e viver com responsabilidade a castidade no celibato.

Efetivamente, ‘não se trata de uma indicação meramente afetiva, mas é a síntese duma atitude que exprime o contrário da posse. A castidade é a liberdade da posse em todos os campos da vida. Um amor só é verdadeiramente tal, quando é casto. O amor que quer possuir, acaba sempre por se tornar perigoso: prende, sufoca, torna infeliz. O próprio Deus amou o homem com amor casto, deixando-o livre inclusive de errar e opor-se a Ele’. Além disso, ‘o celibato pelo Reino (cf. Mt 19, 12) há de ser visto como um dom que se deve reconhecer e verificar na liberdade, alegria, gratuidade e humildade, antes da admissão às Ordens ou da Primeira Profissão’.

Isso não significa apenas controlar os próprios impulsos sexuais, mas crescer em qualidade de relações evangélicas que superem a forma da possessividade, que não se deixem dominar pela competitividade e pelo confronto com os demais, e saiba guardar com respeito os limites da intimidade própria e dos outros. Ter consciência disso é fundamental e indispensável para cumprir o compromisso ou a vocação sacerdotal, mas quem vive a paixão pelo Reino no celibato deveria ser também capaz de motivar frustrações na sua renúncia, incluindo a falta da gratificação afetiva e sexual.”

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Lula ganha passe livre no Círio de Nazaré


“Cabe ao arcebispo de Belém a condução da Imagem Peregrina em todas as etapas de embarque e desembarque do Garnier Sampaio.” São palavras de dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém (PA), em nota datada de 7 de outubro de 2022 a respeito da participação do presidente da República na romaria fluvial do dia 8, um dos eventos mais icônicos do Círio de Nazaré – Garnier Sampaio é o nome da corveta da Marinha que leva a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. O tom da nota é bem seco, uma espécie de “não temos absolutamente nada a ver com isso”, em relação à presença do chefe do Executivo federal na embarcação.

Corta para 2024, e lá está o presidente da República participando do Círio de Nazaré, colocando a Imagem Peregrina na redoma de vidro que a protege durante no trajeto de quase 20 quilômetros pela Baía do Guajará. A Agência Brasil, órgão oficial do governo federal, diz que o presidente “deu início ao cortejo e realizou o ato litúrgico de colocar a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré em nicho de vidro no navio Garnier Sampaio, da Marinha” – ou seja, fez aquilo que em 2022 o arcebispo havia dito expressamente que cabia única e exclusivamente a ele. Mas, desta vez, sem notinha, nem mesmo um esclarecimento no site ou nas mídias sociais da arquidiocese.

"Quando o tratamento dado a um líder político é ditado mais pelas simpatias pessoais que pela correspondência desse líder aos valores do Evangelho, a credibilidade e o respeito do bispo ficam em xeque".

Qual a diferença? A resposta é muito simples: em um dos episódios, temos um presidente abortista, que afirma que “quando quero conversar com Deus, não preciso de padre ou de pastores”, que defendia até pouco tempo atrás ditador que promove uma perseguição feroz contra a Igreja Católica (hoje estão meio brigados, aparentemente): Luiz Inácio Lula da Silva. No outro, temos Jair Bolsonaro. Ainda que eu não tivesse colocado data nenhuma, nem a foto que abre esta coluna, o leitor saberia muito bem de qual presidente o arcebispo queria máxima distância (e Deus o livre de colocar a mão na santa!), e qual presidente ganhou passe livre para tomar o lugar do arcebispo no ato litúrgico – e não foi só ele, já que a imagem antes passou pelas mãos da primeira-dama também.

Se os pastores querem levar a sério o “não desejamos e nem permitimos qualquer utilização de caráter político ou partidário das atividades do Círio”, como dizia a nota de 2022, podiam começar aplicando o mesmo critério a todos os casos em que um presidente da República quiser participar do evento, em vez de praticamente dizer a um deles que não é bem-vindo, enquanto o outro recebe liberação para violar o protocolo. Para piorar a situação, dom Alberto Taveira foi um dos 152 bispos e arcebispos que, em 2020, assinaram uma carta com várias críticas a Bolsonaro; o ex-presidente está longe de ser perfeito, obviamente, mas quando o tratamento dado a um líder político é ditado mais pelas simpatias pessoais que pela correspondência desse líder aos valores do Evangelho, são a credibilidade e o respeito do bispo que ficam em xeque.

A coluna entrou em contato com a Arquidiocese de Belém na manhã de segunda-feira para entender melhor o que aconteceu nesta participação de Lula no Círio de Nazaré: se as regras mudam de acordo com o presidente de plantão; se não mudaram, mas o arcebispo fez vista grossa porque, afinal, é o Lula, nosso “homem sem pecado”; ou se tudo aquilo aconteceu à revelia da vontade do arcebispo, sabe Deus como. Até agora, nada de resposta, mas o espaço continua aberto.


Por: Marcio Antônio Campos
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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Semana Nacional da Família 2024: "Família e Amizade"

 


Entre os dias 11 e 17 de agosto de 2024, a Igreja no Brasil celebra a Semana Nacional da Família, uma ocasião especial para refletir, fortalecer e renovar os laços familiares à luz da fé cristã. O tema deste ano, “Família e Amizade”, e o lema “Amizade, uma forma de vida com sabor do Evangelho”, estão em sintonia com a Campanha da Fraternidade 2024, que convida todos os fiéis a viver a fraternidade de maneira concreta e autêntica. 

 

A família é o núcleo fundamental da sociedade, onde os valores e princípios são transmitidos de geração em geração. É no seio da família que aprendemos o significado do amor, do respeito, da solidariedade e da fé. No entanto, em um mundo cada vez mais globalizado e digitalizado, as relações familiares e de amizade muitas vezes são desafiadas por uma série de fatores, como a falta de tempo, o estresse cotidiano e a influência das redes sociais. 

 

O tema “Família e Amizade” nos chama a atenção para a importância de cultivar relações saudáveis e genuínas dentro e fora do ambiente familiar. A amizade, vista como uma forma de vida com sabor do Evangelho, é um convite a viver o mandamento do amor de maneira concreta, partilhando, apoiando e caminhando juntos na fé e na vida. 

 

O lema “Amizade, uma forma de vida com sabor do Evangelho” nos lembra das palavras de Jesus: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (João 15,13). A verdadeira amizade, conforme ensinada por Cristo, é caracterizada pelo amor abnegado, pela confiança mútua, pelo apoio nos momentos difíceis e pela alegria compartilhada nas conquistas. 

 

Nesta Semana Nacional da Família, somos convidados a refletir sobre como podemos viver a amizade de acordo com os ensinamentos de Jesus. Isso inclui sermos mais presentes na vida de nossos familiares e amigos, dedicando tempo de qualidade a eles, escutando com atenção, oferecendo apoio e encorajamento, e sendo testemunhas do amor de Cristo em nossas relações diárias. 

 

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Bênção a "casais" do mesmo sexo?



Na declaração ‘Fiducia supplicans’, o Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (CDF), em nome do Papa Francisco, diz que agora um sacerdote pode abençoar uma união de pessoas do mesmo sexo.

Curiosamente, em 2021, a mesma CDF publicou uma declaração a dizer que “a Igreja não dispõe do poder de abençoar uniões de pessoas do mesmo sexo”. O que é que mudou? Mudou o Prefeito da CDF. Há 2 anos era o Cardeal Ladaria, agora é o Cardeal ‘Tucho’ Fernandez, até há poucos anos investigado pelo Vaticano por suspeita de heresia. Se tenho a fama mais vale ter o proveito, pensou Tucho, e desde que chegou ao Vaticano conseguiu aumentar ainda mais a confusão doutrinal. 

O ponto 31 do documento hoje publicado sublinha que o objectivo não é equiparar estas uniões a casamentos (era o que faltava), mas sim que “tudo o que é verdadeiro, bom e humanamente válido nas suas vidas e relações seja investido, curado e elevado pela presença do Espírito Santo”.

Acontece que o problema na relação daquelas pessoas é exactamente a relação, que é contra a vontade de Deus. Por isso nada nela pode ser abençoada por Ele. Deus não pode abençoar o pecado. Sabendo isto, jamais se pode abençoar em conjunto, muito menos publicamente, duas pessoas numa união pecaminosa (ainda para mais sendo contra a natureza humana).

Entenda porque é um escândalo a bênção a casais irregulares e pares do mesmo sexo



Na segunda-feira, 18 de dezembro de 2023, o Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF) publicou uma Declaração assinada no mesmo dia pelo Papa Francisco, autorizando, por motivos de caridade pastoral, a bênção de casais “em situação irregular” – em outras palavras, casais não casados ​​ou divorciados e recasados, bem como casais do mesmo sexo.

Neste texto bastante longo , o DDF justifica esta decisão apoiando-se no ensinamento de Francisco e, em particular, na resposta que ele deu às dubia dos cinco cardeais – estranhamente mencionadas duas vezes no texto – justificando a sua acção como a de “ um instrumento ao serviço do sucessor de Pedro”.

Aliás, o cardeal Víctor Manuel Fernández, “Tucho”, reconheceu na sua prosa um caráter “inovador”, que poderia ser traduzido como “não tradicional”. Pensa até em dar um novo significado “ pastoral ” às bênçãos, “permitindo ampliar e enriquecer a compreensão clássica das bênçãos, que está intimamente ligada a uma perspectiva litúrgica”, o que mostra sobretudo a sua ignorância.

Um texto escandaloso

É importante salientar o caráter escandaloso deste texto, que, apesar da contorção semântica , parece contrariar a decisão anterior da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). Essa decisão, datada de 22 de fevereiro de 2021, negou a possibilidade de tal bênção, com explicação que não deixou brechas . Foi uma decisão que foi aprovada por Francisco, aliás.

O escândalo reside no facto de que, mesmo que a CDF tenha o cuidado de evitar qualquer semelhança com o casamento, o resultado produzido nos fiéis, nos jornais e nos não católicos, é de afirmação: “A Igreja autoriza a bênção de casais do mesmo sexo”, sem quaisquer outras distinções que o dicastério tente estabelecer.

No entanto, é impossível que a Cúria não tenha antecipado este resultado: a CDF é, portanto, inteiramente responsável pelo escândalo, que segundo a sua definição consiste numa ocasião para cair, isto é, para pecar . É absolutamente evidente que, no pensamento de muitas pessoas, fiéis ou não, este anúncio é uma forma de dizer que a Igreja aceita – sem nada a acrescentar – estas situações.

Uma distinção ineficaz

O argumento que leva à conclusão é a distinção entre bênção litúrgica e bênção não litúrgica. Excluída a primeira, aceita-se a segunda nas condições enumeradas no n.º 1. 39: “esta bênção nunca deve ser concedida em concomitância com as cerimônias de uma união civil, e nem mesmo em conexão com elas. Nem pode ser realizado com roupas, gestos ou palavras próprias de um casamento.”

Mas o problema não está na distinção em si; está no próprio objeto da bênção que, litúrgica ou não, não deve  ser má ou imoral. Se uma mulher que deseja fazer um aborto pede a um padre que a abençoe para que tudo corra bem, ele deve conceder-lhe uma bênção? De acordo com os termos da Declaração, parece que a resposta poderia ser: “sim”. Toda pessoa sensata entende que a bênção não pode ser concedida a esta mulher, exceto com o objetivo de ajudá-la a evitar cometer este crime.

É verdade que o sacerdote pode abençoar “todos”, mesmo que a pessoa seja homossexual ou viva com outra sem ser casada. Da mesma forma, no confessionário, se, por um motivo válido, o sacerdote recusar a absolvição num ou noutro caso, pode abençoar o penitente para o encorajar e pedir-lhe a graça da iluminação e da força.

Mas na bênção de um “casal”, o próprio objecto da bênção é esta união ilegítima que a doutrina católica condena. E dizer, no parágrafo nº. 40, que nesta bênção “não há intenção de legitimar nada”, é na melhor das hipóteses um desejo vão, na pior das hipóteses um perjúrio. Pois aos olhos daqueles que são abençoados, assim como daqueles que os rodeiam, é uma legitimação.

Uma coisa é “Fiducia supplicans”, outra coisa é o que farão dela.



Muitos católicos ficaram genuinamente preocupados com a nova declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé, Fiducia supplicans. O formato escolhido é pouco frequente; a última declaração, ainda da época em que o órgão se chamava Congregação para a Doutrina da Fé, tinha sido a Dominus Iesus, em 2000, quando São João Paulo II era papa e o cardeal-prefeito era Joseph Ratzinger. No entanto, enquanto Dominus Iesus era de uma clareza ímpar, Fiducia supplicans tem um estilo diferente e que pode confundir – menos pelo que está no papel e mais pelo que certamente farão dela.

A essa altura, o leitor já sabe do que se trata, mas vamos resumir: o documento trata de bênçãos, que são um sacramental (não confundir com sacramento), e mais especificamente de sua ligação com o sacramento do Matrimônio. Como nós sabemos, há bênçãos para tudo: pessoas, objetos, atividades, com texto devidamente padronizado e aprovado pela autoridade eclesiástica – volta e meia somos lembrados, por exemplo, de que existe no Ritual de bênçãos uma bênção para a cerveja, como se isso fosse a coisa mais incomum do planeta. Durante a celebração do matrimônio católico, existe uma linda bênção nupcial que faz parte do rito. Mas não é com isso que o documento está preocupado, e sim com as bênçãos a pessoas que estão em “situações irregulares” de relacionamento – mais especificamente, que estejam em uma nova união civil diferente do matrimônio canônico – ou pares homoafetivos. Essas pessoas podem chegar (de boa ou má-fé, pouco importa) a um padre e pedir uma bênção. E aí? O que o documento diz é que essas bênçãos podem ser concedidas, desde que com uma série de condições.

Vejamos primeiro o copo meio cheio. Em nenhum momento Fiducia supplicans fala em abençoar uniões, mas apenas em abençoar as pessoas que estão nessas uniões. Pode parecer a mesma coisa, mas estritamente não é. “Como a Igreja sempre considerou lícitas apenas as relações sexuais que se dão dentro do matrimônio, a Igreja não tem o poder de conferir a bênção litúrgica quando esse ato, de alguma forma, concederia legitimidade moral a uma união que se supõe como matrimonial ou que inclua uma prática sexual extramarital” (a tradução é minha; ainda não existe texto oficial em português), diz a declaração. Ela ainda afirma que o matrimônio é uma “união exclusiva, estável e indissolúvel entre um homem e uma mulher, naturalmente aberta à geração de filhos”, e que não se pode “reconhecer como matrimônio aquilo que não o é”. Nisso o texto é irrepreensível.

Trans e Homossexuais: o que mudou na Igreja? - Padre José Eduardo responde



Deu-se ampla divulgação ao Responsum que o Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, o Card. Victor Mánuel Fernandez, com aprovação do Papa Francisco, deu aos questionamentos de D. José Negri, bispo diocesano de Santo Amaro, sobre a participação nos sacramentos do batismo e do matrimônio por parte de pessoas trans e homoafetivas. Abaixo, publicamos uma entrevista com o Padre Dr. José Eduardo de Oliveira e Silva, da Diocese de Osasco, doutor em Teologia Moral pela Universidade da Santa Cruz (Roma).

CN – Padre, o que mudou na doutrina da Igreja em relação às pessoas transexuais e homossexuais?

Padre José Eduardo – Substancialmente, nada. O próprio Responsum do Dicastério para a Doutrina da Fé no-lo reafirma, logo na frase inicial do Documento, que, para mim, é a mais importante: “As seguintes respostas repropõem, em substância, os conteúdos fundamentais de quanto, no passado, foi afirmado por este Dicastério sobre tal matéria”.

CN – Então, podemos dizer que nada absolutamente mudou no entendimento da Igreja?

Padre José Eduardo – Precisamos entender que, para a Doutrina Católica, há uma imensa diferença entre a “condição” homo e transexual e os “atos” sexuais dessas pessoas. E, mesmo em relação aos atos, como ensina o Santo Padre, o Papa Francisco, “um juízo negativo sobre uma situação objetiva não implica um juízo sobre a imputabilidade ou a culpabilidade da pessoa envolvida” (Amoris Lætitia, n. 302), pois a imputabilidade requer plena advertência e perfeito consentimento, como ensina o Catecismo (cf. n. 1859).

CN – Como isso deve ser entendido, por exemplo, no caso de pessoas trans?

Padre José Eduardo – Uma pessoa que tem disforia de gênero ou alguma inadequação entre o seu corpo e a sua própria autocepção não pode ser culpabilizada por isso, mesmo que tenha se submetido a uma intervenção de redesignação. Tais pessoas podem, perfeitamente, converter-se e entregar a sua vida a Deus, que é o escopo principal do sacramento do batismo.

CN – A Nota do Dicastério para a Doutrina da Fé menciona a hipótese de a pessoa receber o batismo sem estar arrependida dos seus pecados. Isso não é uma inovação em relação ao c. 865, do Código de Direito Canônico, que afirma a necessidade de que o catecúmeno seja exortado a se arrepender de seus pecados?

Padre José Eduardo – Em meu entender, não, pois, se lermos atentamente o Responsum, veremos que ele se refere a uma situação muito mais circunscrita e que tem a ver com a avaliação pastoral a ser feita pelo Pároco: “quando existem dúvidas sobre a situação moral objetiva em que se encontra uma pessoa, ou sobre as suas disposições subjetivas para com a graça divina”. Em outras palavras, isso se refere ao caso de alguém que se demonstra disposto a passar por um caminho de conversão, mas cuja “certeza moral” possa ser dificultosa ao Pároco diante dos indícios apresentados. O Dicastério apenas apresenta a desnecessidade de uma certeza absoluta, circunscrevendo-a nos limites tradicionais do que se entende por “certeza moral”.

CN – Tudo isso, então, refere-se apenas aos aspectos pastorais do problema, não propriamente doutrinais e canônicos…

Padre José Eduardo – Para a Igreja, a pastoral nunca está desvinculada da doutrina e do direito. Porém, a perspectiva do Santo Padre, o Papa Francisco, de uma Igreja de “portas abertas”, que “cria pontes e não muros”, “em saída”, “samaritana”, como ele mesmo a descreve no Documento mais importante do seu pontificado, a Exortação Evangelii Gaudium, nos leva a fazer tudo o que for possível para aproximar uma pessoa de Deus, jamais limitando por nossa iniciativa as amplas portas da Misericórdia.

CN – Mas, no caso de pessoas que adotaram um “nome social”, como se administraria o sacramento?

Padre José Eduardo – O próprio Rito de Iniciação Cristã de Adultos prevê uma “mudança de nome”, que seja um marco para a mudança de vida. Neste caso, o pastor local precisa dedicar-se muito mais à acolhida, ao discernimento, à reflexão juntamente com o catecúmeno, ajudando-o a encontrar não tanto a sua identidade para si, mas a sua identidade para Deus, aquele “nome novo” do qual nos fala o livro do Apocalipse (cf. 2,17). O batismo nunca pode ser entendido como um momento de conquista e autoafirmação, mas como uma humilde recepção da graça, com o pedido a Deus de uma transformação real, que, no itinerário desse percurso, pode estar mais ou menos adiantada.

CN – E com relação aos transexuais serem admitidos como padrinhos de batismo?

Padre José Eduardo – Note-se bem que o Card. Fernández menciona a necessidade de que não haja nenhum “perigo de escândalo”. Nós precisamos entender que, para além do direito, existem circunstâncias familiares complexas, que requerem certa flexibilidade pastoral de nossa parte. Aquilo que a Igreja requer para o batismo de uma criança é que se garanta que ela receberá a educação católica por parte de alguém; no mais, é possível que haja alguma situação em que seja viável, tomadas as devidas medidas de cautela, admitir alguém naquelas condições como padrinho. Observe-se bem que a mesma Nota afirma que este “não é um direito”, pois é a Igreja que habilita alguém para exercer essa função.

Ademais, a celebração do batismo nunca deve ser usada como instrumentalização ideológica, para impulsionar a agenda de nenhum movimento de revolução sexual. Garantidas essas cautelas e sempre com a supervisão do bispo diocesano, é possível que haja situações em que isso seja, de algum modo, viável.

A Igreja e a bênção dos casais em situação irregular e do mesmo sexo



O Dicastério para a Doutrina da fé publicou um documento que fala sobre a bênção de casais em situação irregular e de parceiros do mesmo sexo. A notícia colocou em ebulição todo o orbe católico, inflamado pelas manchetes sensacionalistas, que procuram tirar audiência do assunto. Diante disso, fizemos uma entrevista com o Pe. Dr. José Eduardo de Oliveira e Silva, da Diocese de Osasco, doutor em Teologia Moral.

Aleteia: Padre, o Documento publicado hoje tem causado reações polarizadas, qual seria, afinal, a finalidade desse tipo de pronunciamento do Magistério em si?

Pe. José Eduardo: Como o próprio Card. Fernández, Prefeito do Dicastério, salientou logo na introdução, o documento é apresentado sob a tipologia de Declaração, que é o tipo mais simples de documentos magisteriais. Diferentemente de uma Instrução, que teria caráter mais normativo, uma Declaração é apenas uma manifestação do Magistério acerca de um tema controverso, mas não com a força de uma definição.

Aleteia: Qual seria o objetivo dessa Declaração?

Pe. José Eduardo: Como o próprio nome indica, “Fiducia supplicans”, “a Confiança Suplicante” com a qual o povo de Deus pede aos seus ministros, especialmente os sacerdotes, uma oração, uma invocação, uma bênção, uma ajuda para uma situação de suas vidas é o tema de fundo do texto, que pretende responder se esse tipo de auxílio pode ser dado a pessoas que não estão em condições moralmente regulares.

Aleteia: Então, o documento não altera a doutrina da Igreja em relação ao matrimônio?

Pe. José Eduardo: De modo algum, se lermos atentamente o texto do documento, e não as notícias veiculadas pela mídia, veremos que o Dicastério para a Doutrina da Fé faz exatamente o contrário: “trata-se de evitar reconhecer-se como matrimônio algo que não o é”, pois o matrimônio é “uma união exclusiva, estável e indissolúvel entre um homem e uma mulher, naturalmente aberta à geração de filhos”… “Esta convicção é fundada sobre a perene doutrina católica do matrimônio. Somente neste contexto as relações sexuais encontram o seu sentido natural, adequado e plenamente humano. A doutrina da Igreja, sob esse ponto, permanece firme” (n. 4).

O n. 4 do documento é claro e contundente, chegando a dizer que “são inadmissíveis ritos e orações que possam criar confusão entre aquilo que é constitutivo do matrimônio”. Portanto, não há nisso nenhuma ambiguidade. Pelo contrário, o Magistério apenas reafirma a sua posição perene.

Aleteia: Isso significa que o documento não traz nenhuma novidade?

Pe. José Eduardo: A Declaração apresenta uma evolução na compreensão teológica das “bênçãos” e, neste sentido, abre uma nova perspectiva. Sem excluir que uma bênção nunca “pode oferecer uma forma de legitimação moral a uma união que se presuma um matrimônio ou a uma práxis sexual extramatrimonial”, o documento afirma que “se deve evitar o risco de reduzir o sentido das bênçãos apenas a este ponto de vista, porque nos levaria a pretender, para uma simples bênção, as mesmas condições morais que se requerem para a recepção dos sacramentos” (nn. 11-12). Deste modo, o Dicastério deixa claro que está excluída qualquer concepção sacramental (matrimônio, confissão, eucaristia etc) relativamente a esses casos. Em outras palavras, é doutrina comum da Igreja que uma pessoa em pecado grave possa receber uma bênção.

Aleteia: Mas abençoar uma pessoa que está claramente em pecado grave não pode ser um escândalo para os outros fiéis? E isso não seria espiritualmente inútil?

Pe. José Eduardo: O Documento concretiza as circunstâncias em que tais “bênçãos” possam eventualmente acontecer: nunca dentro de uma celebração litúrgica, nunca dentro ou no contexto da celebração de algum sacramento (n. 24), nunca com um formulário litúrgico (nn. 32 e 35), sempre de forma privada (n. 40), sob o juízo cautelar do sacerdote ad casum (n.40), e sempre como uma oração espontânea pelos que pedem a bênção (n. 33), acompanhada de uma súplica para que façam a vontade de Deus (n. 20) e como meio de lhes pregar o querigma, a fim de que se convertam (n. 44).

A Declaração, ainda, afirma que “esta bênção nunca será dada no contexto de ritos de união civil e outros que estejam relacionais com esses. Nem com as vestes nupciais, os gestos ou as palavras próprios de um matrimônio. O mesmo vale quando a bênção é solicitada por uma dupla do mesmo sexo” (n. 39).

Em outras palavras, a Declaração apenas diz que nós, padres, em situações muito restritivas, podemos rezar por pessoais que estejam nessa situação. E isso, francamente, não me parece uma grande novidade. A novidade se dá na explicitação do alcance não litúrgico de uma simples bênção.

domingo, 24 de setembro de 2023

As falácias do primeiro voto em favor do aborto no STF

A ministra Rosa Weber, presidente do STF e relatora da ADPF 442, votou pela legalização do aborto nas 12 primeiras semanas de gestação.| Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF


O julgamento da ADPF 442, que pede a liberação do aborto no Brasil nas 12 primeiras semanas de gestação, irá para as sessões presenciais do Supremo Tribunal Federal. Um pedido de destaque do ministro Luís Roberto Barroso interrompeu o julgamento em plenário virtual, e tudo indica que será o próprio Barroso, que assume a presidência do STF em outubro, quem definirá quando o assunto voltará à pauta da corte. Ele substituirá Rosa Weber, que também é relatora da ADPF 442 e foi a primeira a depositar seu voto – que permanecerá valendo mesmo depois que ela se aposentar do tribunal. A ministra julgou a ação parcialmente procedente, ou seja, considerou que os artigos do Código Penal que criminalizam o aborto são inconstitucionais, ao menos no que diz respeito ao primeiro trimestre de gravidez.

Há alguns poucos pontos interessantes a ressaltar no voto da relatora. Ela reconhece, por exemplo, que a expressão “direitos sexuais e reprodutivos” contempla, sim, o direito ao aborto – por décadas, a estratégia do movimento abortista foi esconder sua pretensão sob essa expressão aparentemente inofensiva e até positiva. Além disso, apesar de definir a 12.ª semana de gestação como o limite para a legalização por ela pretendida, a ministra não enfrenta o tema de frente. O que, afinal, acontece de tão incrível quando se passa do sétimo dia da 12.ª semana para o primeiro dia da 13.ª semana, a ponto de um nascituro poder ser eliminado antes e não poder mais sê-lo depois? Rosa Weber não responde, limitando-se a dizer que existe uma gradação na proteção legal à vida. O lado positivo disso é ressaltar o caráter totalmente arbitrário da escolha; o negativo é que seus argumentos poderiam, no fim das contas, ser usados para defender o aborto até mesmo nos momentos que antecedem o parto – o que é, no fim das contas, o objetivo final da militância.

Não há base científica, legal ou ética para que o Brasil permita a eliminação indiscriminada de seres humanos ainda por nascer, com ou sem limite de evolução gestacional

De resto, o longo voto da ministra adota uma estratégia já conhecida: a de desumanizar o nascituro para, assim, negar-lhe os direitos de que os humanos nascidos gozam; ou, na mais benigna das hipóteses, argumentar que o nascituro não merece proteção no mesmo grau daqueles que já vieram à luz. Para isso, no entanto, é preciso torcer a ciência e a lei, e nem mesmo o empenho árduo que Rosa Weber coloca nesta tarefa é capaz de ocultar a verdade. É assim que, sem titubear, a ministra afirma que “a inexistência de consenso a respeito de quando inicia a vida é fato notório, mesmo para a área da ciência”, uma afirmação facilmente desmentida por qualquer manual de Embriologia usado por qualquer faculdade de Medicina, já que é amplamente sabido que o encontro do óvulo e do espermatozoide leva ao surgimento de um novo ser, um novo indivíduo, indubitavelmente vivo e indubitavelmente humano.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Homilética: Vigília da Assunção de Nossa Senhora (14 de Agosto*): "Feliz aquela que te trouxe no seu ventre".



«Finalmente, a Virgem Imaculada, que fora preservada de toda a mancha da culpa original, terminado o curso da sua vida terrena, foi levada à glória celeste em corpo e alma, e exaltada pelo Senhor como Rainha do Universo, para que se parecesse mais com o seu Filho, Senhor dos senhores (cf. Ap. 19, 16) e vencedor do pecado e da morte»

Maria foi elevada gloriosamente ao Céu em corpo e alma. É uma verdade de fé que nos aparece simbolizada, em figura, num facto do Antigo Testamento.

A Arca do Antigo testamento foi construída segundo as indicações dadas pelo Senhor a Moisés. Transportava as Tábuas da Lei recebidas no Sinai, um pouco de maná e outros objectos ligados à história do Povo de Deus. Sobre ela brilhava a glória do Senhor e era a presença sensível de Yhaveh no meio do Seu Povo.

Maria Imaculada é a Arca da Nova Aliança. É a obra mais perfeita que Deus criou: Comporta toda a perfeição possível a uma criatura e foi ornada de privilégios singulares, em atenção a ter sido eleita para Mãe do Redentor.

Transportou em seu seio virginal, durante nove meses, o Filho de Deus – o Verbo Incarnado – no meio do Seu Povo. Guardou generosamente em seu Coração a Palavra de Deus, para a meditar e transformar em vida. Como poderia, então, o Senhor permitir que esta Arca santíssima fosse entregue à corrupção e voragem do túmulo?

A nossa imaginação limitada tenta reconstituir esse acolhimento glorioso de Maria em Corpo e Alma.

A comunhão com a Santíssima Trindade em que vivera na terra – Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho e Esposa de Deus Espírito Santo – torna-se agora ainda mais intensa, porque cederam para sempre as barreias levantadas pelos sentidos na vida terrena: Acolhem-n’A com a maior alegria S. José, seu esposo virginal, os Anjos, os Patriarcas e os justos de todos os tempos.

Vivemos hoje esta mesma alegria e comunhão, com a Igreja Universal – triunfante, padecente e militante, por esta Celebração da Eucaristia. Preparemo-nos para ir ao seu encontro. «Depois, ofereceram diante de Deus holocaustos e sacrifícios de paz.»

A verdadeira devoção a Nossa Senhora exterioriza-se pelas nossas flores e Cânticos, mas vivemo-la quando procuramos imitá-l’A, seguir o caminho que Ela seguiu, caminhando ao seu encontro. Aclamamo-l’A como cheia de graça. Procuremos viver na graça santificante e alimentar esta vida divina com os Sacramentos. Invocamo-l’A como Virgem fidelíssima. A nossa fidelidade à vocação batismal, concretizada, depois, na vocação pessoal, é uma consequência da nossa devoção mariana.

Não podemos evitar a corrupção do túmulo, mas podemos lutar por nos mantermos afastados do contágio da corrupção moral. Nas horas mais difíceis, lembremo-nos de Ela espera por nós.

São muitas as pessoas que procuram cantar as glórias de Nossa Senhora. Cumpre-se, deste modo, a profecia da Mãe de Jesus em casa de Isabel: «De hoje em diante me proclamarão bem-aventurada todas as gerações.»

Não podemos ficar como quem aplaude, ao lado do caminho, um cortejo que passa por nós. Esta celebração é um convite insistente a que sigamos pelo seu caminho, a que A acompanhemos, porque vamos a caminho da felicidade em que Ela se encontra.

Jesus Cristo, depois de ter ouvido o elogio a Sua Mãe, de uma mulher anónima do povo, ensina-nos como havemos de segui-l’A. Como poderíamos seguir o caminho do Céu que Jesus nos ensina, sem o conhecermos? Precisamos urgentemente de formação doutrinal. A nossa piedade crescerá na medida da formação que procurarmos adquirir.

Maria ensina-nos a combater a ignorância religiosa, o maior inimigo de Deus no mundo de hoje. A crise de fé e moral em que vivemos tem as sua origem nela. As pessoas confundem facilmente religiosidade com verdadeiro cristianismo, vivido em toda a sua exigência.

São muitas as perguntas a que o cristão deve dar uma resposta concreta à luz da fé. Não basta o bom senso para o fazer, e o Espírito Santo não quer alimentar a nossa preguiça, substituindo-nos naquilo que podemos fazer.

Precisamos urgentemente de estudar o catecismo e prestar atenção às respostas que o Santo Padre e os Bispos vão dando aos problemas do nosso tempo. Uma piedade sem doutrina cai facilmente num sentimentalismo estéril, sem qualquer influência no nosso comportamento, numa separação entre as exigências da fé e a vida.

Deixar-se guiar pela Palavra de Deus. «Felizes antes os que (…) a guardam.» A fé, infundida em nós pelo Espírito Santo, no Baptismo, e alimentada pela Palavra de Deus, deve ser vivida em todas as circunstâncias, por uma luta ascética constante. Para tornar isto possível, recebemos as virtudes e os Dons do Espírito Santo os quais devem produzir frutos. 

Quando não fazemos um esforço para sermos coerentes com a fé, agindo de acordo com ela, acabamos por justificar o mal, o pecado. A fé enfraquece e acaba por se apagar.

Maria, elevada ao Céu em Corpo e Alma, anima-nos continuamente a subir, a melhorar espiritualmente, a sermos santos na situação em que nos encontramos, se ela está de acordo com a Lei de Deus. 

Promessa da nossa ressurreição. A Ressurreição de Jesus e a de Sua Mãe é promessa da nossa glorificação final. S. Paulo recorda-nos esta verdade na primeira Carta aos fiéis de Corinto. «No fim dos tempos, este nosso corpo corruptível ficará incorruptível, este nosso corpo imortal ficará imortal.»

Seguindo Nossa Senhora na vida, mesmo sem darmos por isso, caminhamos direta e fielmente para a nossa glorificação eterna no Céu.

Há apenas uma pequena diferença entre a glorificação de Maria e a nossa: Ela foi glorificada em Corpo e Alma imediatamente depois de terminar a sua caminhada na terra. O nosso corpo voltará ao pó de que foi formado, para ressuscitar e ser revestido de glória no fim dos tempos.

Na Celebração da Eucaristia pedimos para esta verdade se realize em cada um de nós: «Anunciamos, Senhor, a Vossa vinda, proclamamos a Vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!»

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Quando os cristãos viram “bodes expiatórios”


O “cancelamento cultural” ou “perseguição educada”, como chama o Papa Francisco, é grande causa de escândalo para muitos cristãos na atualidade. Ouvimos e lemos continuamente posicionamentos de líderes e influenciadores cristãos denunciando essa realidade. A bem da verdade, temos que reconhecer que sofremos, nas democracias ocidentais, muito menos que os cristãos que são perseguidos e martirizados em outras partes do mundo. Não deixa de ser estranho, contudo, que uma sociedade que foi construída a partir de valores cristãos, agora pareça se voltar contra eles. Muitos tentam reduzir o problema a um efeito da propaganda ideológica. Esse é um dos fatores, mas não podemos aceitar que a força da mentira seja maior do que aquela da verdade. Outros fatores devem estar envolvidos nesse cancelamento cultural do qual os cristãos são vítimas na sociedade atual.

A teoria do “bode expiatório”

René Girard (1923-2015), acadêmico consagrado e católico polêmico, formulou a teoria do “bode expiatório”, que pode, ao menos em parte, explicar o processo de cancelamento cultural dos cristãos no Ocidente atual. Em linhas gerais, Girard propõe que os grupos sociais, para se manterem unidos, a despeito das diferenças e oposições internas entre seus membros, precisam de um “bode expiatório”, uma pessoa ou algumas pessoas, com características diferentes daquelas do grupo social, que são estigmatizadas e excluídas. Cria-se assim uma maioria de iguais, considerados bons e sadios, que devem se manter unidos, em contraposição aos diferentes, considerados maus e corruptos, que devem ser afastados e condenados.

Esses diferentes devem ter características físicas ou culturais que os distinguem dos demais, facilitando sua identificação; e, nos casos mais emblemáticos, terem praticado algum gesto reprovável, que legitime sua condenação. Importante notar que as características distintas podem ser positivas ou negativas, o bode expiatório pode ser considerado assustadoramente feio ou perigosamente bonito, como vemos entre adolescentes vítimas de bullying; e a exclusão pode se basear num dado real, como acontecia com os leprosos no tempo de Jesus, ou ser um preconceito totalmente infundado, como aquele contra os cristãos na Roma Antiga. Não é a culpa dos segregados, mas a necessidade dos segregacionistas que causa a condenação.

Minorias frequentemente se tornam “bodes expiatórios” de uma sociedade. Os migrantes e refugiados vindos dos países pobres frequentemente são apontados como causa do desemprego em nações ricas, apesar de poucas vezes disputarem empregos com a população local – geralmente trabalham em empregos de baixa qualificação que não interessam aos trabalhadores nativos do país. Os judeus foram, de fato, segregados pela sociedade cristã, sob a alegação de terem matado Jesus, mas sabemos que Cristo morreu por toda a humanidade e sua condenação teria sido sancionada por qualquer multidão naquela situação, fosse qual fosse sua etnia.

Papa adverte sobre a falsa ideia de liberdade compartilhada pelo comunismo e consumismo


O papa Francisco alertou durante um encontro com estudantes universitários em Budapeste que há uma falsa ideia de liberdade tanto no comunismo (liberdade freada) quanto no consumismo (liberdade desenfreada).

A Faculdade de Informática e Biônica da Universidade Católica Péter Pázmány de Budapeste foi palco do último ato da viagem apostólica do papa Francisco à Hungria, 41ª de seu pontificado, que começou na sexta-feira (28).

Nesta instituição acadêmica, são formados engenheiros de computação que aplicam seus conhecimentos no campo da biologia molecular e neuronal e da medicina.

O papa chegou ao local em cadeira de rodas e abençoou e beijou um bebê. Muitos aplausos acompanharam a entrada de Francisco no campus universitário, onde cerca de 250 pessoas, entre docentes e estudantes, o esperavam.

O magnífico reitor da Universidade, padre Géza Kuminetz, elogiou a presença do papa Francisco “como sinal do importante papel da ciência não só na vida eclesiástica, mas também na vida social”.

Ele também disse que nas universidades católicas se tenta “captar as sementes de Deus” que estão escondidas “na criação e na revelação”.

Assim, “com a ajuda da ciência, não queremos só compreender, queremos também fazer a coisa certa, ou seja, construir uma civilização humana e solidária”, disse.

Depois de ouvir atentamente o testemunho de um professor e de um aluno, o papa desfrutou de um breve intervalo musical.

O papa refletiu sobre a questão cultural, o perigo da técnica que instrumentaliza o homem, a missão da universidade e o risco de ideologias que distorcem a liberdade.

Assembleia da CNBB trata apenas de política em sua “Mensagem ao Povo Brasileiro”


Para o novo presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o arcebispo de Porto Alegre (RS), dom Jayme Spengler, a ‘Mensagem ao Povo Brasileiro’ que a entidade publicou ontem (27) “parte da Pessoa de Jesus Cristo e do Evangelho e a referência de tudo aquilo que segue não poderia ser diferente. É o Evangelho. É Jesus Cristo”. Dom Jayme respondia à pergunta da ACI digital feita na entrevista coletiva que encerrou a 60ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que o elegeu presidente.

A ‘Mensagem’ trata exclusivamente de assuntos políticos que vão da guerra da Ucrânia à vacinação, passando por taxas de juros no Basil e elogio ao governo federal pela nomeação de lideranças indígenas “a diversos postos de decisão no governo federal”.

Depois de listar “situações nos preocupam, como os autoritarismos, as polarizações, as desinformações, as desigualdades estruturais, o racismo, os preconceitos, a corrupção, a banalização do mal e das vidas, as doenças, a drogadição, o tráfico de drogas e pessoas, o analfabetismo, as migrações forçadas, as juventudes com poucas oportunidades, as violências em todas as suas dimensões, o feminicídio, a precarização do trabalho e da renda, as agressões desmedidas à “casa comum”, aos povos originários e comunidades tradicionais, a mineração predatória, entre tantas outras, que fragilizam o tecido social e tencionam as relações humanas”, os bispos fazem um diagnóstico claro.

“Esses problemas têm origem na opção por um modelo econômico cruel, injusto e desigual”, diz a mensagem assinada pelo arcebispo de Belo Horizonte, dom Valmor de Azevedo, que está sendo substituído por Spengler na presidência da entidade, os vices e o secretário-geral que estão de saída. “Por trás da palavra ‘mercado’ existe um sistema financeiro e econômico autônomo, que protagoniza ações inescrupulosas, destrói a vida, precariza as políticas públicas, em especial a educação e a saúde, adota juros abusivos que ampliam o abismo social, afeta a cadeia produtiva e reduz o consumo dos bens necessários à maioria do povo brasileiro”.

A crítica aos juros altos ecoa as manifestações de Lula contra a taxa de 13,5% mantida pelo Banco Central.

Para dom Jayme Spengler, “a condição de discípulo, discípula, de Jesus, do Crucificado, o Ressuscitado, tem implicações na vida social. E a Igreja não pode ficar calada, independente de partido político, ou de quem esteja no poder. Nós precisamos, e devemos, naquilo que dizemos, naquilo que fazemos, ter como referência, eu repito, Jesus Cristo e o Evangelho. É isso o que pauta nossas decisões”.

Citando o Evangelho de Mateus, dom Jayme disse que “ser sal da terra, luz do mundo, fermento de transformação” deve se dará “em vista de uma fraternidade, de uma sociedade mais integrada, integradora, para as futuras gerações”.

A ACI Digital introduziu a pergunta aos bispos dizendo que a Mensagem ao Povo Brasileiro deste ano não se refere nenhuma vez a conversão, penitência, vida espiritual, nada diretamente ligado à “visão beatífica, meta da nossa caminhada na terra”, como diz o Catecismo da Igreja Católica.