A falta de conhecimento próprio é causa de
muitos erros na nossa vida. Pensamos que somos o que não somos e não
consideramos o que realmente somos. Frequentemente sofremos à toa, simplesmente
porque não nos conhecemos. O desconhecimento de quem somos pode levar-nos
inclusive à depressão quando vemos a nossa imagem desfigurada por alguém. O que
acontece é que essa imagem que formamos de nós mesmos não é a nossa verdadeira
imagem, mas uma mera caricatura. Não serve para nada! Qual é a nossa verdadeira
imagem, então?
A falta de conhecimento próprio pode levar-nos
tanto à baixa estima quanto à vanglória. Alguns “se vangloriavam como se fossem
justos, e desprezavam os outros” (Lc 18,9). Vangloriamo-nos, isto é, temos uma
glória vã, porque não nos conhecemos. Uma das consequências é a falta de critério
em relação às nossas ações e às dos outros: excessivo rigor para com os outros,
extrema misericórdia para conosco mesmos. Não adianta! Enganar-nos a nós mesmos
não é o caminho.
Como conhecer-nos a nós mesmos? Em primeiro
lugar, dispondo-nos a obter esse conhecimento com humildade para aceitar-nos
como somos. Deus nos ama não apesar de sermos dessa ou daquela maneira, mas com
tudo o que somos e temos. É diante de Deus que alcançaremos o verdadeiro
conhecimento sobre nós mesmos, pois nos conhece melhor que nós mesmos. Em
segundo lugar é muito importante perder o medo de chamar as coisas pelo nome:
soberba, preguiça, gula, luxúria, etc. Nada de eufemismos como: autoafirmação
do eu, falta de disposição, apetite abundante para a mesa ou para a cama etc.
Quando não tivermos medo de saber quem somos, isto é, sem assustar-nos e quando
saibamos conviver pacificamente conosco mesmos, lutando por ser melhores, o
nosso conhecimento próprio irá de progresso em progresso.
É interessante que às vezes não dizemos algumas
verdades às pessoas porque sabemos que vão se ofender ou que ficarão brabas, ou
ainda, que deixarão de falar conosco. Será que Deus não nos dá um maior
conhecimento sobre nós mesmos porque sabe que ficaríamos irritados, não nos
aceitaríamos ou, ainda, colocaríamos a culpa nele? Como é importante dizer ao
Senhor: “Pode me mostrar, Senhor, quem sou eu. Por favor, me mostra pouco a
pouco, à medida que me prepares, mas, não deixe de fazer com que eu progrida
nesse conhecimento”. A sinceridade com Deus é muito importante, e o mesmo se
diga da sinceridade para com os demais. Dessa maneira, seremos homens e
mulheres de critério, de personalidade, firmes.
Os santos se consideravam tão pouca coisa e,
ao mesmo tempo, era muito conscientes da sua dignidade de filhos de Deus, a tal
ponto de ignorar as ofensas pessoais que os outros pudessem dirigir-lhes.
Sabiam que qualquer coisa que os outros pudessem dizer deles ainda era pouco
diante daquele conhecimento que Deus lhes ia concedendo. E, no entanto, esse
conhecimento os mantinha em paz porque estava fundamentado no fato de
sentirem-se filhos muito amados de Deus e na humildade cada vez maior que Deus
lhes concedia.
Ao conhecermo-nos a nós mesmos, tampouco
iremos por aí alardeado: pobre de mim! Eu sou tão pequeno, tão humilde, não sei
fazer nada. Uma das frases mais bonitas daquele delicioso romance de Dickens,
David Cooperfield, é a seguinte: “estou convencido que o homem que sabe o que
vale não deixa de ser modesto”, com autêntica modéstia e com otimismo.
Para ajudar no nosso conhecimento próprio, um
propósito que poderíamos fazer nesse domingo é o de realizar, diariamente, o
nosso exame de consciência. Talvez sejam úteis essas três perguntinhas: no dia
de hoje, o que eu fiz de bom? O que eu fiz de mal? O que eu posso fazer melhor?
A cada uma dessas perguntas correspondem três atitudes, respectivamente:
agradecer, pedir perdão, pedir ajuda.









