sábado, 22 de outubro de 2016

O Verbo, Sabedoria de Deus, fez-Se homem


Ensina-nos o santo Apóstolo que dois homens deram princípio ao gênero humano: Adão e Cristo. Dois homens, semelhantes no corpo, mas diferentes no mérito; totalmente iguais na configuração dos membros, mas totalmente diversos na origem. Diz o Apóstolo: O primeiro homem, Adão, foi criado como um ser vivo; o último Adão tornou-Se um espírito que dá vida.

O primeiro Adão foi criado pelo segundo, de quem recebeu a alma para poder viver; o último Adão formou-Se por Si mesmo, nem podia esperar a vida da parte de outrem, porque d’Ele procede a vida de todos. Aquele foi modelado no barro desprezível; Este formou-Se nas entranhas preciosíssimas da Virgem. Naquele, a terra é transformada em carne; n’Este, a carne é elevada à condição divina.

Que mais? Este é o segundo Adão que, ao formar o primeiro, imprimiu nele a sua própria imagem. E por isso veio a assumir a sua natureza e o seu nome, para que não se perdesse aquele que tinha feito à sua imagem. Temos, portanto, o primeiro e o último Adão. O primeiro teve princípio; o último não tem fim. Por isso, este último é verdadeiramente o primeiro, como Ele mesmo diz: Eu sou o Primeiro e o Último.

Eu sou o Primeiro, isto é, sem princípio. Eu sou o Último, isto é, sem fim. Contudo, o que veio primeiro não foi o espiritual, mas o natural; depois é que veio o espiritual. Sem dúvida, a terra vem antes do fruto; mas a terra não é tão preciosa como o fruto. Aquela exige fadigas e suores; este dá alimento e vida. Com razão se gloria o profeta de tal fruto, dizendo: A nossa terra produziu o seu fruto. Que fruto? Aquele de que fala noutro lugar: Colocarei no teu trono um descendente da tua família. E o Apóstolo diz também: O primeiro homem é terreno porque veio da terra; o segundo homem é celeste porque desceu do Céu.  

Tal como foi o homem terreno, assim são também os homens terrenos; e tal como é o homem celeste, assim serão também os homens celestes. Como é que aqueles que não nasceram do Céu poderão ser celestes, não ficando como nasceram mas adquirindo um novo nascimento? Isto deve-se, irmãos, à acção do Espírito, que fecunda com a sua luz divina o seio materno da fonte virginal, para que aqueles que a origem terrestre trouxe ao mundo na miserável condição terrena, renasçam na condição celeste e sejam elevados à semelhança do seu divino Criador. Portanto, renascidos e renovados à imagem do Criador, ponhamos em prática o que nos diz o Apóstolo: Assim como trouxemos em nós a imagem do homem terreno, procuremos também trazer em nós a imagem do homem celeste.

Renascidos já, como dissemos, à imagem de Nosso Senhor, adotados como verdadeiros filhos de Deus, esforcemo-nos por levar sempre em nós a imagem fiel do nosso Criador, não na majestade que só a Ele pertence, mas na inocência, simplicidade, mansidão, paciência, humildade, misericórdia, paz e concórdia, com que Ele Se dignou tornar-Se um de nós e ser semelhante a nós.


Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, bispo
(Sermo 117: PL 52, 520-521) (Sec. V)

Você conhece um padre cheio de defeitos? Saiba o que fazer!


É muito difícil agradar todo mundo.

Há pessoas que criticam o padre por causa de suas homilias; outros, por ele ser muito exigente; ou pelo seu jeito de realizar o trabalho pastoral ou administrar a paróquia. Definitivamente, todo sacerdote é sinal de contradição.

Com relação às homilias, o problema para um padre é que, na mesma missa, há pessoas de todas as idades, de todas as condições socioeconômicas, de todos os níveis de formação. Como adequar a mensagem ao gosto de todos?

Indiferentemente de como o padre faça sua homilia, sempre haverá descontentamento entre os fiéis: uns porque a homilia é curta; outros porque é longa; outros porque é profunda demais; outros porque parece superficial; outros porque é fiel à doutrina da Igreja; outros porque é espiritual…

Qual é a solução? Dividir a paróquia por grupos, para que haja uma missa para crianças, outra para jovens, outra para adultos? No fundo, isso não é lógico, pois, indiferentemente dos grupos que forem formados, sempre haverá fiéis de outras idades.

Dividir os fiéis por grupos, para que haja uma missa para pessoas cultas, outra para pessoas menos cultas, outra para os pobres, outra para os ricos? Isso também não tem razão de ser, sob nenhum ponto de vista.

Há críticas de todos os tipos feitas aos sacerdotes:

– Se é bonito, deveria ter se casado; se é feio, coitado, foi por isso que virou padre.

– Se é sério, é porque está bravo; se sorri para todo mundo, quer ser o centro das atenções.

E assim por diante.

Indiferentemente do fato de as críticas serem fundadas ou infundadas, vale a pena recordar que os padres, apesar do seu jeito de ser e da sua história pessoal, querem encarnar o modelo de sacerdócio que Jesus propõe, como sumo e eterno Sacerdote. E pretendem exercer uma liderança ao estilo de Jesus, que não veio para condenar, mas para servir.

É uma pena que, na sociedade, e não só contra os sacerdotes, haja tantas críticas negativas e sobretudo generalizações.

Antes de criticar quem quer que seja, as pessoas precisam recordar o que Jesus disse: quem estiver livre de pecados, que atire a primeira pedra (Jo 8, 7). As críticas negativas crescem muito mais que as positivas.

Basta lembrar da história da Igreja. Os clérigos ou sacerdotes sempre sofreram muitos ataques, desde sempre, e assim será até o final.

Só que, na atualidade, é preciso acrescentar um ingrediente: a crescente apostasia (abandono público da fé), que torna mais cruéis ainda os ataques à Igreja e aos seus ministros. 

São João Paulo II


João Paulo II nasceu no dia 18 de maio de 1920 na cidade de Wadovice na Polônia sob o nome de Karol Wojtyla. Sua história está totalmente ligada a história do seu país, oprimido até a 1ª Guerra Mundial e em sua grande maioria católico. A Polônia era praticamente uma vitoriosa em meio a tantos países vizinhos protestantes e ortodoxos. Ali, ser católico era motivo de orgulho a pátria e o nosso papa João Paulo II, desde criança, foi um católico fervoroso e muito nacionalista.

Tinha o sonho de ser ator e aos 19 anos seu maior sonho era ajudar a Polônia a vencer a guerra e queria fazer isso através do teatro, utilizando-o como "arma" para "ganhar espíritos". A Polônia tinha sido invadida por Hitler e os nazistas haviam proibido qualquer tipo de missa ou seminário mas em 1942, com 22 anos, entrou para o seminário “clandestinamente” e surpreendeu a todos quando anunciou que queria ser padre. A intenção continuava a mesma, mas agora tinha o propósito da Igreja Católica por trás de dela.

João Paulo II manteve-se firme e tranquilo durante todo o processo principalmente contra os comunistas que eram contra o catolicismo e com seu carisma e diplomacia conseguiu subir rapidamente na hierarquia da Igreja Católica. No dia 1º de novembro de 1946 aconteceu a sua ordenação sacerdotal na Cracóvia e em 1948 após a sua gradução como doutor, voltou a Polônia onde foi vigário e capelão dos Universitários.

Em 1960, a Igreja Católica na Polônia vivia o momento oposto da Igreja Católica no Ocidente. Enquanto uma era muito respeitada e admirada a outra ia de mal a pior. Por conta disso, em 1962 o Papa João XXIII convocou o “Concílio do Vaticano” com o intuito de de modernizar o catolicismo e reverter a atual situação que a Igreja se encontrava.

João Paulo II, recém promovido a bispo, foi um dos convidados do Concílio e sua participação foi muito firme e discreta, fato que despertou o interesse do Papa VI (sucessor de João XXIII) em querer escutar mais as suas propostas e ideias. Karol foi responsável por influenciar muitas realizações na Igreja até a morte do Papa VI e a fatídica morte do Papa João Paulo I (seu sucessor) que morreu após 33 dias no cargo. Diante dessa situação, houve uma votação e com 99 votos de 108 era eleito como novo papa, Karol Wojtyla, que escolheu o nome de João Paulo II em homenagem aos seus 3 antecessores.

Na missa inaugural, João Paulo II declarou publicamente a sua vontade de estar com os poloneses. Nunca um Papa tinha entrado em um bloco comunista, mas sob ameaça de revolta, o dirigente na época foi obrigado a ceder e proporcionar ao povo uma visita de 8 dias a sua terra Natal sendo recebido pelo grito “queremos Deus”.

Em 1981, sofreu um atentado onde levou dois tiros e por pouco não morreu. Até hoje não se sabe quem foram os responsáveis, mas desconfia-se da participação de algum governo comunista. Mesmo depois disso, o Papa seguiu firme nos seus propósitos e continuou criticando os comunistas e usava suas armas mais fortes: diplomacia agressiva, espionagem e encontros secretos. Prova de seu carisma e popularidade foi o encontro de diversos líderes religiosos em 1986 onde a seu pedido houve uma trégua mundial que foi respeitada em várias nações em guerra. Inclusive, foi um dos grandes responsáveis pela queda do comunismo.

Em 1991, lutou contra a queda dos costumes da Igreja e também contra os escândalos de pedofilia na igreja americana além de lutar também dentro da própria Igreja onde acusou muitos dérigos e teólogos que defendiam casamento de padres, ordenação de mulheres e outras teses polêmicas.

No final de seu pontificado, já estava com a saúde bem debilitada e sofrendo do mal de Parkinson e com dificuldades para falar, respirar e andar teve que parar com as viagens que lhe renderam o carinhoso título de “grande missionário” e também com as aparições em público.

A trajetória do Papa João Paulo II até o pontificado é cheia de fé, coragem e determinação e não podemos deixar de exaltar esses elementos como fatores essenciais para a sua canonização e popularidade até nos dias de hoje.

Em 27 de abril de 2014, numa cerimônia inédita presidida pelo Papa Francisco, e com a presença do Papa Emérito Bento XVI, foi declarado Santo juntamente com o Papa João XXIII; sua festa litúrgica celebra-se no dia 22 de outubro.


Ó São João Paulo, da janela do céu, dá-nos a tua bênção!

Abençoa a Igreja, que tu amaste, serviste e guiaste, incentivando-a a caminhar corajosamente pelos caminhos do mundo, para levar Jesus a todos e todos a Jesus!

Abençoa os jovens, que também foram tua grande paixão. Ajuda-os a voltar a sonhar, voltar a dirigir o olhar ao alto para encontrar a luz que ilumina os caminhos da vida na terra.

Abençoa as famílias, abençoa cada família!

Tu percebeste a ação de Satanás contra esta preciosa e indispensável faísca do céu que Deus acendeu sobre a terra.

São João Paulo, com a tua intercessão, protege as famílias e cada vida que nasce dentro da família.

Roga pelo mundo inteiro, ainda marcado por tensões, guerras e injustiças.
Tu te opuseste à guerra, invocando o diálogo e semeando o amor;
roga por nós, para que sejamos incansáveis semeadores de paz.

Ó São João Paulo, da janela do céu, onde te vemos junto a Maria, faz descer sobre todos nós a bênção de Deus!

Amém.

São Donato


Donato, filho de nobres cristão, nasceu na Irlanda nos últimos anos do século VIII. Desde criança foi educado na fé católica. Ainda jovem abandonou a família e a pátria seguiu em peregrinação por várias regiões até chegar em Roma, onde se tornou sacerdote, em 816. 

Na volta para a Irlanda, acabou sendo eleito bispo na cidade de Fiesole. A tradição conta que quando Donato entrou na igreja, os sinos tocaram e os círios se acenderam, sem que alguém tivesse contribuído para isso. O povo viu nestes sinais a chegada do novo pastor. Era o ano 829. Existem muitos registros sobre o seu governo pastoral que durou cerca de quarenta anos. 

Teve uma boa relação com os soberanos daquela época, os quais acompanhava nas empreitadas e nas viagens. Escritos relatam que Donato era professor, trabalhou para os reis franceses, participou de expedições com os imperadores italianos e chefiou uma campanha contra os invasores muçulmanos na Itália meridional. 

Em 850, o Bispo Donato esteve em Roma participando da coroação do imperador Ludovico, feita pelo Papa Leão IV. Morreu em 877 na cidade de Fiesole, Itália. A festa de Santo Donato se espalhou por todo o mundo cristão, mas principalmente na Irlanda ele é muito homenageado. 

Era um sacerdote muito instruído, sábio e prudente, por isso se preocupou com a instrução do clero e da juventude. Escreveu diversas obras, entre as quais um Credo poético, que recitou antes de morrer. 


Bendito sejais Deus, que concedestes ao bispo Donato a graça da santidade. Dai também a nós, o espírito de tranqüilidade e amor por vós. Concedei-nos hoje e sempre a firmeza da fé e a fortaleza nas adversidades. Por Cristo Nosso Senhor. Amém. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PEC 241


A “PEC do teto” ou o Projeto de Emenda à Constituição (PEC 241), já aprovada em 1.o turno pela Câmara Federal, apresenta medida de austeridade econômica, como o favorecimento de caixa para o Governo Federal e o arrocho para a população. É preciso haver avaliação do resultado para a sociedade e não se incorrer em risco do sacrifício ainda maior aos que são fragilizados socialmente. Precisam-se também avaliar outras alternativas que ajudassem a resolver o problema econômico para o Governo e que, ao mesmo tempo, beneficiassem a maioria carente. O econômico e o político não podem passar acima do ético, para não se lesarem os valores e direitos da população.

A discussão e a decisão política devem ter o fio condutor do custo-benefício para os cidadãos e não só para uma parcela minoritária, como é o caso do poder econômico. As próprias conquistas sociais não podem ser menosprezadas nas decisões governamentais e políticas, muito menos o SUS, bem como todo o atendimento à saúde e à educação, que já estão muito sucateados. As argumentações a favor da PEC 241 parecem a de candidatos que querem convencer a população só mostrando o que aparentemente seria vantagem. Daí  a necessidade do debate com mais tempo para a população não amargar com as consequências que podem ser danosas depois da lei aprovada.

Gastos congelados levam ao esfriamento e ao afunilamento dos benefícios democráticos dos cidadãos. Não se vai poder aplicar mais dinheiro do que o mínimo da assistência necessária à vida minimamente digna de grande parte da população mais carente, ainda mais com uma regra desta PEC por 20 anos! 

CNBB apresenta texto-base da CF 2017


A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou o texto-base da Campanha da Fraternidade (CF) de 2017. Com o tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da visa” e o lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15), a iniciativa alerta para o cuidado da criação, de modo especial dos biomas brasileiros.

Segundo o bispo auxiliar de Brasília (DF) e secretário geral da CNBB, dom Leonardo Ulrich Steiner, a proposta é dar ênfase a diversidade de cada bioma e criar relações respeitosas com a vida e a cultura dos povos que neles habitam, especialmente à luz do Evangelho. Para ele, a depredação dos biomas é a manifestação da crise ecológica que pede uma profunda conversão interior. “Ao meditarmos e rezarmos os biomas e as pessoas que neles vivem sejamos conduzidos à vida nova”, afirma.

Ainda de acordo com o bispo, a Campanha deseja, antes de tudo, que o cristão seja um cultivador e guardador da obra criada. “Cultivar e guardar nasce da admiração! A beleza que toma o coração faz com que nos inclinemos com reverência diante da criação. A campanha deseja, antes de tudo, levar à admiração, para que todo o cristão seja um cultivador e guardador da obra criada. Tocados pela magnanimidade e bondade dos biomas, seremos conduzidos à conversão, isto é, cultivar e a guardar”, salienta.

Além de abordar a realidade dos biomas brasileiros e as pessoas que neles moram, a Campanha deseja despertar as famílias, comunidades e pessoas de boa vontade para o cuidado e o cultivo da Casa Comum. Para ajudar nas reflexões sobre a temática são propostos subsídios, sendo o texto-base o principal.

Dividido em quatro capítulos, a partir do método ver, julgar e agir, o texto-base faz uma abordagem dos biomas existentes, suas características e contribuições eclesiais. Também traz reflexões sobre os biomas e os povos originários, sob a perspectiva de São João Paulo II, Bento XVI e o papa Francisco. Ao final, são apresentados os objetivos permanentes da Campanha, os temas anteriores e os gestos concretos previstos durante a Campanha 2017.  

Papa Francisco não visitará o Brasil em 2017


Embora fosse muito aguardado pelos brasileiros, o Papa Francisco não poderá viajar ao Brasil em 2017, quando o país celebrará os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida no Rio Paraíba do Sul.

A informação foi confirmada nesta quinta-feira pela presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) à equipe da Canção Nova em Roma, após uma audiência com o Santo Padre.

“Falamos do Ano Nacional Mariano que começou dia 12 de outubro e ele se interessou. Foi aí que entrou o assunto de Aparecida e ele nos disse que ano que vem não poderá ir a Aparecida, porque indo a Aparecida teria que ir na Argentina, Chile, Uruguai e não há condições porque esse ano suspendeu as visitas ad limina (a visita dos bispos), e ano que vem vai pegar as visitas que seriam deste ano e do próximo ano”, disse o vice-presidente da CNBB, Dom Murilo Krieger.

Entretanto, segundo o secretário-geral da Conferência, Dom Leonardo Steiner, isso não significa que o Pontífice descarte uma segunda visita ao Brasil.

“Nós esperamos que, no futuro, ele venha nos visitar mais uma vez e isso certamente acontecerá porque existe sempre uma conjuntura de elementos, de momentos, e também a necessidade da presença do Santo Padre em outros lugares do mundo”, declarou. 

O Espírito intercede por nós


Quem só pede ao Senhor a bem-aventurança e só por ela anseia, pede com segurança e certeza e não teme receber com ela qualquer dano, porque pede aquilo sem o qual de nada lhe serviria qualquer outra coisa que recebesse, orando como convém. Esta é a única verdadeira vida, a única vida bem-aventurada: contemplar eternamente a bondade do Senhor, na imortalidade e incorruptibilidade de corpo e alma. Só por causa desta felicidade se buscam outros bens, só com esta finalidade se pede como convém. Quem alcançar a vida bem-aventurada terá tudo o que deseja e nela nada encontrará que não lhe convenha.

Ali está a fonte da vida, da qual agora sentimos sede na oração, enquanto vivemos na esperança sem ver ainda o que esperamos, refugiando-nos à sombra das asas d’Aquele em cuja presença estão todos os nossos desejos, para saborearmos a abundância da sua casa e saciarmo-nos na torrente das suas delícias; porque n’Ele está a fonte da vida e é na sua luz que veremos a luz, quando na sua bondade saciarmos todos os nossos desejos e já nada tivermos que pedir com gemidos porque tudo possuiremos com alegria.

Mas, como essa vida é a paz que supera todo o entendimento, também quando a pedimos na oração não sabemos o que pedimos. Não sabemos de facto o que pedimos, porque não conhecemos essa paz. Ao pensarmos nessa vida inefável, rejeitamos, recusamos e desprezamos tudo o que vem à nossa mente, sabendo bem que não é isso o que buscamos, embora não saibamos verdadeiramente o que esperamos.

Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância; douta, sem dúvida, porque instruída pelo Espírito Santo que vem em auxílio da nossa fraqueza. De facto, diz o Apóstolo: Esperar o que não vemos é esperar com perseverança; e acrescenta: O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que devemos pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E Aquele que vê no íntimo dos corações conhece as aspirações do Espírito e sabe que Ele intercede pelos santos em conformidade com Deus.

Isto não há-de entender-se como se o Espírito Santo de Deus, que na Trindade é Deus imutável, um só Deus com o Pai e o Filho, intercedesse pelos santos como alguém que não fosse Deus. Diz-se com efeito: Intercede pelos santos, porque os move a interceder, do mesmo modo que se diz: O Senhor vosso Deus vos põe à prova, para saber se O amais, isto é, para vo-lo fazer saber a vós. Efectivamente, o Espírito de Deus move os santos a interceder com gemidos inefáveis, inspirando-lhes o desejo daquela sublime realidade ainda desconhecida, mas que esperamos com perseverança. Aliás como seria possível falar de uma realidade que se deseja e que ainda se ignora? Certamente, se fosse totalmente desconhecida, não poderíamos desejar essa realidade sublime; e por outro lado, se já a estivéssemos a ver, não a buscaríamos nem pediríamos com gemidos inefáveis.


Da Carta de Santo Agostinho, bispo, a Proba
(Ep. 130, 14, 27 – 15, 28: CSEL 44, 71-73) (Sec. V)