Começo dizendo
que de domingo para segunda eu não dormi direito. Tive a infelicidade de
assistir a uma matéria veiculada no Fantástico sobre (e em prol!) a legalização
do aborto.
Como jornalista,
não pude deixar de notar que aquela reportagem mais parecia uma peça
publicitária, cujos interesses de quem a propôs (e pagou, sei lá) deveriam ser
obrigatoriamente defendidos, mostrados, justificados. Nada contra propagandas, mas aquilo ali não tinha
nenhuma plaquinha dizendo que era uma propaganda. Era pra ser reportagem. E
dada a gravidade do assunto, dar voz para, no mínimo, dois lados.
Começaram dizendo que o papa Francisco liberou os padres
para perdoarem mulheres que cometeram aborto. Assim, sem nenhum contexto,
explicação, como se o pecado do aborto, até recentemente, levasse a pessoa pro
inferno sem escalas, independente se a pobre mulher pedisse clemência a Deus e
se arrependesse. Caso você não seja católico ou não saiba, falarei sobre isso
mais adiante.
Aí começou o discurso de que praticamente o mundo inteiro
abortou. Inclusive você, amiga. Se duvidar, até eu abortei e não fiquei
sabendo.
Mencionaram uma “pesquisa” com dados absolutamente
controversos, questionáveis. A julgar pela entidade responsável (Anis), uma
organização que vem lutando há muitos anos, muitos, mesmo, pela legalização do
aborto. Falou a dona da entidade, falou o advogado que acha que é isso mesmo,
falaram mulheres (sofridas, marcadas, mutiladas) e que estão, provavelmente,
lidando com a realidade de terem eliminado seus filhos sem ter a chance de se
encontrarem com uma reconciliação verdadeira e profunda sobre o ato que
praticaram.
Há sempre alguém ali dizendo que “não foi nada, tá tudo
bem” quando, na verdade, foi terrível (para elas e para seus bebês). Assim,
essas mulheres não têm a chance de se depararem com a dor do arrependimento e a
alegria da redenção. Porque Deus perdoa e somente Ele é capaz de reconstruir,
restaurar, recriar o que está perdido. Mas como tomar consciência se, a todo
instante, alguém quer anestesiar e ignorar seus valores?
São muitos argumentos: melhor matar do que nascer pobre (é por que pobre vira bandido? Pobre é uma praga? Logo, pobre não deve nascer,
né?).
“Melhor matar do que nascer doente e dar trabalho.”
Caros, filhos dão trabalho, sim. Não-saudáveis ou sadios, dão trabalho. O peso
vai depender de quem o assume como um fardo ou não.
“Melhor matar do que esperar nascer e morrer algumas
horas depois”. Sim, melhor eliminar do que deixar aquela pessoa viver – por ser
um dom em si mesma – do que deixar com que realize sua missão aqui nesta terra.
Melhor matar do que ter trabalho com essas mães. Leva ela
numa clínica fofinha e limpinha, chama o procedimento de “interrupção
terapêutica” e manda a mulher ir viver a vida, se curar desse trauma dizendo
que ela é dona de si, que faz suas regras, que escolhe seu destino. E que não,
não foi nada, você apenas escolheu por si mesma. Que mentira!
Libertação, para uma mulher, é ser confirmada no amor. Se
não tem amor do pai da criança, da família, de ninguém, que encontre amor em
mim, em você. Que encontre apoio e acolhimento nas políticas públicas. Que
encontre esperança e força em um: “não é fácil, mas você vai conseguir, sim!”.
Queremos queimar sutiã, pneus e pixar muros, mas não
queremos nos comprometer com quem está ao nosso lado. Não queremos ser
solidários ao ponto de assumirmos riscos por causa de um desconhecido, de uma
mãe desesperada, de um casamento que está a beira do fim. Nomeamos a nossa
indiferença de: “o outro é livre e faz o que quiser”. Queremos apenas dizer que
as mulheres são donas de seus corpos, repetir essa verdade com a mentira de que
o corpo do filho (ou não é um ser humano) ou simplesmente pertence à mãe, dando
a ela o direito de fazer o que quiser com ele.
Volto ao papa.
Como era antes da decisão recente do papa Francisco?