JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA
RETIRO
ESPIRITUAL GUIADO PELO PAPA FRANCISCO
POR OCASIÃO DO JUBILEU DOS SACERDOTES
POR OCASIÃO DO JUBILEU DOS SACERDOTES
PRIMEIRA MEDITAÇÃO
Basílica de São João de
Latrão - Quinta-feira, 2 de junho de 2016
Exercícios
Espirituais para os sacerdotes – 2016
Bom dia,
queridos sacerdotes!
Começamos
este dia de retiro espiritual. Creio que nos fará bem rezar uns pelos outros,
em comunhão. Um retiro, mas em comunhão, todos.
Escolhi o
tema da misericórdia. Começo por uma breve introdução a todo o retiro.
A
misericórdia, no seu aspeto mais feminino, é o entranhável amor materno que se
comove perante a fragilidade da sua criatura recém-nascida e a abraça, suprindo
tudo o que lhe falta para poder viver e crescer (rahamim); e, no seu
aspeto propriamente masculino, é a fidelidade forte do Pai que sempre sustenta,
perdoa e reencaminha os seus filhos. A misericórdia é, simultaneamente, o fruto
duma «aliança» – daí dizer-se que Deus Se lembra do seu (pacto de) misericórdia
(hesed) – e um «ato» gratuito de benevolência e bondade, que brota da
nossa psicologia mais profunda e se traduz numa obra exterior (eleos,
transforma-se em esmola). Este caráter inclusivo permite que esteja sempre ao
alcance de todos «misericordiar», compadecer-se de quem sofre, comover-se
perante o necessitado, indignar-se porque sente o íntimo estremecer-lhe diante
duma injustiça patente e trata imediatamente de fazer algo de concreto, com
respeito e ternura, para remediar a situação. E, partindo deste sentimento
visceral, está ao alcance de todos contemplar Deus a partir da perspetiva deste
primeiro e último atributo com que Jesus no-Lo quis revelar: o nome de Deus é
Misericórdia.
Quando
meditamos sobre a misericórdia, algo de especial acontece. A dinâmica dos
Exercícios Espirituais fortalece-se a partir de dentro. A misericórdia faz ver
que as vias objetivas da mística clássica – purgativa, iluminativa e unitiva –
não são jamais etapas sucessivas, que se vão superando; mas sempre temos
necessidade de nova conversão, de maior contemplação e de renovado amor. Estas
três fases entrelaçam-se e retornam. Nada une mais a Deus do que um ato de
misericórdia – não é um exagero: nada nos une mais a Deus do que um ato de
misericórdia –, quer se trate da misericórdia com que o Senhor nos perdoa os
nossos pecados, quer se trate da graça que nos dá para praticarmos as obras de
misericórdia em seu nome. Nada ilumina mais a fé do que purificar os nossos
pecados, e não há nada de mais claro que Mateus 25 e a frase «felizes os
misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7), para
entender qual é a vontade de Deus, a missão que nos confia. À misericórdia
pode-se aplicar este ensinamento de Jesus: «Com a medida com que medirdes,
assim sereis medidos» (Mt 7, 2). Desculpai, mas eu penso aqui nos
confessores impacientes, que «malham» nos penitentes, que os repreendem. Será
assim que Deus os tratará a eles! Por esta razão ao menos, não façais estas
coisas. A misericórdia permite a passagem de nos sentirmos «misericordiados» a
desejar «misericordiar». Podem coexistir, numa tensão saudável, o sentimento de
vergonha pelos próprios pecados com o sentimento da dignidade a que o Senhor
nos eleva. Podemos passar, sem preâmbulos, do distanciamento à festa, como na
parábola do filho pródigo, e usar como recetáculo da misericórdia o nosso
próprio pecado. Repito isto, que é a chave desta primeira Meditação: usar como
recetáculo da misericórdia o nosso próprio pecado. A misericórdia impele-nos a
passar do pessoal ao comunitário. Quando agimos com misericórdia, como nos
milagres da multiplicação dos pães, que nascem da compaixão de Jesus pelo seu
povo e pelos forasteiros, os pães multiplicam-se à medida que são repartidos.







