segunda-feira, 6 de junho de 2016

Papa: “Nada une mais a Deus do que um ato de misericórdia”.


JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA

RETIRO ESPIRITUAL GUIADO PELO PAPA FRANCISCO
POR OCASIÃO DO JUBILEU DOS SACERDOTES

PRIMEIRA MEDITAÇÃO
Basílica de São João de Latrão - Quinta-feira, 2 de junho de 2016

Exercícios Espirituais para os sacerdotes – 2016

Bom dia, queridos sacerdotes!

Começamos este dia de retiro espiritual. Creio que nos fará bem rezar uns pelos outros, em comunhão. Um retiro, mas em comunhão, todos.

Escolhi o tema da misericórdia. Começo por uma breve introdução a todo o retiro.

A misericórdia, no seu aspeto mais feminino, é o entranhável amor materno que se comove perante a fragilidade da sua criatura recém-nascida e a abraça, suprindo tudo o que lhe falta para poder viver e crescer (rahamim); e, no seu aspeto propriamente masculino, é a fidelidade forte do Pai que sempre sustenta, perdoa e reencaminha os seus filhos. A misericórdia é, simultaneamente, o fruto duma «aliança» – daí dizer-se que Deus Se lembra do seu (pacto de) misericórdia (hesed) – e um «ato» gratuito de benevolência e bondade, que brota da nossa psicologia mais profunda e se traduz numa obra exterior (eleos, transforma-se em esmola). Este caráter inclusivo permite que esteja sempre ao alcance de todos «misericordiar», compadecer-se de quem sofre, comover-se perante o necessitado, indignar-se porque sente o íntimo estremecer-lhe diante duma injustiça patente e trata imediatamente de fazer algo de concreto, com respeito e ternura, para remediar a situação. E, partindo deste sentimento visceral, está ao alcance de todos contemplar Deus a partir da perspetiva deste primeiro e último atributo com que Jesus no-Lo quis revelar: o nome de Deus é Misericórdia.

Quando meditamos sobre a misericórdia, algo de especial acontece. A dinâmica dos Exercícios Espirituais fortalece-se a partir de dentro. A misericórdia faz ver que as vias objetivas da mística clássica – purgativa, iluminativa e unitiva – não são jamais etapas sucessivas, que se vão superando; mas sempre temos necessidade de nova conversão, de maior contemplação e de renovado amor. Estas três fases entrelaçam-se e retornam. Nada une mais a Deus do que um ato de misericórdia – não é um exagero: nada nos une mais a Deus do que um ato de misericórdia –, quer se trate da misericórdia com que o Senhor nos perdoa os nossos pecados, quer se trate da graça que nos dá para praticarmos as obras de misericórdia em seu nome. Nada ilumina mais a fé do que purificar os nossos pecados, e não há nada de mais claro que Mateus 25 e a frase «felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7), para entender qual é a vontade de Deus, a missão que nos confia. À misericórdia pode-se aplicar este ensinamento de Jesus: «Com a medida com que medirdes, assim sereis medidos» (Mt 7, 2). Desculpai, mas eu penso aqui nos confessores impacientes, que «malham» nos penitentes, que os repreendem. Será assim que Deus os tratará a eles! Por esta razão ao menos, não façais estas coisas. A misericórdia permite a passagem de nos sentirmos «misericordiados» a desejar «misericordiar». Podem coexistir, numa tensão saudável, o sentimento de vergonha pelos próprios pecados com o sentimento da dignidade a que o Senhor nos eleva. Podemos passar, sem preâmbulos, do distanciamento à festa, como na parábola do filho pródigo, e usar como recetáculo da misericórdia o nosso próprio pecado. Repito isto, que é a chave desta primeira Meditação: usar como recetáculo da misericórdia o nosso próprio pecado. A misericórdia impele-nos a passar do pessoal ao comunitário. Quando agimos com misericórdia, como nos milagres da multiplicação dos pães, que nascem da compaixão de Jesus pelo seu povo e pelos forasteiros, os pães multiplicam-se à medida que são repartidos.

GO: Padre é preso pela polícia e “privado de ordens” pela Arquidiocese, suspeito de estuprar adolescente com deficiência.




CÚRIA METROPOLITANA DE UBERABA
– NOTA DE ESCLARECIMENTO -

Diante do caso veiculado pelos meios de comunicação e que vem sendo apurado pelas autoridades legais, sobre o Padre Fabiano Gonzaga, presbítero pertencente ao nosso clero, e o seu envolvimento em um caso de abuso sexual contra um adolescente, na cidade de Caldas Novas, no estado de Goiás, a Arquidiocese de Uberaba, vem a público para manifestar, que diante do exposto aguarda a apuração dos fatos, pelas autoridades competentes.

Como Igreja, repudiamos todo tipo de violência e abuso, nos mais diferentes níveis; e sentimos as dores daqueles que sofrem, principalmente quando envolve um dos nossos representantes. Informamos, também, que o referido padre foi privado do “uso de ordens”, pelo Senhor Arcebispo, Dom Paulo Mendes Peixoto, ou seja, não tem jurisprudência para presidir ou administrar qualquer sacramento. Sendo vedado o exercício do ministério presbiteral ou qualquer outro encargo eclesiástico, por tempo indeterminado para apuração dos fatos.

Pedimos perdão por qualquer constrangimento ou dor que pudemos causar com tal fato, e esperamos que tudo seja averiguado e resolvido o mais rápido possível, para que não haja maiores constrangimentos.


Uberaba, 05 de junho de 2016.


Padre Saulo Emílio Pinheiro Moraes
Vigário Geral

Quero ser cristão de fato e não apenas de nome


Nunca tivestes inveja de ninguém e ensinastes os outros. Ora aquilo que ensinais e ordenais aos outros, quero que conserve todo o seu vigor para mim. O que deveis pedir para mim é apenas que eu tenha fortaleza interior e exterior, para que seja firme não só no falar mas também no querer, para que seja cristão não só de nome mas de facto. Se proceder como cristão, terei direito a esse nome; e quando já não estiver visivelmente neste mundo, então serei verdadeiramente fiel. Nada é bom apenas pela aparência. O próprio Jesus Cristo, nosso Deus, agora que voltou para o Pai é que melhor Se manifesta. Perante as perseguições do mundo, o cristianismo não se afirma com palavras persuasivas, mas com grandeza de ânimo e fortaleza.

Eu escrevo a todas as Igrejas e asseguro a todas elas que estou disposto a morrer de bom grado por Deus, se vós não o impedirdes. Peço-vos que não manifesteis por mim uma benevolência inoportuna. Deixai-me ser pasto das feras, pelas quais poderei chegar à posse de Deus. Sou trigo de Deus e devo ser moído pelos dentes das feras para me transformar em pão imaculado de Cristo.

Acariciai antes as feras, para que sejam o meu sepulcro e não deixem nada do meu corpo, a fim de que no meu último sono eu não seja incómodo para ninguém. Quando o mundo já não puder ver o meu corpo, então serei verdadeiro discípulo de Cristo. Rezai por mim a Cristo, para que, por meio desses instrumentos, eu seja uma vítima oferecida a Deus. Não vos dou ordens como Pedro e Paulo. Eles eram apóstolos, eu sou um condenado; eles eram livres, eu por enquanto sou um escravo. Mas se padecer o martírio, então serei um liberto de Jesus Cristo e n’Ele ressuscitarei livre. Agora, que estou preso, aprendo a nada mais ambicionar.

Desde a Síria até Roma, vou lutando já com as feras, por terra e por mar, de noite e de dia, atado a dez leopardos, isto é, a um grupo de soldados. Quanto melhor os trato, piores se tornam. Com os seus maus tratos vou-me aperfeiçoando, mas nem por isso me dou por justificado. Oh como desejo ter a felicidade de me encontrar diante das feras preparadas para mim, e que depressa se lancem sobre mim! Eu as incitarei, para que imediatamente me devorem, não suceda como noutras ocasiões, em que, atemorizadas, não se atreveram a tocar nas suas vítimas. Mas se recusarem atacar-me, eu mesmo as obrigarei.

Perdoai-me o que digo; eu sei bem o que é bom para mim. É agora que eu começo a ser discípulo. Nenhuma coisa, visível ou invisível, me impeça de ir ter com Jesus Cristo. Venham sobre mim o fogo, a cruz, as manadas de feras, a dilaceração da carne, a desarticulação dos membros, o desconjuntamento dos ossos, a trituração de todo o corpo e os cruéis tormentos do demónio; venha tudo isso sobre mim, contanto que me sirvam para alcançar a Jesus Cristo.


Da Carta de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir, aos Romanos
(3, 1 – 5, 3: Funk 1, 215-219) (Sec. I)

É imoral realizar o exame de espermograma?


Dependendo de sua finalidade o exame de espermograma pode ser moral ou imoral. Quando ele é solicitado para preparar uma fertilização in vitro é imoral, pois sua finalidade também o é. Para que haja um espermograma moralmente aceitável é preciso que a finalidade seja moralmente aceitável. Este exame, quando solicitado para detectar doenças ou resolver problemas de infertilidade pode ser aceitável.

Porém, é preciso analisar também o método pelo qual o espermograma pode ser realizado. Existem métodos lícitos e ilícitos para a colheita do material e estes devem ser levados em conta também. No dia 02 de agosto de 1929, o Santo Ofício publicou o seguinte decreto que diz respeito a utilização da masturbação direta como método para a colheita do esperma. Eis:

“Pergunta: É lícita a masturbação diretamente procurada para obter esperma com que se pode descobrir e logo curar, na medida do possível, a doença contagiosa da ‘blenorragia’?”

Resposta: (confirmada pelo Sumo Pontífice em 26 de jun.): “Não” (DH 2684)

Assim, está descartada a masturbação como método para obter o esperma a ser examinado. Esse posicionamento não é novo, pelo contrário, é a posição constante da tradição da Igreja. O próprio Catecismo da Igreja Católica, no número 2352 diz que:

“Por masturbação se deve entender a excitação voluntária dos órgãos genitais, a fim de conseguir um prazer venéreo. Na linha da tradição constante, tanto o magistério da Igreja como o senso moral dos fiéis afirmaram sem hesitação que a masturbação é um ato intrínseca e gravemente desordenado. Qualquer que seja o motivo, o uso deliberado da faculdade sexual fora das relações conjugais normais contradiz sua finalidade. (…)” (CIC 2352)

Assim, se o ato por si mesmo é desordenado, as circunstâncias não mudam a sua imoralidade e, portanto, a masturbação para obter esperma não é aceitável pela Igreja. A solução é buscar método alternativos para a colheita do material. 

São Norberto




Norberto nasceu por volta de 1080 na Alemanha. Filho mais novo de uma família da nobreza, podia escolher entre a carreira militar e a religiosa. Norberto escolheu a vida religiosa, mas vivia despreocupado e numa vida de luxo e festas constantes. Um dia foi atingido por um raio enquanto cavalgava no bosque.

Quando o jovem nobre despertou do desmaio, ouviu uma voz que lhe dizia para abandonar a vida mundana e fosse praticar a virtude. A partir daquele instante abandonou a família, amigos, posses e a vida dos prazeres. Passou a percorrer na solidão, com os pés descalços e roupa de penitente, os caminhos da Alemanha, Bélgica e França. Talvez envergonhado pelo passado, empreendeu a luta por reformas na Igreja, visando acabar com os privilégios dos nobres no interior do cristianismo. Fundou a Ordem dos Cônegos Regulares Premonstratenses, conhecidos como Monges Brancos por causa da cor do hábito. Em 1126 foi nomeado Arcebispo de Magdeburgo e escolhido para conselheiro espiritual do rei. Norberto morreu no dia 06 de junho de 1134. 

Ó Deus, que fizestes de São Norberto fiel ministro da vossa Igreja, pela oração e zelo pastoral, concedei-nos por suas preces e méritos, alcançar um dia, com a vossa graça, a realização de tudo o que nos ensinou por palavras e exemplos. Por nosso Senhor Jesus Cristo Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo, Amém.

domingo, 5 de junho de 2016

O Papa canoniza a dois novos Santos: "Permaneçamos na Cruz como Maria".




SANTA MISSA E CANONIZAÇÃO DOS BEATOS
 ESTANISLAU DE JESUS MARIA E MARIA ELIZABETH HESSELBLAD

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
Praça São Pedro
Domingo, 5 de junho de 2016
 
A Palavra de Deus que ouvimos conduz-nos para o acontecimento central da fé: a vitória de Deus sobre o sofrimento e a morte. É o Evangelho da esperança que brota do mistério pascal de Cristo, que irradia do seu rosto, revelador de Deus Pai consolador dos aflitos. É uma Palavra que nos chama a permanecer intimamente unidos à paixão de Jesus Nosso Senhor, para que se manifeste em nós o poder da sua ressurreição.

Realmente, na Paixão de Cristo, temos a resposta de Deus ao grito angustiado, e às vezes indignado, que a experiência do sofrimento e da morte suscita em nós. É preciso não fugir da Cruz, mas permanecer lá, como fez a Virgem Mãe que, sofrendo juntamente com Jesus, recebeu a graça de esperar para além de toda a esperança (cf. Rm 4, 18).

Esta foi também a experiência de Estanislau de Jesus Maria e de Maria Isabel Hesselblad, que hoje são proclamados Santos: permaneceram intimamente unidos à paixão de Jesus e, neles, manifestou-se o poder da sua ressurreição.

A primeira leitura e o Evangelho deste domingo apresentam-nos, precisamente, dois sinais prodigiosos de ressurreição: o primeiro realizado pelo profeta Elias; o segundo, por Jesus. Nos dois casos, os mortos são filhos ainda muito novos de mulheres viúvas, os quais são devolvidos, vivos, à respetiva mãe.

A viúva de Sarepta – uma mulher não-judia, que no entanto hospedara em sua casa o profeta Elias – está indignada com o profeta e com Deus, porque, precisamente enquanto Elias estava lá hospedado, o bebé dela adoecera e agora expirou nos seus braços. Então Elias disse àquela mulher: «Dá-me o teu filho» (1 Re 17, 19). Esta é uma palavra-chave: exprime a atitude de Deus face à nossa morte (em todas as suas formas). Não diz: «Fica com ela, arranja-te!»; mas: «Dá-ma a Mim». Com efeito, o profeta toma o menino e leva-o para o quarto de cima e lá sozinho, em oração, «luta com Deus», fazendo-Lhe ver o absurdo daquela morte. E o Senhor escutou a voz de Elias, porque, na realidade, era Ele próprio a falar e agir no profeta. Era Ele que, pela boca de Elias, dissera à mulher: «Dá-me o teu filho». E agora era Ele que o devolvia, vivo, à mãe.

Não quero agradar aos homens, mas a Deus


Inácio, também chamado Teóforo, à Igreja que alcançou misericórdia pela magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo, seu Filho unigénito: à Igreja escolhida e iluminada pela vontade d’Aquele que quis tudo o que existe, segundo a caridade de Jesus Cristo, nosso Deus; à Igreja, que tem a presidência na região dos Romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser proclamada bem-aventurada, digna de louvor, digna de ser ouvida; à Igreja dignamente pura, que preside à assembleia universal da caridade, que guarda a lei de Cristo e é adornada com o nome do Pai: para ela as minhas saudações em nome de Jesus Cristo, Filho do Pai. Àqueles que aderem de corpo e alma a todos os seus preceitos, indefectivelmente cheios da graça de Deus e isentos de toda a contaminação estranha, eu lhes desejo a mais perfeita e santa felicidade em Jesus Cristo, nosso Deus.

Por fim, depois de tanto pedir ao Senhor nas minhas orações, alcancei a graça de contemplar o vosso rosto, digno de Deus; agora, prisioneiro por amor de Cristo Jesus, espero poder saudar-vos, se a vontade de Deus me julgar digno de chegar até ao fim. Os começos são bons; queira Deus que obtenha a graça de receber, sem qualquer impedimento, a parte da herança que me está reservada. Mas temo que a vossa caridade me venha a prejudicar, porque a vós é fácil obter o que quiserdes, mas a mim ser-me-ia difícil alcançar a Deus, se não tendes piedade de mim.

Não quero que agradeis aos homens, mas a Deus, como já o fazeis. O que é certo é que não encontrarei melhor oportunidade de chegar até Deus, nem vós podereis inscrever o vosso nome nesta obra tão bela, senão permanecendo em silêncio. Se não falardes em meu favor, eu tornar-me-ei palavra de Deus; mas se amais esta minha vida segundo a carne, voltarei a ser apenas uma simples voz. O melhor favor que podeis fazer-me é deixar que seja imolado para glória de Deus, enquanto o altar ainda está preparado; assim, unidos pela caridade num só coro, podereis cantar ao Pai em Cristo Jesus, porque Deus concedeu ao bispo da Síria a graça de O alcançar, fazendo-o vir do Oriente ao Ocidente. É bom que se ponha o sol da minha vida neste mundo, para que volte a nascer na aurora de Deus.


Início da Carta de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir, aos Romanos
(Inscriptio, 1, 1 – 2, 2: Funk 1, 213-215)       (Sec. I)

Não tratemos os lobos como ovelhas desgarradas


A doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo está cheia de verdades aparentemente antagônicas que, entretanto, examinadas com atenção, longe de reciprocamente se desmentirem, reciprocamente se completam formando uma harmonia verdadeiramente maravilhosa. É este o caso, por exemplo, da aparente contradição entre a justiça e a bondade divinas. Deus é ao mesmo tempo infinitamente justo e infinitamente misericordioso. Sempre que para compreendermos bem uma destas perfeições fecharmos os olhos a outra, teremos caído em grave erro. Nosso Senhor Jesus Cristo deu, em Sua vida terrena, admiráveis provas de Sua doçura e de Sua severidade. Não pretendamos “corrigir” a personalidade de Nosso Senhor segundo a pequenez de nossas vistas, e fechar os olhos à suavidade para melhor nos edificarmos com a justiça do Salvador; ou pelo contrário fazermos abstração de Sua justiça para melhor compreendermos Sua infinita compaixão para com os pecadores. Nosso Senhor se mostrou perfeito e adorável tanto quando acolhia com perdão inefavelmente doce Maria Madalena, quanto quando castigava com linguagem violenta os fariseus. Não arranquemos do Santo Evangelho quaisquer destas páginas. Saibamos compreender e adorar as perfeições de Nosso Senhor como elas se revelam em um e outro episódio. E compreendamos enfim que a imitação de Nosso Senhor Jesus Cristo por nós só será perfeita no dia em que soubermos, não apenas perdoar, consolar e afagar, mas ainda no dia em que soubermos flagelar, denunciar e fulminar como Nosso Senhor.

Há muitos católicos que consideram os episódios do Evangelho em que aparece o santo furor do Messias contra a ignomínia e a perfídia dos fariseus como coisas indignas de imitação. É ao menos o que se depreende do modo de que eles consideram o apostolado. Falam sempre em doçura, e procuram sempre imitar essa virtude de Nosso Senhor. Que Deus os abençoe por isto. Mas por que não procuram eles imitar as outras virtudes de Nosso Senhor?

Muito freqüentemente, quando se propõe em matéria de apostolado um ato de energia qualquer, a resposta invariável é de que é preciso proceder com muita brandura “a fim de não afastar ainda mais os transviados”. Poder-se-á sustentar que os atos de energia têm sempre o invariável efeito de “afastar ainda mais os transviados”? Poder-se-ia sustentar que Nosso Senhor, quando dirigiu aos fariseus suas invectivas candentes, fê-lo com a intenção de “afastar ainda mais aqueles transviados”? Ou porventura se deveria supor que Nosso Senhor não sabia ou não se preocupava com o efeito “catastrófico” que suas palavras causariam aos fariseus? Quem ousaria admitir tal blasfêmia contra a Sabedoria Encarnada, que foi Nosso Senhor?

Deus nos livre de preconizar o uso de energia e dos processos violentos como único remédio para as almas. Deus nos livre também, entretanto, de proscrever estes remédios heróicos de nossos processos de apostolado. Há circunstâncias em que se deve ser suave e circunstâncias em que se deve ser santamente violento. Ser suave quando as circunstâncias exigem violência, ou ser violento quando as circunstâncias exigem suavidade, há nisto sempre um grave mal.