terça-feira, 7 de junho de 2016

Homilética: 11º Domingo Comum - Ano C: "O perdão dos pecados: vida nova".



Puxa vida! Como essa mulher chorava! “As suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e os ungia com o perfume” (Lc 7,38). Isso sim que é arrependimento. Jesus disse que os “seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor” (Lc 7,47). A esse tipo de arrependimento a Igreja chama contrição porque está movido pelo amor, diferente da atrição, arrependimento movido pelo temor. A contrição limpa totalmente a alma, purifica-a e faz com que fluam os propósitos de uma vida nova.

Geralmente, os convertidos mostram ser pessoas fervorosas. Às vezes são pessoas que conheceram os abismos do pecado e do demônio, que desceram até aos abismos da morte espiritual e, por tanto, ao serem libertadas do diabo e do pecado, sabem valorizar a graça de Deus que lhes alcançou: ser cristão, ser católico; poder confessar-se com freqüência; participar do Sacrifício de Cristo Salvador em cada Santa Missa; conversar com Deus na oração; viver uma vida limpa, honesta, livre das cadeias do mal e do pecado.

A contrição que os conversos manifestam me ajuda a pensar na sinceridade do meu amor para com Deus. Eu acho que nós católicos “de sempre” deveríamos aprender algo do fervor dos conversos. Sem dúvida, quando a vida de fé vai madurando se vê mais e melhor; não obstante, nunca podemos afastar-nos do nosso primeiro amor, dessa visão das coisas que nos foi concedida e que mudou o rumo da nossa vida. Não nos esqueçamos daquelas palavras do Espírito Santo: “trabalhai na vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2,12).

Aquela mulher percebeu algo do amor de Deus para com ela, viu também que tinha ofendido a esse Deus tão bom e amável e, diante dessa evidência, não pode fazer outra coisa que derramar abundantes lágrimas. O ato de contrição nos leva a perceber que “Deus é amor” (1 Jo 4,8.16) e que nós ofendemos a alguém que só quer o nosso bem e a nossa felicidade; em segundo lugar, que não podemos fazer nada a não ser pedir perdão, chorar e implorar misericórdia no sacramento da confissão.

Peçamos a Deus que nos livre da atitude do fariseu que, além de ter sido pouco educado– não ofereceu água a Jesus para lavar os pés, não lhe deu o ósculo, não ungiu a cabeça de Cristo –, começou a julgar aquela pobre mulher. Infelizmente, às vezes, em lugar de alegrarmo-nos por um irmão que se converte, começamos a julgá-lo; essa atitude não é cristã. Precisamos ser mais acolhedores e alegrar-nos mais com os outros, celebrar festivamente o fato de que uma pessoa se aproxima do Senhor. Ele é o nosso Deus e quer sempre o nosso bem.

Inoportuno manifesto do Conselho Nacional do Laicato sobre o "momento político atual".


O Conselho Nacional do Laicato (CNL), em 1.º de junho de 2016, publicou na Internet um manifesto sobre o “momento político atual”.

O texto finda com a seguinte afirmação:

“Como representantes dos Cristãos Leigos e Leigas do Brasil, irmanados ao povo brasileiro que trabalha, luta e dignifica este país, alicerçados pelo Papa Francisco e seu testemunho profético, nos colocamos em estado permanente de atuação para que as ameaças ora apresentadas, não encontrem espaços para a sua efetivação em nosso meio.”

Representantes dos leigos? Por acaso os milhões de leigos das inúmeras dioceses deste país elegeram esse “conselho”? Outorgaram-lhe alguma procuração? É claro que não! Desta feita, a associação em apreço, embora referendada pela conferência episcopal, não goza de legitimidade para falar em nome dos leigos.

Qual é o papel do leigo na sociedade? Segundo o cânon 225, §2.º, compete ao leigo animar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do evangelho. O Documento n.º 105, publicado em 2016, fruto da 54.ª assembleia ordinária da CNBB, resgatou o que caracteriza a missão laical, consoante o ensinamento do Concílio: a secularidade. Trata-se de uma análise que, sobre valorizar as atividades intraeclesiais exercidas pelo leigo, enfatiza o aspecto secular e extraeclesial da vocação para a qual Deus chama o leigo, isto é, o elemento mais importante do quefazer salvífico do leigo consiste na ação transformadora do mundo à luz da Doutrina Social da Igreja.

No que tange ao conteúdo do indigitado manifesto, nota-se certa aversão ao debate democrático, porque os que não concordam com as ideias ali expendidas são imediatamente tachados de ultraconservadores e fundamentalistas religiosos. Observo, contudo, que um bom católico, leigo ou clérigo, é um conservador por excelência, porquanto preserva ou conserva o ensinamento de Jesus Cristo em meio às vicissitudes históricas. Foi conservando a doutrina de nosso Senhor que, por exemplo, a Rerum Novarum de Leão XIII e outras encíclicas conceituaram a função social da propriedade. A propósito, o pensamento de esquerda não é progressista; é revolucionário, vez que anela solapar o edifício social vigente e erguer outra realidade, sem Deus.

O meu amor está crucificado




Para nada me serviriam os prazeres do mundo ou os reinos deste século. Prefiro morrer em Cristo Jesus a reinar sobre todos os confins da terra. Procuro Aquele que morreu por nós; quero Aquele que ressuscitou por causa de nós. Estou prestes a nascer. Tende piedade de mim, irmãos. Não me impeçais de viver, não queirais que eu morra. Não me entregueis ao mundo, a mim que desejo ser de Deus, nem penseis seduzir-me com coisas terrenas. Deixai-me alcançar a luz pura; quando lá chegar, serei verdadeiramente um homem. Deixai-me ser imitador da paixão do meu Deus. Se alguém O possuir em si mesmo, compreenderá o que quero e terá compaixão de mim por conhecer a ânsia que me atormenta.


O príncipe deste mundo quer arrebatar-me e corromper a disposição da minha vontade para com Deus. Nenhum de vós o ajude; tornai-vos antes partidários meus, isto é, de Deus. Não queirais ter ao mesmo tempo o nome de Jesus Cristo na boca e desejos mundanos no coração. Não me queirais mal. Mesmo que eu vos pedisse outra coisa na vossa presença, não me devíeis acreditar. Acreditai antes nisto que vos escrevo. Estou a escrever-vos enquanto ainda vivo, mas desejando morrer. O meu amor está crucificado e não há em mim qualquer fogo que se alimente da matéria. Mas há uma água viva, que murmura dentro de mim e me diz interiormente: «Vem para o Pai». Não me satisfazem os alimentos corruptíveis nem os prazeres deste mundo. Quero o pão de Deus que é a Carne de Jesus Cristo, que nasceu da descendência de David; e por bebida quero o seu Sangue que é a caridade incorruptível.



Já não quero viver mais segundo os homens; e isto acontecerá, se vós quiserdes. Peço-vos que o queirais, para que também vós alcanceis benevolência. Peço-vos em poucas palavras: acreditai-me. Jesus Cristo vos fará compreender que digo a verdade. Ele é a boca da verdade, no qual o Pai falou verdadeiramente. Rogai por mim, para que O consiga. Não vos escrevi segundo a carne mas segundo o espírito de Deus. Se padecer o martírio, ter-me-eis amado; se for rejeitado, ter-me-eis querido mal.


Nas vossas orações lembrai-vos da Igreja da Síria, que na minha ausência só tem a Deus por pastor. Só Jesus Cristo será o seu bispo, juntamente com a vossa caridade. Na verdade, envergonho-me de ser contado no número dos seus membros; não sou digno, porque sou o último de todos e como abortivo. Mas alcancei misericórdia, e serei alguém, se alcançar a Deus.


Saúda-vos o meu espírito e a caridade das Igrejas que me receberam em nome de Jesus Cristo e não como um simples peregrino. Saúdam-vos também as Igrejas que, embora não confiadas ao meu cuidado, ao longo do itinerário que tenho percorrido corporalmente, de cidade em cidade, acorriam para me verem e saudarem.





Da Carta de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir, aos Romanos(6, 1 – 9, 3: Funk 1, 219-223) (Sec. I)

A água benta é uma superstição?


Para quem não conhece a teologia católica, a água benta pode parecer, com certa razoabilidade, uma espécie de superstição. Afinal, qual o sentido de que uma pessoa fique se aspergindo com um punhado de água? Não existe outra forma de ser abençoado por Deus, ao invés de ficar "atribuindo poderes mágicos" a seres inanimados?

A resposta católica para essa questão encontra-se no sadio equilíbrio da "economia sacramental". A Santa Igreja, no decorrer dos séculos, sempre ensinou aos seus filhos o apreço das coisas sensíveis, sob o risco de que se obscurecessem os próprios mistérios de nossa redenção. O Verbo, para descer ao mundo, não rejeitou "vir na carne" e tomar uma forma verdadeiramente humana (cf. 1 Jo 4, 2); não desprezou o matrimônio (cf. Mt 19, 3-9; Jo 2, 1-11), nem se furtou de tomar alimentos para conservação de seu corpo físico (cf. Mt 11, 19; Jo 21, 9-14); ao instituir os sacramentos, foi além e transformou realidades visíveis, como a água, o pão e o vinho, em verdadeiros instrumentos de salvação, de onde Ele dizer, por exemplo, que "se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus" (Jo 3, 5), ou mesmo: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" (Jo 6, 51. 53). O respeito dos católicos pelas coisas materiais, portanto, foi aprendido do próprio Jesus, o qual, para salvar o ser humano inteiro – corpo e alma –, quis sabiamente distribuir a Sua graça invisível através de instrumentos tangíveis e perceptíveis aos olhos humanos. "Oportet nos per aliqua sensibilia signa in spiritualia devenire – Convém que por sinais sensíveis cheguemos às realidades espirituais" (S. Th., III, q. 61, a. 4, ad 1), diz Santo Tomás de Aquino.

Para investigar como a água benta se insere nessa economia, é preciso entender como os sacramentos atuam na vida dos cristãos. Embora estes realizem o seu efeito, que é a graça, ex opere operato (ou seja, automaticamente), os fiéis colhem frutos na medida em que se dispõem interiormente para recebê-los. Assim, por exemplo, quem se arrepende de seus pecados e é absolvido pelo sacerdote na Confissão, certamente recebe a graça santificante; mas aquele que teve uma contrição maior receberá uma porção de graça também maior. Quem se aproxima dignamente da Eucaristia, do mesmo modo, certamente recebe a graça do Cristo, mas, quanto mais devotamente comungar, tanto maior será o seu grau de comunhão com Deus. 

Santo Antonio Maria Gianelli




Antônio Maria Gianelli nasceu em Cereta, na Itália, no dia 12 de abril de 1789, ano da Revolução Francesa. Sua família era de camponeses pobres e neste ambiente humilde aprendeu a caridade, o espírito de sacrifício, a capacidade de dividir com o próximo. Desde pequeno era muito assíduo à sua paróquia e foi educado no Seminário de Gênova. Aos vinte e três anos estava formado e ordenado sacerdote. Lecionou letras e retórica e sua primeira obra a impressionar o clero foi um recital, no qual defendia a nova postura na formação de futuros sacerdotes. Em 1827 criou uma pequena congregação missionária para sacerdotes, que colocou sob a proteção de Santo Afonso Maria de Ligório, destinada à aprimorar o apostolado da pregação ao povo e à organização do clero. Depois fundou uma congregação feminina, destinada a educação gratuita das meninas carentes. Era na verdade o embrião da Congregação religiosa que seria fundada em 1829, as "Filhas de Maria Santíssima do Horto". Em 1838 foi nomeado Bispo, reorganizando sua diocese. Punia os padres pouco zelosos e até mesmo expulsava os indignos. Morreu no dia 07 de junho de 1846, aos cinqüenta e sete anos. Na obra escrita que deixou expõem seu pensamento: a moralidade do clero na vida simples e reta de trabalho no seguimento de Cristo. 

Santo Antonio Maria Gianelli, fundador de duas congregações religiosas, intercedei junto a Deus para que dê aos nosso sacerdotes essa mesma fidelidade desde as mais pequeninas coisas para serem agradáveis a Deus e verdadeiros testemunhos para todos. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Desagregação familiar é plano de fundo do caso do estupro de jovem, diz Bispo


A desagregação familiar é um dos pontos que, na visão do Bispo da Diocese de Petrópolis (RJ), Dom Gregório Paixão, OSB, podem ser observados por trás do recente caso do estupro coletivo contra uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro. Segundo ele, a família, como fundamento da sociedade, deve ser resgatada.

“Olhando o plano de fundo dessa história, vemos uma desagregação familiar e uma total perda de valores humanos na sociedade”, expressou a ACI Digital.

“Em primeiro lugar – declarou o Bispo –, temos que olhar o fato pelo que aconteceu, uma violência. E foi cometido contra uma pessoa que era menor de idade”. O Prelado recordou ainda que no dia 31 de maio, o Senado brasileiro aprovou projeto de lei que prevê pena mais rigorosa para estupro cometido por duas ou mais pessoas, podendo totalizar 25 anos de prisão.

Por outro lado, ressaltou que é preciso “levar em consideração o que vemos por trás disso tudo”, o “plano de fundo dessa história”.

“Os homens que cometeram tal crime são pessoas que não têm valores religiosos, não têm formação familiar. A própria menina começou muito nova uma vida sexual ativa, estava envolvida naquele meio”, indicou.

De acordo com ele, “isso é uma mostra de uma sociedade em que os jovens vão muito cedo para bailes onde o ambiente não é adequado, que possuem uma formação familiar ruim”.

Papa: “O nosso povo perdoa muitos defeitos nos padres, exceto o de serem agarrados ao dinheiro”.




JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA

RETIRO ESPIRITUAL GUIADO PELO PAPA FRANCISCO
POR OCASIÃO DO JUBILEU DOS SACERDOTES

TERCEIRA MEDITAÇÃO
Basílica de São Paulo Extramuros - Quinta-feira, 2 de junho de 2016


Oxalá o Senhor nos conceda aquilo que acabamos de pedir-Lhe na oração: imitar o exemplo da paciência de Jesus e, com a paciência, superar as dificuldades.

Esta terceira meditação tem por título: «O bom odor de Cristo e a luz da sua misericórdia».

Neste terceiro encontro, proponho-vos meditar sobre as obras de misericórdia, quer debruçando-vos sobre uma delas – a que sentirmos mais relacionada com o nosso carisma – quer contemplando-as todas juntas, vendo-as com os olhos misericordiosos de Nossa Senhora, que nos fazem descobrir «o vinho que falta» e nos anima a «fazer tudo o que Jesus nos disser» (cf. Jo 2, 1-12), para que a sua misericórdia realize os milagres de que necessita o nosso povo.

As obras de misericórdia estão muito ligadas aos «sentidos espirituais». Rezando, peçamos a graça de «sentir e saborear» de tal modo o Evangelho que nos sensibilize para a vida. Movidos pelo Espírito, guiados por Jesus, podemos ver já de longe, com olhos de misericórdia, a pessoa que está caída ao lado da estrada, podemos ouvir os gritos de Bartimeu, podemos perceber como sente o Senhor na franja do seu manto o toque tímido mas decidido da hemorroíssa, podemos pedir a graça de saborear com Ele na cruz o gosto amargo do fel de todos os crucificados, para deste modo sentir o odor forte da miséria – em hospitais de campanha, em comboios e em barcaças repletas de pessoas –; odor que embora o óleo da misericórdia não cubra todavia, ao ungi-lo, faz com que se desperte uma esperança.

Ao falar das obras de misericórdia, o Catecismo da Igreja Católica conta que Santa Rosa de Lima, «no dia em que a sua mãe a repreendeu por manter em sua casa pobres e doentes, respondeu-lhe: “Quando servimos os pobres e os doentes, é a Jesus que servimos”» (n. 2449). Servindo-os, somos o bom odor de Cristo. Este bom odor de Cristo – o cuidado dos pobres – é distintivo da Igreja; sempre o foi. Foi aqui que Paulo centrou o seu encontro com «as colunas» – como lhes chama –, com Pedro, Tiago e João. «Só nos disseram que nos devíamos lembrar dos pobres» (Gl 2, 10). Isto recorda-me um facto, que já referi algumas vezes: logo que foi atingido o quórum para ser eleito Papa e enquanto continuavam o escrutínio, aproximou-se de mim um irmão Cardeal, abraçou-me e disse: «Não te esqueças dos pobres». A primeira mensagem que o Senhor me fez chegar naquele momento. E, sugestivamente, o Catecismo diz também que «os que se sentem acabrunhados pela miséria são objeto de um amor preferencial por parte da Igreja, que desde o princípio, apesar das falhas de muitos dos seus membros, nunca deixou de trabalhar por aliviá-los, defendê-los e libertá-los» (n. 2448). E isto sem ideologias, mas apenas com a força do Evangelho.

Na Igreja tivemos, e temos, tantas coisas não muito boas, e muitos pecados, mas nisto de servir os pobres com obras de misericórdia, como Igreja sempre seguimos o Espírito, tendo-o feito os nossos Santos de maneira muito criativa e eficaz. O amor pelos pobres é o sinal, a luz que faz com que as pessoas glorifiquem o Pai. É isto que o nosso povo aprecia no padre: se cuida dos pobres, dos doentes, se perdoa os pecadores, ensina e corrige com paciência... O nosso povo perdoa muitos defeitos nos padres, exceto o de serem agarrados ao dinheiro. O povo não o perdoa. E não é tanto pela riqueza em si, mas porque o dinheiro nos faz perder a riqueza da misericórdia. O nosso povo pressente os pecados que são graves para o pastor, que matam o seu ministério porque o transformam num funcionário ou, pior, num mercenário, e, diversamente, os pecados que são, não diria secundários – porque não sei se teologicamente se pode dizer isso –, mas possíveis de suportar, carregar como uma cruz, até que o Senhor finalmente os purifique, como fará com a cizânia. Ao contrário, o que atenta contra a misericórdia é uma contradição principal: atenta contra o dinamismo da salvação, contra Cristo que «Se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza» (cf. 2 Cor 8, 9). Sucede isto, porque a misericórdia cura à custa de «perder algo de si mesma»: um retalho do coração fica com o ferido, perdemos um momento da nossa vida quando o damos a outrem numa obra de misericórdia, em vez de o ocuparmos naquilo que nos apetecia fazer.

Por isso, não se trata de Deus ter misericórdia de mim numa falta ou noutra como se, no resto, eu fosse autossuficiente, nem se trata de realizar, de vez em quando, algum ato especial de misericórdia com uma pessoa necessitada. A graça que pedimos, nesta oração, é a de nos deixarmos «misericordiar» por Deus em todos os aspetos da nossa vida e sermos misericordiosos com os outros em toda a nossa atividade. Para nós, padres e bispos, que trabalhamos com os Sacramentos batizando, confessando, celebrando a Eucaristia... a misericórdia é o modo de transformar toda a vida do povo de Deus em sacramento. Ser misericordioso não é apenas um «modo de ser», mas «o modo de ser». Não há outra possibilidade de ser sacerdote. O Cura Brochero dizia: «O sacerdote que não sente muita compaixão pelos pecadores, é um meio-sacerdote. O que me faz sacerdote não são estes trapos abençoados de que estou revestido; se não levo no meu peito a caridade, nem a cristão chego».

Ver o que falta para lhe pôr imediatamente remédio, e melhor ainda prevê-lo, é próprio do olhar dum pai. Este olhar sacerdotal – daquele que faz as vezes do pai no seio da Igreja Mãe –, que nos leva a ver as pessoas na ótica da misericórdia, é o que se deve ensinar e cultivar desde o Seminário e deve alimentar todos os planos pastorais. Desejemos e peçamos ao Senhor um olhar que aprenda a discernir os sinais dos tempos na perspetiva das obras de misericórdia de que hoje têm necessidade os nossos povos, para poderem sentir e saborear o Deus da história que caminha no meio deles. Porque, como diz o Documento de Aparecida citando Santo Alberto Hurtado: «Pelas nossas obras, o nosso povo sabe se compreendemos a sua dor» (n. 386).

A prova desta compreensão do nosso povo é que, nas nossas obras de misericórdia, sempre somos abençoados por Deus e encontramos ajuda e colaboração no nosso povo. Não se verifica o mesmo com outro género de projetos, que umas vezes avançam e outras não, e alguns não se dão conta do motivo por que não funcionam e cansam a cabeça à procura de mais um novo plano pastoral, quando se poderia dizer simplesmente: não funciona porque lhe falta misericórdia, sem necessidade de entrar em detalhes. Se não é abençoado, é porque lhe falta misericórdia. Falta aquela misericórdia que tem a ver mais com um hospital de campanha do que com uma clínica de luxo; aquela misericórdia que, apreciando algo de bom, prepara o terreno para um futuro encontro da pessoa com Deus, em vez de a afastar com uma crítica patente...

Proponho-vos uma oração com a pecadora perdoada (cf. Jo 8, 3-11), para pedir a graça de ser misericordiosos na Confissão, e outra sobre a dimensão social das obras de misericórdia.

Sempre me comove o episódio do Senhor com a mulher adúltera, ao pensar que, não a condenando, o Senhor «faltou» à lei; naquele preciso momento em que Lhe pediam para Se pronunciar – «devemos apedrejá-la ou não?» – não Se pronunciou, não aplicou a lei. Fez-Se despercebido – também nisto, o Senhor é um mestre para todos nós – e, naquele momento, saiu-lhes com outra coisa. Assim começou um processo no coração da mulher, que tinha necessidade destas palavras: «Nem Eu te condeno». Estendendo-lhe a mão, levantou-a; isto permitiu-lhe encontrar-se com um olhar cheio de doçura, que mudou o seu coração. O Senhor estende a mão à filha de Jairo: «Dai-lhe de comer». Ao rapaz morto, em Naim: «Levanta-te» e dá-o à sua mãe. E a esta pecadora: «Levanta-te». O Senhor repõe-nos precisamente como Deus quis que esteja o homem: de pé, erguido, jamais por terra. Às vezes sinto um misto de pena e indignação, quando alguém se apressa a evidenciar a última recomendação: «não peques mais»; e usa esta frase para «defender» Jesus, para que não apareça como alguém que saltou por cima da lei. Penso que as palavras usadas pelo Senhor formam um todo com as suas ações. O facto de Se inclinar a escrever no chão por duas vezes, criando uma pausa antes do que disse a quantos queriam apedrejar a mulher e, em seguida, antes daquilo que disse a ela, aponta para um tempo que o Senhor Se reserva antes de julgar e perdoar; um tempo que remete cada um para a sua interioridade e faz com que aqueles que julgam se retirem.

No seu diálogo com a mulher, o Senhor abre outros espaços: um é o espaço da não condenação. O Evangelho insiste neste espaço que ficou livre. Situa-nos na perspetiva de Jesus e diz-nos que «em redor não vê ninguém, a não ser a mulher». E, em seguida, o próprio Jesus faz a mulher olhar ao seu redor, com esta pergunta: «Onde estão os que te classificavam (palavra importante, porque fala de algo que decididamente rejeitamos, ou seja, que nos rotulem ou caricaturem)»? Depois de a fazer olhar aquele espaço livre do juízo alheio, diz-lhe que nem Ele o invade com as suas pedras: «Nem Eu te condeno». E, naquele preciso momento, abre-lhe outro espaço livre: «Doravante não peques mais». O mandamento é dado para o futuro, para ajudar a caminhar, para «caminhar no amor». Esta é a delicadeza da misericórdia, que olha com piedade o passado e encoraja para o futuro. Este «não peques mais» não é uma coisa óbvia. O Senhor di-lo «juntamente com ela», ajuda-a a expressar em palavras o que ela própria sente: um «não» dito livremente ao pecado, que é como o «sim» de Maria à graça. O «não» deve ser dito em relação à raiz do pecado de cada um. Na mulher, tratava-se dum pecado social, do pecado duma pessoa de quem outros se aproximavam ou para dormir com ela ou para a apedrejar. Não havia outro tipo de aproximação àquela mulher. Por isso o Senhor não só lhe desimpede o caminho, mas põe-na a caminhar, para que deixe de ser «objeto» do olhar alheio e passe a ser protagonista. O «não pecar» não se refere apenas ao aspeto moral – creio eu –, mas a um tipo de pecado que a impede de realizar a sua vida. Ao paralítico da piscina de Betzatá, Jesus também lhe diz «não peques mais» (Jo 5, 14); mas a este – que se justificava com as coisas tristes que lhe aconteciam, que tinha uma psicologia de vítima (a mulher, não!) – espicaça-o um pouco com as palavras «para que não te aconteça coisa ainda pior». O Senhor aproveita a maneira de pensar dele, aquilo que teme, para fazê-lo sair da sua paralisia. Digamos que o estimula com o susto. Assim, cada um tem que ouvir este «não peques mais» de forma íntima e pessoal.

Esta imagem do Senhor que põe as pessoas a caminhar é muito apropriada: Ele é o Deus que Se põe a caminho com o seu povo, que faz avançar e acompanha a nossa história. Por isso, o objeto que visa a misericórdia é muito concreto: tem em vista aquilo que impede um homem ou uma mulher de caminharem no seu lugar, com os seus queridos, ao seu ritmo, para a meta aonde Deus os convida. O que faz pena, o que comove é que uma pessoa se perca, ou que fique para trás, ou que erre por presunção. Que esteja – digamos – fora do seu lugar; que não esteja à disposição do Senhor, disponível para a tarefa que Ele quiser confiar-lhe; que uma pessoa não caminhe humildemente na presença do Senhor (cf. Miq 6, 8), que não caminhe na caridade (cf. Ef 5, 2).

“O melhor confessor é aquele que geralmente se confessa melhor”, diz Papa.


JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA

RETIRO ESPIRITUAL GUIADO PELO PAPA FRANCISCO
POR OCASIÃO DO JUBILEU DOS SACERDOTES

SEGUNDA MEDITAÇÃO
Basílica de Santa Maria Maior - Quinta-feira, 2 de junho de 2016

Segunda Meditação: O recetáculo da Misericórdia

Depois de termos rezado sobre aquela «dignidade envergonhada» e «vergonha dignificada», que é o fruto da misericórdia, prosseguimos com esta meditação sobre o «recetáculo da Misericórdia». É simples. Poderia dizer uma frase e ir-me embora, porque é um só: o recetáculo da Misericórdia é o nosso pecado. É tão simples. Mas muitas vezes acontece que o nosso pecado é como um coador, como um cântaro furado por onde se perde a graça em pouco tempo: «Porque o meu povo cometeu um duplo crime: abandonou-me a Mim, nascente de águas vivas, e construiu cisternas para si, cisternas rotas, que não podem reter as águas» (Jr 2, 13). Daí a necessidade que o Senhor lembra explicitamente a Pedro de «perdoar setenta vezes sete». Deus não Se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir perdão. Deus não se cansa de perdoar, mesmo quando vê que a sua graça parece não conseguir criar raízes fortes no terreno do nosso coração, que é caminho duro, agreste e pedregoso. Por uma razão muito simples: Deus não é pelagiano e, por isso, não se cansa de perdoar. Volta a semear a sua misericórdia e o seu perdão: volta uma vez, outra e outra… setenta vezes sete.


Podemos, porém, dar mais um passo nesta misericórdia de Deus, que é sempre «maior que a nossa consciência» de pecado, e reconhecer não apenas que o Senhor não se cansa de perdoar, mas também que renova o odre em que recebemos o seu perdão. Usa um odre novo para o vinho novo da sua misericórdia, para que não seja como um vestido remendado ou um odre velho. E aquele odre é a sua própria misericórdia: a sua misericórdia experimentada em nós mesmos e posta em prática por nós ajudando os outros. O coração «misericordiado» não é um coração remendado, mas um coração novo, recriado; aquele coração de que fala David: «Cria em mim, ó Deus, um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito» (Sal 50, 12). Este coração novo, recriado, é um bom recipiente. A liturgia expressa a alma da Igreja, quando nos faz dizer esta oração encantadora: «Senhor nosso Deus, que de modo admirável criastes o homem e de modo mais admirável o redimistes» (Oração na Vigília Pascal, depois da Primeira Leitura). Por conseguinte, esta segunda criação é ainda mais admirável do que a primeira. É um coração que se reconhece recriado graças à fusão da sua miséria com o perdão de Deus e, por isso, é um coração «misericordiado» e misericordioso. Ou seja, experimenta os benefícios que a graça opera sobre a sua ferida e o seu pecado, sente que a misericórdia pacifica a sua culpa, inunda de amor a sua aridez, reacende a sua esperança. Por isso quando, ao mesmo tempo e com a mesma graça, perdoa a quem tem qualquer dívida para com ele e se compadece dos que também são pecadores, esta misericórdia lança raízes numa terra boa, onde a água não se perde mas dá vida. No exercício desta misericórdia que repara o mal alheio, não há ninguém melhor para ajudar a curá-lo do que a pessoa que possui viva a sensação de ter sido «misericordiada» do mesmo mal. Olha para ti mesmo, repassa a tua história; conta a ti mesmo a tua história; e nela encontrarás tanta misericórdia. Vemos como, entre aqueles que trabalham com viciados, as pessoas que melhor compreendem, ajudam e sabem exigir dos outros são habitualmente aquelas que foram resgatadas. E o melhor confessor costuma ser o que melhor se confessa. E podemos questionar-nos: como me confesso? Quase todos os grandes Santos foram grandes pecadores ou, como Santa Teresinha, estavam cientes de que se devia a pura graça preveniente o facto de não o serem.

Assim, o verdadeiro recipiente da misericórdia é a própria misericórdia que cada um recebeu e lhe recriou o coração, que é o «odre novo» de que fala Jesus (cf. Lc 5, 37), o «poço sanado».

Encontramo-nos assim no âmbito do mistério do Filho, de Jesus, que é a misericórdia do Pai feita carne. Através das chagas do Senhor ressuscitado, individuamos a imagem definitiva do recetáculo da misericórdia: uma imagem dos vestígios do pecado cancelado por Deus, que não se apaga totalmente nem supura (são cicatrizes, não feridas purulentas). As chagas do Senhor. São Bernardo tem dois sermões estupendos sobre as chagas do Senhor. Lá, nas cicatrizes do Senhor, encontramos a misericórdia. Com desassombro, diz São Bernardo: Sentes-te perdido? Sentes-te mal? Entra lá, entra nas chagas do Senhor e lá encontrarás misericórdia. Na «sensibilidade» própria das cicatrizes, que nos lembram a ferida sem doer muito e a cura sem nos esquecermos da fragilidade, lá tem a sua sede a misericórdia divina: nas nossas cicatrizes. As chagas do Senhor, que permanecem ainda agora, levou-as consigo: o corpo belíssimo, as pisaduras não existem, mas as chagas quis levá-las consigo. E as nossas cicatrizes. Acontece a todos nós, quando vamos a uma visita médica e temos qualquer cicatriz, ouvir o médico perguntar-nos: «Por que motivo foi esta intervenção?» Olhemos as cicatrizes da alma: esta intervenção que o Senhor fez, com a sua misericórdia nos curou… Na sensibilidade de Cristo ressuscitado que conserva as suas chagas não só nos pés e nas mãos mas também no próprio coração, que é um coração chagado, encontramos o justo sentido do pecado e da graça. Lá, no coração chagado. Ao contemplar o coração chagado do Senhor, espelhamo-nos nele. O nosso coração e o d’Ele assemelham-se no facto que os dois estão chagados e ressuscitados. Mas sabemos que o seu era puro amor, e ficou chagado porque aceitou tornar-se vulnerável; enquanto o nosso era pura chaga, que ficou curada porque aceitou ser amada. Nesta aceitação, forma-se o recetáculo da Misericórdia.