quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Toda autoridade na terra é permitida por Deus


15 Cristo é a imagem do Deus invisível. Ele existe antes de Deus ter criado todas as coisas e está acima de toda a criação 16 Na verdade, foi através dele que Deus criou tudo o que há nos céus e sobre a Terra, até os governantes, as autoridades, os que têm o poder e a força, tanto no mundo espiritual como no terreno. Tudo isso foi estabelecido por Cristo, e para Cristo. ( Col. 1, 15-16)

10 Não queres dizer nada?, insistiu Pilatos. Não compreendes que tenho poder para te soltar ou para te crucificar? 11 Jesus disse: Não terias poder nenhum sobre mim se não te tivesse sido dado do alto. Por isso ainda maior é o pecado de quem me trouxe aqui. ( João 19, 10-11)

Num mundo onde o secularismo impera e portanto,  a crença na existência de um Deus soberano é sistematicamente removida da vida quotidiana pelos meios de comunicação e aqueles em posição de poder, num mundo onde a implementação de leis ofensivas ao Criador e àqueles que ainda acreditam em Deus tornou-se lugar comum, como acreditar no homem e ter esperança para o futuro? A sociedade de hoje  promove o desapego à tudo que diz respeito à Lei Moral e fomenta o relativismo  em âmbito da existência humana.   Assim, como sustentar a confiança nos políticos, na bondade e justiça humana, no ser-humano em geral, quando a própria bíblia diz-nos que para depositarmos nossa confiança em Deus?

Eis o que diz o Senhor: Maldito o homem que confia em outro homem, que da carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do Senhor! (Jeremias 17,5)

Cessai de confiar no homem, cuja vida se prende a um fôlego: como se pode estimá-lo? (Isaías 2,22)

5.Não confies em colega, não contes com amigos, nem mesmo com aquele que dorme contigo. Guarda-te de abrir a boca 6. Porque o filho trata seu pai de louco, a filha levanta-se contra sua mãe, a nora contra sua sogra; e os inimigos são os da própria casa.7. Eu, porém, volto meus olhos para o Senhor, ponho minha esperança no Deus de minha salvação; meu Deus me ouvirá.  (Miquéias 7, 5)

Em primeiro lugar, devemos tomar cuidado em discernir o que a Bíblia realmente quer dizer como confiança em Deus e confiança no homem.  Como sempre, devemos nos alertar ao sentido escatológico das palavras das Escrituras, que via de regra, tratam de questões concernentes ao mundo espiritual, à Salvação da alma, em detrimento  à vida terrena e necessidades materiais do mundo temporal.

Nesse sentido, é bom lembrar que a Bíblia nos afirma que o Céu e a Terra passarão, mas a Palavra de Deus não passará, pois o Verbo de Deus é eterno e é o mesmo de sempre (Cf. Marcos 13,31). Assim, o que ha dois mil anos atrás era reto para Deus continua a ser justo no tempo presente e nos anos e séculos que virão. Do mesmo modo, o que ofende à Deus hoje, ofenderá-o no futuro e no passado.

Confiar em Deus é saber que Dele provém tudo o que é bom e justo e que Ele não muda. É reconhecer para si mesmo que somos incapazes de fazer algo bom sem a ajuda da graça de Deus pelo Espírito Santo, que incita nossos corações – mesmo os corações daqueles que alegam não acreditar em Deus – Confiar em Deus é saber que somente Nele temos nosso refúgio, pois somente Ele é fiel em Suas promessas. Deus, diferentemente do homem, não muda de opinião com o passar dos anos ou de acordo com as circunstâncias, algo impensável quando se trata do ser humano.

Mais adiante, temos que reconhecer e acreditar que o que para o homem é impossível, para Deus é possível (Cf. Mateus 19,26). Assim, quando se trata da nossa salvação e em toda circunstância da vida, temos que apreciar uma verdade imutável: Deus é nossa única esperança, a Rocha de nossa Salvação.  Essa é a confiança da qual a Bíblia trata. Não uma mera questão de acreditar em alguém ou não. Mas um saber íntimo de que com Deus, não nos falta nada (cf. Salmo 91).

Paróquia é condenada por danos morais após padre expulsar criança da missa de primeira comunhão


Processo que envolve a Igreja Católica e uma criança tem decisão inédita pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE). A 3ª Câmara de Direito Privado do órgão condenou a Paróquia dePereiro, distante 334 Km de Fortaleza,  a pagar R$ 10,8 mil de indenização danos morais para menino que foi xingado e expulso da congregação durante celebração da primeira comunhão.

O caso, julgado na quarta-feira (26), teve relatoria da desembargadora Maria Vilauba Fausto Lopes. Para a magistrada, “restou plenamente comprovado que o abuso de autoridade do pároco causou, além de dor, constrangimento e amargura, graves sequelas psicológicas na criança, impedindo, inclusive, a sua primeira eucaristia”.

De acordo com os autos, em 10 de setembro de 2010, o menino, acompanhado da mãe, se encontrava na Igreja para a realização de sua primeira comunhão. A criança narrou que, pelo fato de estar conversando com seus colegas, foi advertido pelo padre para ficar em silêncio. Por não ter obedecido, foi xingado e puxado pela orelha, pelo sacerdote, que o colocou para fora da igreja, ocasião em que bateu a cabeça contra a porta.

Afirmou que, logo após ter sido expulso, o pároco o chamou de “macaco mutante”, debochando de seu sorriso, em frente a todos os presentes. Também sustentou ter sofrido abalos psicológicos, e que por isso não quis mais ir à escola ou a quaisquer lugares públicos. Por essa razão, representado pela sua mãe, ingressou com ação requerendo indenização por danos morais.

Na contestação, a paróquia alegou que o padre é homem de bem e que de maneira sutil e em tom de brincadeira, no intuito de educar a criança, a conduziu para fora da igreja, no intuito de servir de reprimenda para que aprendesse a respeitar os cultos religiosos. Afirmou que o sacerdote não teria praticado nenhum ato discriminatório contra a vítima, pois é de sua índole proteger os injustiçados, sobretudo em se tratando de menores, motivo suficiente à improcedência do pedido. 

O símbolo da fé


Na instrução e profissão da tua fé, abraça e conserva sempre só aquela que a Igreja agora te entrega e que é fundamentada em toda a Escritura. Nem todos podem ler a Escritura, uns porque não sabem e outros porque estão demasiadamente ocupados. Por isso, a fim de que ninguém pereça por causa da ignorância, resumimos todo o dogma da fé nos poucos versículos do Símbolo. 

Aconselho-te a levar esta fé como viático ao longo de toda a tua vida. Não admitas outra, mesmo que nós, mudando de ideias, viéssemos a ensinar o contrário do que ensinamos agora, ou o anjo inimigo, disfarçado em anjo de luz, tentasse seduzir-te para o erro. Mesmo que nós ou um anjo do céu vos anunciasse um evangelho diferente daquele que agora recebestes, seja anátema. 

Conserva em tua memória estas palavras tão simples que ouves agora, e a seu tempo buscarás na Escritura o fundamento de cada um dos artigos. Este símbolo da fé não foi composto segundo o parecer dos homens; as verdades que ele contém foram seleccionadas entre os pontos mais importantes de toda a Escritura e resumem toda a doutrina da fé. E assim como a semente da mostarda, apesar de ser um grão tão pequeno, contém em gérmen muitos ramos, também o símbolo da fé condensa em breves palavras o núcleo de toda a revelação contida tanto no Antigo como no Novo Testamento. 

Portanto, irmãos, conservai cuidadosamente a tradição que agora recebeis e gravai-a profundamente em vossos corações. 

Estai atentos e vigilantes, para que o inimigo não vos encontre desprevenidos e indolentes e vos arrebate este tesouro, ou algum herege venha a corromper o que vos foi ensinado. Receber a fé é como pôr no banco o dinheiro que vos entregamos. Deus vos pedirá contas deste depósito. Diz o Apóstolo: Ordeno-vos na presença de Deus, que dá vida a todas as coi- sas, e de Jesus Cristo, que deu testemunho diante de Pôncio Pilatos, que guardeis sem mancha até à aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo a fé que recebestes. 

Foi-te confiado agora o tesouro da vida, mas o Senhor te pedirá contas deste seu depósito no dia da sua aparição, a qual manifestará a seu tempo o venturoso e único soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade e habita uma luz inacessível, que nenhum homem viu nem pode ver. A Ele a glória, a honra e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.


Das Catequeses de São Cirilo de Jerusalém, bispo

(Cat. 5, De fide et symbolo, 12-13: PG 33, 519-523) (Sec. IV)

Pentateuco: Livro do Gênesis


Ao primeiro livro da Bíblia – e, portanto, do Pentateuco – damos hoje o nome de GÊNESIS. É termo grego e significa “origem”, “nascimento”. Os livros da Bíblia Hebraica não tinham qualquer título. Eram chamados, simplesmente, pela primeira ou primeiras palavras. Este chamava-se berechit. Os autores da tradução da Bíblia Hebraica para o grego (Bíblia dos Setenta) acharam por bem dar aos livros um título de acordo com o seu conteúdo. Como este livro trata do princípio de tudo, chamaram-lhe GÊNESIS, isto é, Livro das Origens.

CONTEÚDO E ESTRUTURA

Todos os povos se perguntaram alguma vez: Donde viemos? Qual foi a nossa origem? Quem foi o fundador do nosso povo? Qual o nosso destino? Umas vezes, essas perguntas eram formuladas a partir de situações de desgraça colectiva: Que sentido tem o nosso fracasso e o nosso sofrimento? Que sentido tem a morte irremediável? Há um Alguém que possa responder a todas as interrogações do homem? Outras vezes, tinham um fundo político, pretendendo legitimar situações de privilégio presente ou reclamar direitos fundados num passado mais ou menos remoto.

O povo de Israel, na sua reflexão interna ou no confronto com outros povos, religiões e culturas, colocou a si próprio estas e outras questões semelhantes e deixou-nos as suas respostas neste livro. O GÊNESIS é, pois, o livro das grandes interrogações e das grandes respostas, não só do povo de Deus, mas de toda a humanidade. Por isso se diz que este livro é uma espécie de grande pórtico da catedral da Bíblia, pois de algum modo a resume na totalidade da sua beleza e conteúdo.

O GÊNESIS engloba, também, grande parte da História do povo de Israel: desde “as origens” até à estadia de Jacob no Egipto e a consequente formação das doze tribos. Pretendendo dar-nos uma concepção histórica, horizontal e dinâmica da História da Salvação, este livro faz a ligação entre “as origens” da humanidade (1,1) e a História concreta do povo de Israel. Por isso apresenta--nos, sobretudo nos 11 primeiros capítulos, teologia e catequese em forma de História, ou melhor, de histórias e não de factos históricos no sentido científico. Poderíamos resumir assim o seu conteúdo:

São Martinho de Lima (Porres)


Martinho de Lima conviveu com a injustiça social desde seu nascimento no dia 09 de dezembro de 1579. Filho de um cavaleiro espanhol e de uma ex-escrava negra, o menino foi rejeitado pelo pai e pelos parentes, por ser negro. Tanto que, na sua certidão de batismo constou "pai ignorado". 

Aos oito anos de idade, Martinho se tornou aprendiz de barbeiro-cirurgião, mas a vocação religiosa lhe falou mais alto. Entretanto pelo fato de ser negro demorou ser aceito no seminário. Só a muito custo conseguiu entrar como oblato num convento dos dominicanos. 

Encarregava-se dos mais humildes trabalhos do convento e era barbeiro e enfermeiro dos seus irmãos de hábito. Conhecedor profundo de ervas e remédios, devido à aprendizagem que tivera, socorria todos os doentes pobres da região, principalmente os negros como ele. Segundo a tradição Martinho recebeu muitos dons, como a dom da cura e o dom de estar em vários lugares ao mesmo tempo. 

Morreu aos sessenta anos, no dia 03 de novembro de 1639, após contrair uma grave febre. Porém, o padre negro dos milagres, como era chamado pelo povo pobre, deixou sua marca e semente, além da vida inteira dedicada aos desamparados. Com as esmolas recebidas fundou em Lima, um colégio só para o ensino das crianças pobres, o primeiro do Novo Mundo.


Ó Senhor Deus, que exaltais os humildes e em sua pequenez deixais brilhar Vossa grandeza e Vosso poder, fazei que, pela intercessão de São Martinho, possam os enfermos e os moribundos alcançar a saúde e o consolo, e que o testemunho de sua fé e de seu amor por Vós ilumine o último dia de nossa vida. Amém.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Papa: "A esperança da ressurreição não decepciona".


MISSA EM COMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS

HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO
Prima Porta cemitério
quarta-feira, novembro 2, 2016


Jó foi no escuro. Foi à direita na porta da morte. E nesse momento de angústia, dor e sofrimento, Jó proclama a esperança. "Eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra! ... Vou ver por mim mesmo, os meus olhos, e não outros "( 19,25.27). Os comemoração de finados tem esse duplo significado. Um sentimento de tristeza: um cemitério é triste, lembra-nos dos nossos entes queridos que já se foram, também nos lembra do futuro, a morte; mas essa tristeza, trazemos flores como um sinal de esperança, também, posso dizer, de celebração, mas mais tarde, não agora. E a tristeza é misturada com a esperança. E é isso que todos nós sentimos hoje, nesta celebração: a memória de nossos entes queridos, na frente de seus despojos, e esperança.

Mas também sentimos que essa esperança nos ajuda, porque temos que fazer esta viagem. Todos vão fazer esta viagem. Antes ou depois, mas todos. Com dor, mais ou menos dor, mas todos. Mas a flor da esperança, com esse forte fio que está ancorado além. Aqui, essa âncora não decepciona: a esperança da ressurreição. 

Pedagogia Litúrgica para o mês de Novembro de 2016: "Liturgia e vigilância".


A Liturgia inicia o mês de Novembro propondo as realidades últimas; aquelas que ainda não conhecemos plenamente, mas que sabemos existir por terem sido reveladas por Jesus Cristo. É uma proposta, da parte da Liturgia, feita com serenidade, em clima de reflexão e de oração, convidando cada celebrante a cultivar em sua vida a vigilância.

A vigilância é uma virtude cristã que nos deixa sempre preparados para o encontro do Senhor. Não nos deixa prevenidos, mas preparados, como ensina Jesus na parábola das virgens prudentes (Mt 25,1-3). Nos dias e nos anos que bondosamente recebemos de Deus para viver, corremos o risco da distração devido aos muitos apelos, nem todos saudáveis, capazes de comprometer a espiritualidade de um discípulo e discípula de Jesus. Por isso, a importância da vigilância na vida cristã. É cultivando a virtude da vigilância que fortalecemos a fé, a confiança e a esperança na vida futura. Neste sentido, o cristão crê que a morte não é a última palavra para quem coloca sua vida nas mãos de Deus, para quem vive no temor de Deus todos os momentos da sua vida. A virtude da vigilância, na celebração dos Fiéis Defuntos, tem a função de acender a esperança nos celebrantes, incentivando-os a superar todas as adversidades da peregrinação existencial, especialmente o medo da morte. A esperança, neste caso, aparece com uma promessa concreta: Jesus promete que preparou um lugar para cada um de nós. Viver na vigilância, portanto, para não perder o lugar que Jesus preparou para cada um de nós.

Além de relacionar vigilância cristã com o viver preparado para o encontro com o Senhor, a virtude da vigilância, presente na Liturgia, tem a ver com a busca da santidade. É pela vigilância cristã que o desejo da santidade vive em nós como um incentivo perene para não nos perder nos atrativos do mundo. Ser santo é viver é Deus e, para isso, a necessidade de jamais se deixar contaminar pelas propostas mundanistas, como celebrado na comemoração de “Todos os Santos Santas”. É buscando a santidade para nossas vidas que nos deparamos com o apelo mais forte em favor da vigilância, na Liturgia: tudo passa, tudo passará, somente Deus permanece. Buscar a santidade de modo vigilante, não se distraindo e, principalmente, não se envolvendo com os atrativos do mundo.

É com este espírito e neste clima que a Liturgia celebra seus últimos Domingos do Tempo Comum. Um clima com a finalidade de abrir os olhos dos celebrantes para viver na vigilância, porque nada do que existe no mundo continuará para sempre. Assim, a Palavra do 33DTC-C incentiva o fortalecimento da esperança no Senhor. Ora, isto acontece pelo cultivo da vigilância, prontos para não ceder aos apelos do mundo. Um apelo que une vigilância e perseverança na fé. Um apelo que se relaciona a outra virtude, sempre necessitada para nossas vidas: o discernimento. Sem o discernimento, a vigilância nos torna reprimidos e prisioneiros de medos.  

Homilética: 32º Domingo do Tempo Comum - Ano C: “Creio na ressurreição da carne!”


Hoje somos convidados, pela Palavra de Deus, a aprofundar a nossa fé na ressurreição dos mortos. Trata-se de uma das verdades fundamentais, enunciadas no Credo e que repetimos muitas vezes: “Creio na ressurreição da carne”.

O texto bíblico de 2Mc 7, 1-2. 9-14 fala-nos dos sete irmãos Macabeus que, junto com a mãe, preferiram a morte a transgredir a Lei do Senhor. Enquanto eram torturados, confessaram, com firmeza, a sua fé numa vida além da morte: “Prefiro ser morto pelos homens, tendo em vista a esperança dada por Deus, que um dia nos ressuscitará” (2Mc 7,14).

A nossa Ressurreição, como a de Cristo, será obra da Santíssima Trindade (cf. Cat. 989). Logo após a morte do ser humano há o juízo particular (cf. Hb 9,27) e ele experimenta céu (ou purgatório com preparação para o céu) ou inferno em sua alma, não em seu corpo, que fica enterrado e com o tempo chegará à completa putrefação. Contudo, a fé cristã professa que ressuscitaremos com os nossos corpos (cf. 1 Cor 15,12-14.20; Cat. 990). Além disso, a valorização de uma antropologia realista também nos leva a ver a conveniência dessa doutrina: Deus criou o homem inteiro, corpo e alma. Por que negar ao corpo os bens eternos que a alma desfruta?

Em 2 Mac 7,1-2.9-14 se vê claramente a confiança na ressurreição; além disso se pode observar (2 Mac 7,9.14) que há uma ressurreição para a vida (céu) e outra para a morte (inferno). Nos tempos de Cristo havia judeus que acreditavam na ressurreição (fariseus) e outros que não acreditavam (saduceus). No texto de Lc 20,27-38, a questão é a ressurreição. De fato, começa falando do grupo religioso judeu que negava a ressurreição: “alguns saduceus – que negam a ressurreição, aproximaram-se de Jesus” (Lc 20,27).

Ao interpretar a Sagrada Escritura em favor de sua falta de fé na ressurreição, Jesus diz que eles estavam errados (cf. Mc 12,24). Deus que fez o homem do nada pode muito bem ressuscitá-lo a partir daquilo que ele já foi. São Paulo fala de um “corpo espiritual” (1 Cor 15,44): é o mesmo corpo do sujeito em questão, mas transfigurado, em sua máxima vivificação graças ao Espírito Santo.

No século II, Santo Ireneu afirmava que a doutrina da ressurreição dos mortos faz parte da fé apostólica (Adversus haereses, III, 12, 3). Orígenes nos dá notícia de que no século III, a ressurreição dos mortos era ridicularizada pelos os infiéis (Contra Celsum, I, 7). Santo Agostinho, no século V, afirmava que em seu tempo essa doutrina era a que mais recebia oposição.

A objeção é antiga. Porfírio, homem do século II, formulou-a da seguinte maneira: “como ressuscitará um indivíduo que perece no mar e que é comido pelos peixes, cujas partículas ficam dispersas através da cadeia alimentar: os pescadores comem os peixes e os homens são devorados pelos cachorros, e estes são comidos pelas aves?”

Atenágoras de Atenas, apologista cristão do século II, fez eco dessa objeção para depois combatê-la: o poder de Deus pode “distinguir e reunir em suas próprias partes e membros aquele que, despedaçado, foi parar numa multidão de animais de toda espécie, que costumam atacar tais corpos e saciar-se deles, tenham ido parar em só desses animais ou em muitos, e destes em outros e, dissolvido juntamente com eles, tenha voltado, conforme a natural dissolução, aos primeiros princípios. Parece ser isso o que mais perturba alguns, entre aqueles cuja sabedoria é admirável; não sei por que consideram tão grandes as dificuldades correntes entre o vulgo” (Sobre a ressurreição dos mortos, I, 3).

No Evangelho ( Lc 20, 27-38), lemos que se aproximaram de Jesus alguns saduceus que negavam a ressurreição e queriam colocá-Lo em uma situação embaraçosa. Segundo a lei do levirato (Dt 25, 5-10), o cunhado devia casar-se com a viúva para dar um filho ao irmão falecido, para não morrer seu nome. Eram sete irmãos, todos se casaram com ela e morreram sem deixar filho. Morre também a mulher. De quem ela vai ser esposa no céu?

A resposta de Jesus é extraordinária; sem fugir do terreno escolhido pelos adversários que era a Lei Mosaica, com poucas palavras, Ele primeiro mostra onde está o erro dos saduceus e o corrige, depois dá à fé na Ressurreição a sua fundamentação mais profunda e mais convincente. Compreende-se a exclamação de admiração que sai da boca de alguns dos presentes: “Mestre, falaste bem!”.

Jesus, como se vê, põe uma alternativa radical: ou fé na Ressurreição dos mortos ou ateísmo! As duas coisas ou ficam em pé ou caem juntas; não se pode crer em um Deus que colocou em movimento céu e terra para o homem, que para ele sonhou uma grandiosa história de salvação, se depois o próprio homem fosse destinado a acabar no pó da sepultura. Deus acabaria, no fim, reinando sobre um imenso cemitério; seria um Deus dos mortos e, por conseguinte, um Deus morto ele mesmo. Toda a vida não passaria de uma brincadeira cruel, um fazer-nos entrever e desejar a luz, a alegria, a vida, mas só para nos dizer que não são feitas para nós. Basta formular um pensamento desta natureza para ver-lhe o absurdo e afastar-se dele com horror. Uma vez que se acreditou em Deus, precisa-se de maior esforço para não crer na ressurreição dos mortos do que para crer nela. Compreende-se por que Jesus concluiu sua discussão com os saduceus com uma inusitada força e quase com desprezo: “estais muito errados” ( Mc 12,27 ).

Nós, cristãos, professamos no Credo a nossa esperança na ressurreição do corpo e na vida eterna. Este artigo da fé expressa o termo e o fim do designo de Deus sobre o homem. Se não existe ressurreição, todo o edifício da fé desaba, como afirma S. Paulo (1 Cor 15 ).