Antes de meditar sobre a importância das Sagradas Escrituras para a nossa vida espiritual, é importante assinalar qual o seu lugar na vida da própria Igreja.
Santo Agostinho recorda que a missão dos bispos, que pastoreiam o rebanho de Cristo, é meditar a Palavra de Deus e ensiná-la ao povo. Para tanto, é importante que eles se debrucem sobre as Sagradas Escrituras, alimentando-se primeiramente a si mesmos, já que “verbi Dei enim inanis est forinsecus praedicator, qui non est intus auditor – em vão prega a Palavra de Deus exteriormente quem não a escuta interiormente” [1].
São João Crisóstomo, em sua obra sobre o sacerdócio, indicando o que a Igreja deve fazer em tempos de crise, escreve:
“Ou, por acaso, não sabes que este Corpo (Místico de Cristo) está exposto a maior número de doenças e perigos do que a nossa carne mortal; que ele mais fácil e rapidamente se corrompe e mais lentamente sara? Para o nosso corpo carnal os médicos já inventaram vários remédios, confeccionaram diversos instrumentos e prepararam alimentos salutares para os doentes. Muitas vezes até basta mudança de ar para recuperar a saúde. Acontece até que só um sono profundo dispensa maiores cuidados do médico. Aqui, porém, não se pode empregar nada disso; aqui, fora o bom exemplo, existe um único meio e um único caminho, isto é o aconselhamento pela palavra.
Este é o instrumento adequado, é o alimento certo, o ar salutar; é a palavra que representa remédio, fogo e ferro. É dela que se deve fazer uso quando se tornar necessário cortar e queimar. E onde a palavra nada conseguir, todas as outras coisas também não têm valor. Com a palavra levantamos a alma caída, tranqüilizamos a irritada. Pela palavra removemos eventuais excrescências da alma, acrescentamos o que falta, providenciando, desta maneira, tudo o que possa ser proveitoso para o seu bem-estar.
Encontrando alguém com vida perfeita, o exemplo dele poderá conseguir despertar o zelo e a vontade de imitá-lo; se, porém, encontrarmos alguma alma adoentada por falsas doutrinas de fé, tornar-se-á necessário o emprego intensivo da palavra, não só para a segurança da própria fé, mas também para a defesa da mesma contra os ataques inimigos de fora. Pois se alguém estivesse armado com a espada da inteligência e o escudo da fé de tal maneira que conseguisse praticar milagres, tapando com eles a boca dos insolentes e atrevidos, não necessitaria do auxílio da palavra. Ainda assim o poder da palavra de maneira alguma seria inútil, mas antes de grande proveito. O próprio Paulo serviu-se dela, apesar de provocar admiração geral com seus milagres. Ainda outro apóstolo nos recomenda o emprego da palavra dizendo: Estai sempre prontos a defender-vos contra quantos exigirem justificativas da esperança que há em vós.
Pelo mesmo motivo os apóstolos entregaram o cuidado das viúvas a Estêvão e seus colegas, para poderem dedicar-se eles mesmos, mais assiduamente, ao ministério da palavra. Entretanto, não precisaríamos dedicar tanto esforço ao ministério da palavra se ainda possuíssemos o dom de praticar milagres. Já que deste dom não nos restou nem vestígio, ao passo que os inimigos nos atacam continuamente e de todos os lados, vemo-nos na necessidade de armar-nos com a palavra, quer para defender-nos dos ataques dos inimigos, quer para nós atacarmos a eles.” [2]
Em tempos de crise, portanto, nada é mais importante que “o aconselhamento pela palavra”. Porque o que verdadeiramente move o ser humano é a verdade.