Sobre o limbo...
O limbo, entendido como lugar de plena
felicidade natural, mas sem a Visão Beatífica (pena de dano), não era consenso
unânime entre os Santos Padres. Ao enfrentar os pelagianos, Santo Agostinho
ensinou que as crianças mortas sem o Batismo Sacramental iriam para o inferno
propriamente dito, onde sofreriam penas mitigadas.
No séc. XVII, ainda encontramos o Cardeal São
Roberto Belarmino ensinando isto, e recusando a felicidade natural do limbo:
O lugar (das ditas
crianças) é o cárcere inferior, lugar horrível e tenebroso, onde certamente não
podem ser felizes os que aí habitam - De amissione gratiæ 1. VI cc 6 et 2
De Fé Católica se deve
crer que os pequeninos mortos sem batismo estão condenados e carecerão para
sempre não só da bem-aventurança celeste, mas também da natural - Ibid., c. 2
O que era consenso unânime entre os Santos
Padres é que quem morre apenas com o pecado original, sem pecado atual, não
pode salvar-se, por causa da pena (de dano) devida ao pecado original.
— Mas o Papa Pio VI não proclamou infalivelmente
a doutrina do limbo?
Não! Vejamos o que ele disse:
O papa declara falsa,
temerária, injuriosa às escolas católicas, a proposição segundo a qual deve ser
rejeitado como uma fábula pelagiana o lugar dos infernos, chamado vulgarmente
limbo das crianças, no qual as almas daqueles que morrem somente com o pecado
original são punidas com a pena de dano sem a pena do fogo - Bula Auctorem
fidei; cf. DB 1526
Para entender a fala do Papa Pio VI, é preciso
revisitar a história. No passado, os pelagianos haviam proposto um lugar onde
as crianças estariam salvas, porque não teriam o pecado original (negação do
pecado original e suas consequências). Para os pelagianos, apenas os pecados
pessoais condenam. Consequentemente, as crianças salvar-se-iam sem o Batismo.
Como vimos, Santo Agostinho reagiu fortemente contra isso, e afirmou que as
crianças mortas sem o Batismo não têm esperança de salvação.
Voltando ao contexto do Papa Pio VI, se havia
os que simplesmente seguiam Santo Agostinho, como São Roberto Belarmino, havia
também os jansenistas, que além de “seguir Santo Agostinho”, ainda negavam o
limbo como uma heresia pelagiana — cf. Sínodo Jansenista de Pistoia, 1786. E é
aqui que se nos fica clara a intenção do Papa Pio VI, em 1794: o que ele
condena não é a recusa do limbo, mas a acusação jansenista de que o limbo seja
“fábula” pelagiana. O que o Papa está dizendo é que o limbo não é doutrina
pelagiana, porque não nega o pecado original e suas consequências ao postular
uma felicidade natural. Portanto, o Papa defende a ortodoxia (e não a
infalibilidade) do limbo.
Agora releiam a fala do Papa Pio VI,
transcrita acima.
Em todo caso, assim como o Papa Pio VI
defendeu o direito de se ensinar a doutrina do limbo, Papas como Paulo III,
Bento XIV e Clemente XIII permitiram que se ensinasse a doutrina de Santo
Agostinho — não a acusão dos jansenistas, evidentemente.
Atualmente, o Magistério da Igreja, levando em
consideração as reflexões de inúmeros teólogos dos séculos XIX e XX — não são
apenas teólogos posteriores ao Concílio Vaticano II, como dizem por aí —, diz
que talvez possa haver uma via extraordinária (batismo extraordinário) para as
crianças mortas sem o Batismo Sacramental. Vejamos exatamente o que diz o
Magistério, pelo Papa São João Paulo II:
Quanto às crianças que
morrem sem Baptismo, a Igreja não pode senão confiá-las à misericórdia de Deus,
como o faz no rito do respectivo funeral. De facto, a grande misericórdia de
Deus, ‘que quer que todos os homens se salvem’ (1 Tm 2, 4), e a ternura de
Jesus para com as crianças, que O levou a dizer: ‘Deixai vir a Mim as
criancinhas, não as estorveis’ (Mc 10, 14), permitem-nos esperar que haja uma
via de salvação para as crianças que morrem sem Baptismo - Catecismo da Igreja
Católica, § 1261
Destaquei três termos do parágrafo acima.
Primeiro, a Igreja não está dizendo que tem certeza da salvação das crianças
mortas sem o Batismo Sacramental. De fato, o documento da Comissão Teológica
Internacional, de 2007, aprovado pelo então Papa Bento XVI, diz que o limbo
“permanece, portanto, uma hipótese teológica possível”.
O que a Igreja está dizendo é que tem
esperança— e esperança remete-nos a um bem árduo e difícil — e que, por isso,
reza (funeral) por essas crianças.
Mas esperança de quê? De que talvez haja uma
via extraordinária (batismo extraordinário) para as crianças mortas sem o
Batismo.
A esperança da Igreja não é infundada.
Funda-se, antes de tudo, na Misericórdia de Deus, em Sua vontade salvífica
universal e na salvação dos Santos Inocentes. De fato, a Tradição ensina que os
Santos Inocentes, que não tinham o uso da razão, foram salvos por um batismo
extraordinário — entenda-se: algo que lhes conferiu a graça justificante —, um
martírio involuntario.
Atente-se para isto: foi um martírio
involuntário, pois elas não tinham o uso da razão. Santo Tomás de Aquino diz
que nenhuma obra, nem mesmo o martírio, teria mérito se não tivesse a caridade.
Então a graça e a caridade foram infusas nessas crianças, mesmo que ainda não
tivessem o uso da razão.
Ora, que a hipótese de um batismo
extraordinário para os bebês não fira nenhum consenso unânime dos Santos
Padres, vemos no grande tomista e ferrenho antiprotestante, o Cardeal Caetano
(Tommaso de Vio), de inegável ortodoxia:
Em caso de necessidade,
para assegurar a salvação das crianças, parece suficiente o batismo expresso
pelo desejo dos progenitores apenas, principalmente se a este desejo se
acrescenta algum sinal exterior - In S. Th., IIIa pars, q. 68
O Cardeal Caetano está falando de um batismo
extraordinário pelo desejo dos pais. Teólogos posteriores propuseram a oração,
o desejo, a esperança etc. da Igreja. Enfim, os argumentos são vários, mas só
quero mostrar que a hipótese de um batismo extraordinário não fere o Magistério
infalível e nem um consenso unânime dos Santos Padres.
É doutrina infalível que se alguém morrer
apenas com o pecado original, sem pecado atual, sofrerá pena de dano (privação
eterna de Deus), mas não é dogma que toda criança morta sem o Batismo
Sacramental necessariamente morra com o pecado original. Pode ser que Deus lhe
tenha concedido a graça justificante por uma via extraordinária, a exemplo dos
Santos Inocentes ou da hipótese do Cardeal Caetano.
Por uma graça especial, São João Batista foi
santificado ainda no ventre materno, sem o Batismo Sacramental. Sobre esse tipo
de santificação, Santo Tomás de Aquino diz:
As crianças existentes no
ventre materno ainda não vieram à luz, para levarem uma vida com os demais
homens. Logo, não podem submeter-se à ação humana de modo a receberem por ministério
deles os sacramentos da salvação. Podem, porém, submeter-se à ação de Deus,
para quem vivem, de modo a conseguirem a santificação por um privilégio da
graça: assim como fica patente dos santificados no ventre materno - S. Th.,
IIIa pars, q. 68, ad 1
E o Angélico diz isso justamente ao tratar da
impossibilidade física de se batizá-las dentro do ventre materno. Tal
impossibilidade não é um impedimento para o poder de Deus, no entender do
Aquinate.
A possibilidade de um batismo extraordinário
não é inconciliável com o limbo, pois ainda que esteja correta, não é certo que
Deus aplique este batismo a todos, nem quais são os “critérios” estabelecidos
pelos Seus eternos desígnios. O Cardeal Caetano fala do desejo manifesto dos
pais…
Em síntese, o que sabemos até aqui:
É doutrina comum da Igreja que as crianças
mortas sem o Batismo Sacramental não vão para um lugar de sofrimento. Elas
certamente têm plena felicidade natural… e é possível que Deus lhes conceda,
conforme Seus desígnios, também a felicidade sobrenatural.
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Por Diácono Allan Victor Almeida Marandola
Centro Santo Afonso Maria de Ligório
Oi, caro amigo. Tudo bem? Meu nome é João Emiliano Martins Neto. Sou natural de Belém, a capital do Estado do Pará. Sobre a questão teológica muito interessante, ao meu ver, do limbo eu escrevi, hoje, dia 20 de dezembro de 2022 um artigo para o meu blog contextualizando a questão do limbo com a apostasia de um pastor protestante chamado Carlton Pearson que deixou de acreditar no inferno, um dos novíssimos, dada, sobretudo, ele ter se deparado com crianças que nos anos 2000 sofreram com uma guerra lá na terra delas, em Ruanda em terras d'África. Ele se escandalizou, porque a doutrina dos hereges protestantes mais ortodoxos é rigorista, só se salva quem é nominalmente cristão no sentido herético como os tais hereges protestantes entendem que é ser cristão.
ResponderExcluirEntão, eu escrevi um artigo a respeito, leia lá, por favor. Eis o link https://joaoemilianoneto.blogspot.com/2022/12/carlton-pearson-e-solucao-chamada-limbo.html
Espero que gostes. ABRAÇOS!