“O sonho do
ser humano é ser Deus e seu pesadelo é ver-se obrigado a simular que alcançou
esse propósito”. - Guilhermo Cabreira Infante, escritor cubano
radicado em Londres
A serpente
disse à mulher: “não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele
comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses” (Gn 3,4. 5).
A primeira e
a mais soberba e exacerbada das tentações é querermos ser como Deus ou
até mesmo sermos deuses. Como exemplo, Pedro se recusou a ser tratado como um
deus (At 10,26), enquanto Herodes aceitava o título de “deus” (At 12,22-23).
Herodes, no entanto, “... roído de vermes, expirou.” (At 12,23). Quando Paulo e
Barnabé ouviram a multidão chamando-os de deuses, pelos nomes de “Mercúrio” e
de “Júpiter”, perceberam como era grande essa tentação. “Ouvindo isto, os
apóstolos Barnabé e Paulo rasgaram seus mantos e precipitaram-se em meio à
multidão e disseram: amigos, que estais fazendo? Nós também somos seres
humanos, sujeitos aos mesmos sofrimentos que vós” (At 14, 15). De modo a
corrigir o povo sobre o erro de atribuir divindade a eles (At 14,14-15).
Contrariamente ao que é pregado por outros cultos, nós não somos deuses.
Ao invés de
cada um de nós tornarmo-nos deuses, Deus se fez um de nós. Ele se fez um ser
humano. Ao invés de nos fazer homens-deuses, Ele se fez Deus-homem. Desse modo,
nós não tornamos Deus, mas podemos ter parte em sua natureza divina (2 Pd
1,4) e “... a fim de que, por ele, nos tornemos justiça de Deus.” (2 Co 5,21).
Podemos até mesmo ter Deus, o Pai, Filho, e Espirito Santo estabelecendo uma
morada conosco (Jo 14,23). Não somos deuses; somos tabernáculos e templos de
Deus (1Co 6,19) (1).
Somos
pecadores que carecem do perdão, de mudanças via a graça maravilhosa de Cristo
e de progressiva santificação no amor de Deus. A nossa vida deve caminhar na
humildade e simplicidade da doutrina do Evangelho de Jesus.
O ser humano
com sua inteligência e natureza pecaminosa e perversa criam sistemas para
melhor canalizar suas ideologias e realizar seus projetos de domínios. Toda
estrutura torna-se manipulada pela sede de poder. Legitimado pela ferramenta da
ciência, das leis, da cultura e da
religião. O ser
humano que pensa ser Deus, vice Deus, um ser divino intocável, esquematiza sua
vida religiosa como representante “único” de Deus e finge uma
espiritualidade que engana espetacularmente seus seguidores.
O maior e o
mais bem sucedido sistema de controle, de poder e de escravidão é o religioso.
É imperativo para os fiéis não questionar o líder religioso, os dogmas, as
crenças e jamais as finanças do “templo sagrado”. O renomado jornalista
americano e autor do livro A Prisão da Fé, Lawrence Wright, escreveu: “Passei
boa parte de minha carreira examinando os efeitos de crenças religiosas sobre a
vida das pessoas. Historicamente, essa é uma influência muito mais profunda
sobre a sociedade e os indivíduos que a política, matéria-prima de tanto
jornalismo” (2).
A revelação
mais terrível é saber que tais líderes não acreditam em nada do que é
transcendental, sobrenatural, Divino e Eterno.
O teatro da
liderança religiosa é uma arte grandiosa que se esmera de forma tão eficaz que
passa para o público a imagem de verdadeiros praticantes da fé, do amor, da
caridade, da paz e da justiça; no entanto, tudo é encenação litúrgica
arquitetônica. Tudo tem que ser majestoso: das vestes religiosas aos templos
grandiosos. Tudo é para impressionar, pasmar os crentes e deixa-los
impossibilitados de se libertar, questionar e de pensar diferente.
Há muitas
igrejas, religiões, seitas, crenças, farta literatura de doutrinas espirituais
e mentores demais; todavia falta a vivência da verdade, da liberdade religiosa,
da união abissal e da comunhão entre todos.
Pe. Inácio
José do Vale
Professor de
História da Igreja
Instituto de
Teologia Bento XVI
Sociólogo em
Ciência da Religião
E-mail: pe.inacio.jose@gmail.com
(1) Um Pão,
Um Corpo, 18/05/2014, p. 54.
(2) Wright,
Lawrence. A prisão da fé: cientologia, celebridade e Hollywood, 1. ed. São
Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 14.
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